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Qual é a origem dos ancestrais dos povos indianos? Debate sobre a migração indo-ariana ganha novos capítulos

Mapa de migrações indo-europeias. Imagem de Joshua Jonathan via Wikimedia Commons. CC BY SA 4.0

A teoria da migração indo-ariana, controversa há tempos, volta a fomentar discussões na Índia depois que um artigo do jornal The Hindu evidenciou provas genéticas de que os povos indo-arianos migraram da Ásia Central e da Europa para o sul da Ásia.

Os povos indo-arianos fazem parte de um grupo etnolinguístico de falantes de diversas Iínguas indo-arianas e vivem, predominantemente, no Sul da Ásia. Os atuais descendentes desse grupo contabilizam mais de 1 bilhão de pessoas, ou 1/7 da população mundial.

Há uma longa disputa entre pessoas adeptas e contrárias à teoria de que os indo-arianos migraram de outras regiões para a Índia. Dentre os opositores da teoria, nacionalistas hindus e alguns pesquisadores, por vezes, apontam essa teoria como produto do colonialismo com o intuito de denegrir a Índia.

A teoria alternativa, proposta pelos opositores com base na Rigveda, uma das escrituras religiosas mais antigas do hinduísmo, sugere que os arianos são nativos do subcontinente indiano. O conceito de uma raça ariana pura e a divisão social que muitas escrituras hindus recomendam seguindo o princípio de uma raça serviram para incitar ainda mais o conflito.

Os pesquisadores mais conhecidos tendem a rejeitar essa teoria com base em estudos linguísticos e genéticos, argumentando que evidências apontam para a origem dos povos indo-arianos e iranianos nos proto-indo-iranianos. Após sua separação entre 1800 e 1600 AEC, os iranianos se estabeleceram no Irã, enquanto os arianos migraram para a Anatólia (boa parte da Turquia atual), para o Paquistão, para o norte da Índia e do Nepal. Os modelos indo-arianos clássicos tentam explicar como as migrações teriam ocorrido por volta de 1500 AEC da Ásia Central e do Leste Europeu para o Sul da Ásia e para a Anatólia, possivelmente trazendo os ancestrais dos indo-arianos e a língua sânscrita à Índia.

Um artigo detalhado de 16 de junho do The Hindu, intitulado “How Genetics Is Settling the Aryan Migration Debate” (Como a genética está solucionando os debates sobre a migração ariana, em tradução livre), aborda diversos outros aspectos sociais referentes à hipótese, como a estrutura patriarcal na Índia e como a língua sânscrita foi trazida para o subcontinente indiano pelos arianos.

A migração ‘ariana’ ocorrida por volta de 2000 AEC não é mais uma teoria. Uma série de dados de DNA põe fim ao debate.

O artigo cita múltiplas fontes de pesquisas conduzidas em vários países que apoiam e rechaçam essa teoria. Uma citação provém de uma pesquisa recente feita por 16 cientistas que levou a uma publicação especializada intitulada “A Genetic Chronology for the Indian Subcontinent Points to Heavily Sex-Biased Dispersals” (Uma cronologia genética do subcontinente indiano aponta para distribuição impulsionada por sexo, em tradução livre), da revista BMC Evolutionary Biology:

In particular, genetic influx from Central Asia in the Bronze Age was strongly male-driven, consistent with the patriarchal, patrilocal and patrilineal social structure attributed to the inferred pastoralist early Indo-European society. This was part of a much wider process of Indo-European expansion, with an ultimate source in the Pontic-Caspian region, which carried closely related Y-chromosome lineages, a smaller fraction of autosomalgenome-wide variation and an even smaller fraction of mitogenomes across a vast swathe of Eurasia between 5and 3.5 ka.

