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Os rostos da seca em Cuba

Esta história faz parte de nossa colaboração com o projeto de mídia digital cubano Periodismo de Barrio. Por meio dessa parceria, nossos leitores poderão obter uma perspectiva sobre Cuba, diferente daquela apresentada pela mídia tradicional.

No sudeste do país, há um corredor seco que se estende por 11 municípios nas províncias de Santiago de Cuba e Guantánamo. Nesta área vivem 1,3 milhão de pessoas que direta ou indiretamente são afetadas pela seca. O despovoamento progressivo das áreas rurais tem um aspecto mais crítico nesta região: o da migração climática. Estas são algumas das histórias de vida daqueles que decidiram ficar.

Reinaldo em stand-by

Há muito tempo, Reinaldo Mestre queria semear café ou bananas em seu terreno, mas as pessoas o aconselhavam a não fazer isso. E ele não fez, porque lá, exatamente onde ele tem suas colheitas, deveria ser construída a via de transporte mais importante da ilha.

Reinaldo chegou em 1981 em El Socorro, um dos assentamentos ao longo da Rodovia Central, entre as cidades de Songo e La Maya, em Santiago de Cuba, quando o sonho da grande estrada nacional A1, que uniria Cuba, ainda estava em andamento.

Mas no início dos anos 90 e após o colapso do socialismo na Europa, Cuba teve que paralisar a construção da A1. Em El Socorro, extensões de terra foram dadas aos agricultores para que não ficassem ociosos e pudessem produzir alimentos durante a crise econômica vivida pelo país. Reinaldo foi um dos ganhadores de terras.

Naquela época, as pessoas foram informadas que o local seria temporário, até que o trabalho de construção fosse retomado. E como a notícia sobre essa decisão poderia chegar a qualquer momento, não deveriam plantar safras que levariam tempo para colher, como o café. Pelo menos foi o que lhe disseram, e Reinaldo seguiu essas instruções.

A situação “temporária” se prolongou, a estrada está inacabada, no mesmo estágio em que parou há quase 30 anos: a cerca de 12 quilômetros de Songo. Durante todo esse tempo, o terreno que depende totalmente da chuva, sem sistemas de irrigação e sem água para torná-lo produtivo, Reinaldo resignou-se a esperar e sonhar com uma plantação de café. Sua vida foi gasta esperando.

Hoje, aos 85 anos, um rim a menos e uma renda de 200 pesos, Reinaldo ainda está em El Socorro. Na mesma terra que às vezes não produz o suficiente para vender, na mesma casa de madeira, sob o mesmo telhado e chão de terra batida, onde a água corrente não chega.

Longe dali, o sonho inacabado da Rodovia Nacional é apenas uma linha nos mapas, um projeto de prosperidade não realizado e pelo qual Reinaldo continua a esperar para a realização dos seus sonhos.

Adela e o poço

Adela Pantoja queria ser enfermeira. Mas depois que ela se formou no ensino médio na Ilha da Juventude, nos anos 80, ela teve que voltar para La Loma, onde nasceu, a cerca de 20 quilômetros de Madrugón, em Santiago de Cuba. Ela voltou para cuidar de seus pais idosos e doentes. Ela começou a trabalhar nos campos de café aos 19 anos e aos 20 deu à luz. Quando tinha 30 anos, e com dois filhos, ela conheceu Mayito, um divorciado de 42 anos. Eles se uniram e foram morar juntos. Para trabalhar nos campos.

Desde então, os dias de Adela são todos iguais. Acorda às 5 da madrugada, prepara o café, e vai para a fazenda. Às 11 da manhã, ela sai da enxada e vai almoçar. Ela faz café, limpa o jardim, varre, banha os animais. Às 15h:30 ela retorna ao campo até o anoitecer. Seu único tempo livre é à noite, quando ela se senta por um tempo e assiste TV.

Eu tento falar com ela para que explique como a terra é cultivada em um dos territórios mais secos de Cuba, mas é Mayito quem conta, quem corrige as datas e quem acaba dominando a conversa.

Ele diz que eles sobreviveram à seca de três anos (que acabou matando quase todas as ovelhas e gado) graças ao poço. Esse poço é o coração da fazenda de sete hectares, que permite colher uma tonelada e meia de grãos por ano, ou cortar 60 cachos de banana em uma tarde e para enviar aos mercados de Santiago de Cuba.

Demorou um pouco mais de três meses para construí-lo. Noventa e sete dias para cavar um buraco de 17 metros de profundidade. “Um feito real”, ele repete, a fim de enfatizar a realização da família. Adela explica em voz baixa que havia outro poço antes, mas que secou. Eles cavaram o novo a cerca de dez metros do anterior. Ela diz que com a mula ela puxou uma enorme quantidade de sujeira. A inscrição no parapeito do poço diz:

“Data de início, 10/12/2011. Concluído em 15/03/12, no dia do aniversário da minha filha Mayelín. Esta obra foi feita por Osmay Tejeda, Yordanis Tejeda, Clavel, a mula, Coronel, o touro …”.

