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Você realmente precisa aprender japonês para morar no Japão?

 Materiais didáticos japoneses

Livros didáticos e dicionários de japonês. Imagem de Nevin Thompson.

No final de abril, a seção de livros do jornal The New York Times postou um tuíte que desencadeou uma série de debates e condenações sobre se um estrangeiro residente no Japão por um longo período deveria ou não aprender japonês.

O tuíte em questão está relacionado a uma crítica do The New York Time sobre o novo livro de Pico Iyer, Autumn Light. Iyer é um renomado ensaísta e escritor de viagens que vive intermitentemente no Japão há 25 anos.

O debate levantou temas como o Orientalismo e como o Japão tem sido tradicionalmente retratado pelos escritores ocidentais, a condição das mulheres nos casamentos interculturais e o trabalho não remunerado que os homens nascidos no estrangeiro se submetem apenas para se adaptarem ao dia a dia no Japão, e ainda como a hierarquia que existe na comunidade estrangeira do país.

De acordo com a editora de Iyer, o novo livro pretende ser “uma exploração profunda da história e da cultura japonesa, e uma reflexão comovente sobre a impermanência, a mortalidade e a tristeza”.

Embora tenha vivido no Japão por 25 anos, Pico Iyer prefere aprender apenas alguns termos em japonês porque, segundo ele, é preciso haver um certo mistério “e uma sensação de espaço aberto na vida; algo para compensar o senso do familiar”.

— New York Times Books (@nytimesbooks) April 23, 2019

É pouco provável que muitas pessoas tenham lido no Twitter a crítica do New York Times sobre livro de Iyer. A maioria das 290 respostas ao tuíte original e uma série de conversas entre estrangeiros residentes no Japão centraram-se no fato de que Iyer nunca aprendeu japonês, apesar de ter vivido no país por vários anos.

Outros comentaram sobre o anonimato da “esposa japonesa” de Iyer, que, presumivelmente, garante que Iyer possa viver com facilidade no Japão.

Em outras palavras, ele vive a vida de um criança eterna, incapaz de se envolver como um adulto com as pessoas que o rodeiam. Ainda bem que ele tem a esposa para cuidar de tudo que necessite para morar aqui.

— Nulla Crux, Nulla Corona (@EasternSmooth) April 23, 2019

Como estrangeiro que vive no Japão de forma descontínua e que investiu uma quantidade significativa de tempo aprendendo japonês e tentando se adaptar, o tuíte do New York Times me deixou irritado. Deixei alguns comentários no Twitter expressando minha indignação com as supostas atitudes de Iyer sobre o Japão, embora eu geralmente não critique publicamente colegas escritores e residentes do Japão. A participação da comunidade estrangeira que vive há muito tempo no Japão nas redes sociais é mínima, e o número de residentes estrangeiros que escrevem sobre o país é ainda menor. Um comentário depreciativo pode criar uma confusão interminável nas redes sociais.

Além disso, existe um pequeno mas signficativo número de imigrantes que residem há muito tempo no país (alguns dos quais já naturalizados e cidadãos japoneses) que perseguem e importunam jornalistas, acadêmicos e outros escritores que têm opiniões “equivocadas” sobre o Japão. É uma cultura tóxica que tenho vivenciado diretamente ao escrever sobre o Japão na Global Voices, mas da qual não quero participar.

E, ainda assim, fiz questão de publicar alguns comentários expressando minha irritação com Pico Iyer.

Por que a recusa de Pico Iyer em aprender japonês inspira tanta indignação? Uma razão poderia ser que quase todos os ocidentais que passam um tempo no Japão têm a sensação de dever cumprido ao conseguir realizar tarefas simples como ler uma tabela de horários do trem ou fazer um pedido no restaurante, e um sentimento de desprezo por outros visitantes ou residentes estrangeiros que não têm a mesma habilidade.

Nem todo residente estrangeiro que vive há muitos anos no Japão tem tempo e energia para dominar a língua japonesa, o que torna fácil para nós que falamos e lemos japonês nos sentirmos superiores (embora, na hierarquia estrangeira do Japão, haja sempre alguém que tenha alcançado um domínio ainda maior do japonês do que você e que, portanto, possa se sentir ainda mais superior).

Também é preciso muito tempo e esforço para um ocidental estabelecer a vida no Japão. Além de aprender aproximadamente 1.800 caracteres chineses e dominar 10.000 palavras, os residentes estrangeiros do Japão precisam se tornar quase especialistas em um número quase infinito de assuntos, incluindo etiqueta, lei tributária, história, comida e a importância de sempre ter um lenço de bolso (banheiros públicos quase nunca têm toalhas de papel para secar as mãos).

O duro esforço de integração e sobrevivência no país se traduz em uma espécie de sentimento de posse do país e da cultura: “Como você sabe alguma coisa sobre o Japão? Você nem conhece as regras que conduzem as campanhas eleitorais municipais!”(Essa é uma crítica real que recebi recentemente de outro veterano que tentou colocar-me em meu lugar.)

Há também algo protecionista na reação dos “residentes de longa data” sobre o que os outros escrevem com respeito ao Japão. Temas relatados com frequência na mídia ocidental sobre como os japoneses não estão fazendo sexo ou como as usinas nucleares de Fukushima estão envenenando o Pacífico são quase obsessivamente ridicularizados e caçoados no Twitter e no Facebook.

O usuário do Twitter @deivudesu parodiou a complicada hierarquia social dos estrangeiros no Japão em um diagrama amplamente compartilhado que, apesar de ser irônico, mostra como o status é importante.

Quem menospreza quem no Japão?

“Quem menospreza quem na comunidade estrangeira do Japão.” Imagem cedida pelo usuário do Twitter@deivudesu, reprodução proibida sem permissão.

No entanto, quanto mais duras são as lições aprendidas sobre o país, mais nos damos conta de como a vida mundana no Japão realmente é. Famosos chocolates Kit-Kat, máquinas automáticas de vendas, templos zen, hotéis-cápsula e trens que funcionam pontualmente são apenas ruídos de fundo e totalmente banais. As máquinas de fax na verdade ainda são regularmente usadas em muitos países do mundo, e não apenas no Japão. Na verdade, é bastante simples participar de uma cultura supostamente insular.

Você realmente precisa aprender japonês para morar no Japão? Como tudo na vida, a resposta correta é inteiramente pessoal. Afinal de contas, não importa onde você vive, é uma decisão totalmente individual optar por uma vida medíocre, rica em variadade ou misteriosa.

 

 

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