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Poema épico retrata luto iugoslavo pela morte de John F. Kennedy

Photo of the book "A Nation of Immigrants" by John F. Kennedy (JFK)

Livro de John F. Kennedy Uma nação de imigrantes, em uma prateleira. Acervo do autor.

Escrito em 1965, um poema épico que expressa o luto dos iugoslavos pelo assassinato do presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy foi postado no Twitter, em novembro de 2018. Por meio do tuíte, o historiador autor do post relembra a relação de proximidade que a ex-Iugoslávia manteve com os Estados Unidos durante a Guerra Fria.

Milorad Lazić, doutorando da Universidade George Washington, tuitou a respeito do poema “Morte em Dallas”, que revela a popularidade de John F. Kennedy na ex-Iuguslávia.

A morte de #JFK chocou a Iugoslávia. Uma canção folclórica celebra a morte do herói:

[Tradução da letra – rimada, no original]
Nosso governo e o Conselho Executivo Federal
Cheios de tristeza, enviam condolências.
Todas as nossas bandeiras à meia-haste,
Por toda parte o povo expressa genuíno luto.
Nosso amigo Kennedy se foi,
Toda a nação lamenta

O poema épico narra alguns dos eventos que levaram ao assassinato do presidente.

“Morte em Dallas” descreve o drama de 22/11/1963:
Quando passavam pela passagem subterrânea
o fuzil de precisão do vilão começou a atirar.
O sorriso alegre desapareceu
quando a terrível tragédia aconteceu
A primeira bala atingiu Kennedy
para a sombria surpresa de todos
A esposa gritou: Eles mataram meu marido!
Seu sangue brotava no buquê de rosas

Os 17 minutos de poema cantados por Jozo Karamatić, um cantor de música croata tradicional da Herzegovina, foram lançados em um único LP de 7″ da gravadora Jugoton, de Zagreb, em 1965. Diversas versões estão disponíveis no YouTube.

A poesia épica na cultura dos Bálcãs

A poesia épica oral, ou o ato de recontar os feitos de seres míticos e heróis em verso longo, é a marca registrada da cultura bálcã desde o tempo de Homero, que escreveu a Ilíada e a Odisseia. No século XIX, a poesia dos povos eslavos do sul recebeu muita atenção dos intelectuais ocidentais, sendo considerada a forma viva dessa arte, extinta no resto da Europa. Muitos cantores de música folclórica entoavam suas rimas de resistência para os invasores, acompanhados do instrumento de uma corda chamado guzla, à moda dos bardos medievais.

A tradição continuou viva no século XX, nas regiões montanhosas de Montenegro, Sérvia, Croácia, e Bósnia e Herzegovina. Após a Segunda Guerra Mundial, esse tipo de expressão passou a fazer parte da cultura pop iugoslava, com o renascimento da música folclórica proporcionado pela indústria do disco de vinil.

Além dos velhos clássicos, alguns cantores de música folclórica compuseram suas próprias canções com base nos estilos tradicionais. Um desses discos inclui o poema épico “Morte em Dallas”.

Kennedy e a Iugoslávia

As relações entre os Estados Unidos e a Iugoslávia socialista esfriaram no final dos anos 1950. Após esse período, a administração de Kennedy fez de tudo para garantir a independência do país em relação ao bloco soviético. Ele restabeleceu o status de Nação Mais Favorecida da Iugoslava, para reatar o comércio e o auxílio econômico, e impulsionou o prestígio do governo iugoslavo, que mantinha o equilíbrio entre o Ocidente e a União Soviética.

Veterano da Segunda Guerra Mundial, Kennedy tinha boa reputação na Iugoslávia também por seu apoio à causa antifascista.

Ele chegou até mesmo a visitar o país durante um passeio pela Europa, quando ainda era senador.

Membros do Exército americano do 8º Hospital de Evacuação, em Skopje, após o terremoto de 1963. A unidade foi levada para o local do desastre para prestar assistência médica às vítimas. Foto de domínio público, disponibilizada por Wikipedia.

Além disso, Kennedy alcançou o status de herói entre o povo iugoslavo ao oferecer rápido auxílio após o terremoto que devastou a Escópia, em julho de 1963. O desastre matou mais de 1.070 pessoas e deixou cerca de 200 mil desabrigados. Apenas dois dias após a tragédia, o Exército americano enviou serviços hospitalares que ajudaram a cuidar de milhares de feridos. A administração de Kennedy  forneceu muitas formas de ajuda, incluindo moradias temporárias.

O ápice da relação entre os dois países ocorreu quando o líder iugoslavo Josip Broz Tito visitou pela primeira vez a Casa Branca, em outubro de 1963. O cordial encontro entre os líderes está amplamente documentado na biblioteca presidencial John F. Kennedy. Na Iugoslávia, o encontro provou a grandeza de seu líder e, por associação, a importância do país no palco internacional, apesar de seu pequeno território.

Todos esses fatos contribuíram para a intensidade do choque e da tristeza após o assassinato de Kennedy, no dia 22 de novembro de 1963.

De forma peculiar, o poema épico “Morte em Dallas” registrou os sentimentos do povo, desde a Eslovênia até a Macedônia.

Durante as décadas de 1970 e 1980, o canto de poesia épica tornou-se menos popular, e o público voltou-se para formas mais breves de música. Contudo, algumas facções nacionalistas que iniciaram a Guerra Civil Iugoslava nos anos 1990 promoveram a poesia épica como parte de sua propaganda, buscando apresentar-se como defensores da tradição. Esse tipo de expressão cultural existe ainda hoje, mas quase exclusivamente como forma de preservar a tradição folclórica.

 

Revisado por Nina Jacomini

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