- E você, Adela? Perguntei.

- Ah, e nós…

Mas seu nome não estava lá.

Nieves cozinha para as pessoas

Por volta das 6 da manhã, os fazendeiros vão até a plantação de café e Nieves ouve passos e murmúrios, os sons da aurora. Então, ela se levanta e começa a ferver a água para tomar banho e fazer café.

Nieves Mojena chegou em Arroyo Llano em 1984 para visitar sua irmã. Ela se casou e permaneceu na cidade. Trabalhou para a emissora de televisão local, depois como guardiã da escola. Depois de fazer alguns cursos de culinária, há 12 anos, assumiu a cansativa tarefa de cozinhar para a Cooperativa de Créditos e Serviços Romáricos Cordero, que atua em quase todas as partes da região. Com 50 anos, ruiva e ansiosa, Nieves faz café, tentando estimar quantas pessoas foram à plantação de café para poder preparar a quantidade exata de comida. Hoje, por exemplo, ela cozinhou 4kg de arroz (um caldeirão grande), 1kg de ervilhas (dois potes), bananas cozidas e um pedaço de frango para cada um, coxas ou sobrecoxas. Às vezes, ela cozinha chilindrón de cabra, carne de porco ou mortadela ao molho.

Às 11h:30 da manhã, os colheiteiros pesam os grãos coletados e descansam. É a hora de Nieves: ela chega. Ela gosta de fazer a tempo porque, ela diz, “é assim que a produção avança. Também gosto de colher grãos  para evitar o pico de amadurecimento e o café seja desperdiçado”. Ela pode receber dinheiro extra por cada lata. Seu salário como cozinheira é de 500 pesos por mês.

“Estamos pensando em construir uma casa nas plantações de café para cozinhar lá. Seria mais fácil, porque eu preparo a panela e vou com a cesta, realizo a colheita por um curto período de tempo e depois volto para verificar a panela… Então eles poderiam comer uma refeição quente “.

Nos dias de muito trabalho, Nieves retorna do campo por volta das 15h; nos dias mais tranquilos, quando escurece. “Quando cheguei esta tarde, fiz congri (um prato de feijão preto e arroz), e com o frango que cozinhei para a casa, já tenho a refeição preparada.” À noite, ela prepara um lanche e assiste TV. Às 22h, o gerador de energia elétrica é desligado, a cidade escurece, Nieves vai dormir e, novamente, escuta os agricultores a caminho da plantação de café.

Nena

Nena tem cerca de 60 anos (ela não tem certeza) e um lote de terra plantado com bananas, feijão e batata doce. O lote fica a cerca de 1km de El Socorro, um vilarejo na direção de Alto Songo. Nena semeou e colheu sozinha, e com esse trabalho seus filhos se alimentaram. Um dia, Nena se surpreendeu ao ver o marido com outra, eles discutiram, e o homem abandonou Nena e os cinco meninos. “Desde então, eu não tenho marido e não quero.”

A fazenda onde ela mora tem eletricidade e um banheiro externo. Ela tem que sair em busca de água ou esperar a chuva. Nena vai ao poço todos os dias e corta madeira que ela carrega na cabeça. Ela cozinha com o querosene que recebe a cada três ou quatro meses, 12 galões por vez. Seus filhos têm 40 anos e já foram embora. Agora, ela a relata sua vida. “Eu acordo de manhã e se quero vou para o campo, senão, não vou. Eu faço reparos na casa: telhas, móveis quebrados, rachaduras nas mesas, troca de lâmpada, lugares sujos, chão sujo e minhas tristezas “.

Georgina Castillo, mãe de Nena, tem uma pequena cabana em frente à plantação de bananas e diz que tem 60 anos, mas não se lembra exatamente. De acordo com Nena, ela deve ter 80 anos. Uma magnífica mulher negra, curvada mas ainda forte e nobre. Com sete filhos. Até recentemente, Georgina trabalhava em seu jardim, mas ela não é mais capaz de fazer isso, então Nena cuida disso agora. Elas moram em casas separadas.

Nena não foi para sua terra nos últimos dois dias. A última vez que ela limpou as plantações. Agora ela está cuidando de duas porcas grávidas que são criadas em liberdade. Ela se sente feliz que um de seus filhos a visita de vez em quando. O resto do tempo, Nena e Georgina estão sozinhas, sem terem certeza de que dia é hoje, e do que fizeram no dia anterior.

O abacateiro de El Caney

Kikito, um homem de meia idade, vive na comunidade de El Caney, em Santiago de Cuba. Ele fornece água para as casas, e atualmente seu trabalho está em demanda devido à seca que atinge a província.

Os girassóis da Virgem Maria

Muito perto do santuário de El Cobre, Deivi cultiva girassóis, uma das oferendas mais procuradas para a Virgen de la Caridad del Cobre. Neste vídeo, ele explica como é possível cultivar na região leste, apesar da seca que afeta essa área.

Este artigo é um trecho exclusivo para a Global Voices. Leia a versão original de “Os rostos da seca” aqui.

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