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Os japoneses estão fazendo sexo?

Photo: Jeremy Clarke / Flickr. CC 2.0.

Foto de Jeremy Clarke / Flickr. CC 2.0.

No final de fevereiro de 2016, a Agência de Recenseamento do Japão anunciou que a população do país sofreu um declínio líquido, com mais mortes que nascimentos, pela primeira vez desde que o país começou a manter esses registros em 1920.

A informação chega em meio às reportagens periódicas presentes nos meios de comunicação ocidentais informando que os japoneses estão fazendo menos sexo do que nunca. Alguns autores ocidentais até mesmo perguntam por que os jovens japoneses pararam de fazer sexo.

Afinal, os japoneses fazem sexo com qual frequência, e mais sexo poderia ajudar a melhorar a taxa de natalidade do Japão?

A população do Japão está oficialmente em declínio

Primeiramente, vamos considerar o declínio da população japonesa. Nos últimos cinco anos (o Japão realiza um censo completo a cada 10 anos e uma contagem parcial a cada cinco anos), a população do país diminuiu em cerca de 950.00 pessoas (em torno de 0,7%)  passando a 127,1 milhões. Em 2015, quase um terço da população japonesa tinha mais de 65 anos. A projeção para 2050 é que aproximadamente 40% dos japoneses terão mais de 65 anos.

Para piorar o futuro populacional do Japão, a taxa de fecundidade do país tem sido cerca de 1,41 nascimento por mulher, bem abaixo da “taxa de substituição da população”, que é de aproximadamente 2,1 (o número médio de filhos por mulher para substituir a população durante quase quarenta anos, desde a década de 1970).

Na verdade, o anúncio feito este mês pela agência de recenseamento sobre o declínio líquido da população já havia sido previsto faz um bom tempo.

O Japão não é o único país do mundo a experimentar esse fenômeno. Na Alemanha, a fertilidade permanece abaixo de 1,5 criança por mulher desde 1975, enquanto o Banco Mundial aponta que a região Ásia-Pacífico está envelhecendo mais rapidamente que qualquer outro lugar. Ou seja, o envelhecimento populacional é um desafio global que não é exclusivo do Japão.

O governo Abe objetiva “estabilizar” a população do Japão em 100 milhões, incentivando as mulheres (de algum modo) a ter mais filhos e a melhorar a taxa de crescimento populacional.

O problema principal (está provado, diz a sabedoria popular) é que os japoneses não estão mais interessados em sexo.

A “síndrome do celibato” do Japão existe ou é invenção da mídia estrangeira?

Mais do que compará-la com seus pares como a Alemanha, a imagem do país está frequentemente ligada à ideia de que os japoneses não estão fazendo sexo. Aparentemente, no Japão, há um nome para este fenômeno: “síndrome do celibato” (セックスしない症候群). Curiosamente, o verbete da Wikipédia para esta expressão cita um artigo de 2013 do The Guardian  como a principal fonte do termo.

Um artigo em japonês sobre a “síndrome do celibato” começa com uma referência a um documentário de 2013 da BBC intitulado “Nada de sexo, por favor, somos japoneses”. A maioria dos resultados de busca para “セックスしない症候群” parecem ter ocorrido ao redor de 2013, e os artigos em língua estrangeira publicados, por exemplo, no Huffington Post e no China's People's Daily Online, superam os resultados em língua japonesa.

Pesquisa Durex 2006/07 ainda tem peso

A ideia pode ter sido originada do método de referência utilizado em uma pesquisa sobre sexo, a Pesquisa Global de Bem-estar Sexual (Sexual Wellbeing Global Survey), realizada pela fabricante de preservativos Durex em 2006 e 2007. Essa pesquisa de opinião, que já tem quase uma década, entrevistou 26.000 pessoas, com 16 anos ou mais, em 26 países, sobre seus hábitos sexuais.

Apesar de ter mais de 10 anos, os resultados da pesquisa da Durex continuam a ser reutilizados ano após ano pelos meios de comunicação ocidentais e japoneses.

Por exemplo, em um artigo de 2014 da edição on-line da revista Toyo Kezai, Sechiyama Kaku, um professor na Universidade de Tóquio, cita o estudo da Durex de 2006/07 para argumentar que o “Japão tem a mais baixa frequência sexual do mundo”. No estudo da Durex, os japoneses responderam que faziam sexo 45 vezes por ano, o número mais baixo entre todos os 41 países pesquisados.

Dito isto, um relatório japonês mais recente, e ainda pouco conhecido, parece confirmar as conclusões da Durex sobre a libido do Japão. Na verdade, a Sagami, empresa líder no mercado de preservativos no Japão, realizou sua própria pesquisa sobre sexo em 2013. O blogueiro Yuta Aoki resumiu os resultados da sondagem da Sagami aqui, em inglês. Aoki aponta que a pesquisa mais recente da Sagami parece confirmar a conclusão da Durex: os japoneses informam que não fazem muito sexo.

Os “casamentos assexuados” japoneses

Aoki observa que a sondagem da Sagami indica que as pessoas em relacionamentos sérios no Japão (Durex examinou pessoas sexualmente ativas) podem estar fazendo sexo bem menos que 45 vezes por ano. Um estudo de 2006 feito pela Bayer mostrou que os casais japoneses, em média, fizeram sexo apenas 17 vezes por ano.

Além disso, o estudo da Sagami descobriu que 55,2% dos casais se consideravam assexuados. Nos últimos anos, o “casamento assexuado” se transformou em um tema muito debatido no Japão.

Um levantamento feito pela Associação Japonesa de Planejamento Familiar revelou que a maioria dos homens casados estavam muito ocupados ou cansados do trabalho para fazer sexo. As mulheres japonesas relataram que o sexo era uma atividade “muito enfadonha”.

No entanto, o interessante sobre o estudo da Sagami, relata Aoki, é que, em geral, as pessoas no Japão não têm aversão ao sexo: 58% das mulheres e 83% dos homens solteiros entre 20 e 30 anos dizem que querem fazer sexo.

Mesmo havendo uma variedade de razões pelas quais algumas pessoas no Japão vivem sem sexo, a aversão não é uma delas.

Os homens japoneses podem estar fazendo sexo, mas não com suas parceiras

É importante salientar que no contexto do levantamento da Sagami, casais que relataram estar em um casamento “sem sexo” estavam se referindo apenas aos parceiros daquele relacionamento.

Pouco é falado sobre o sexo extramarital e o sexo pago.

De acordo com várias pesquisas no Japão, entre 10 e 20 % dos homens e metade desse percentual de mulheres admitiram ter tido sexo extramarital (不倫, furin). Diante disso, mesmo se os japoneses estiverem em relacionamentos sem sexo, não é correto dizer que estejam sem fazer sexo.

Além disso, muitos homens casados no Japão fazem uso da bilionária indústria do sexo do país de 5 bilhões de dólares (5兆6,884億 円). Certamente, no Japão, uma significativa parcela de homens heterossexuais casados está pagando por sexo.

Uma significativa minoria dos homens japoneses heterossexuais casados pode estar pagando por sexo

De acordo com a Agência Nacional de Polícia do Japão (APN), em 2011 houve mais de 29.000 negócios ligados à indústria do sexo no país (性風俗関連特殊営業, seifuzokukanrentokushueigyo), 10.000 a mais que em 2007.

O comércio do sexo no Japão consiste em uma variedade de estabelecimentos e empresas, incluindo bordeis (soaplands), casas de massagem, agências de acompanhantes e serviços de encontros pagos.

Em uma enquete conduzida pela MiW (uma comunidade voltada a fornecer apoio e aconselhamento às pessoas cujos parceiros tem sexo extramarital), 23% dos homens casados entrevistados em Tóquio disseram que tinham pago por sexo.

Um outro levantamento feito pelo Centro Nacional de Educação Feminina do Japão chegou à conclusão de que 40% dos homens japoneses pagam por sexo.

Assim, embora a “síndrome do celibato” no Japão possa existir, talvez ocorra apenas entre casais heterossexuais em relacionamentos duradouros.

Qual o impacto disso no declínio da taxa de natalidade japonesa?

Uma nova política do governo Abe está fazendo com que as mulheres japonesas enfrentem duplos ou triplos dilemas: elas estão sendo incentivadas a ter mais filhos para aumentar a taxa de natalidade do país e reduzir o lento declínio  populacional e, ao mesmo tempo, encorajadas a “entrar” e participar da força de trabalho. Entretanto, ainda se espera que essas mulheres cuidem dos filhos e dos parentes idosos.

Dessa forma, mesmo que mais sexo signifique uma taxa de natalidade mais elevada, para as mulheres japonesas poderia significar apenas mais trabalho e até menos tempo livre do que têm agora.

Com pesquisa de Masae Okabayashi.

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