Em especial, a afluência genética da Ásia Central na Era do Bronze foi majoritariamente liderada por homens, em consonância com a estrutura social patriarcal, patrilocal e patrilinear atribuída à sociedade indo-europeia primitiva, que antes se acreditava ser pastoril. Isso faz parte de um processo muito mais amplo da expansão indo-europeia, originária essencialmente na região pôntico-cáspia, de estirpes com linhagens estreitamente relacionadas ao cromossomo Y, uma fração menor da variação de um genoma autossômico e uma fração ainda menor de mitogenomas de uma enorme gama da Eurásia entre 5 e 3,5 ka.

O professor da Universidade de Harvard David Reich também é citado. Ele está há muito tempo empenhado nesse assunto e é a favor das teorias de migração indo-europeias. Em 2009, ele publicou o trabalho “Reconstructing Indian Population History” (Reconstruindo a história da população indiana, em tradução livre) e, posteriormente, em 2016, em entrevista, frisou a mistura de raças no subcontinente indiano:

In the beginning of 2007, we started studying at the whole genome level, the whole organism level, the DNA from initially twenty-five diverse Indian populations. It’s now more than 200 that we’ve studied. We picked these populations to be as diverse as possible, capturing the linguistic diversity of India. […]

[…] the great majority of Indian groups today are descended from a mixture of basically just two ancestral populations, one which we call the ancient ancestral North Indian and one which we call the ancestral South Indian. Everybody is mixed in India without exception. Even the most isolated groups, which are hunter-gatherers living in the forest or isolated places, everybody is mixed with at least 20 percent of each of these ancestries.

No início de 2007, começamos a estudar todo o genoma, todo o organismo e o DNA de inicialmente 25 populações indianas. Atualmente, são mais de 200 populações estudadas. Selecionamos essas populações, pois as consideramos as mais diversas possível para capturar a diversidade linguística da Índia. […]

[…] a grande maioria dos grupos indianos hoje descendem de uma mistura de basicamente dois povos ancestrais básicos: um deles denominamos ancestral antigo do norte da Índia e o segundo chamamos ancestral do sul da Índia. Todos os povos indianos são miscigenados, sem exceção; até mesmo os grupos mais isolados, que são caçadores-coletores de florestas ou de lugares isolados, têm uma mistura de ao menos 20% dessas descendências.

Esquema de migrações indo-europeias de 4000 a 1000 AEC de acordo com a Hipótese Kurgan. Imagem da Wikimedia Commons de DBachmann. CC BY SA 3.0

“Se as evidências realmente mudaram, também mudarei minha posição”

Audrey Truschke, professora assistente de história sobre a Ásia Meridional na Universidade de Rutgers, dos EUA, tuitou em referência ao artigo:

As evidências linguísticas que apoiam a teoria da migração ariana são muitos fortes. Para aqueles que também precisam das ciências exatas.

Sitaram Yechury, veterano líder do Partido Comunista da Índia, e Devdutt Pattanaik, mitologista e escritor, elogiaram o artigo:

As evidências históricas da migração ariana e da confluência que é a Índia. Um trabalho brilhante de Tony Joseph.

Artigo excelente. Por ser científico, desagradará àqueles que odeiam mitos.

Contudo, Anand Ranganathan, editor-consultor do canal de notícias indiano Newslaundry.com, atacou o artigo no The Hindu:

Algumas reflexões breves sobre o interessante artigo sobre a migração ariana publicado hoje no The Hindu.

O usuário do Facebook Nityanand Jayaraman também assinalou para a possibilidade de uma relação próxima entre os indianos do norte com afegãos e paquistaneses:

Interesting article on how Yogi Adityanath and Vishnu Bhagwat may be more closely related to their brothers in Pakistan and Afghanistan than they care to acknowledge. And about India's multiculturalism.

Artigo interessante sobre como o parentesco de Yogi Adityanath e Vishnu Bhagwat com seus irmãos paquistaneses e afegãos pode ser mais próximo do que quiseram reconhecer, além do multiculturalismo da Índia.

Sanjeev Sanyal, um escritor que antes se opunha à teoria da invasão ariana, escreveu no Facebook que havia lido os artigos publicados recentemente e que estaria disposto a mudar sua opinião se as evidências tivessem mudado:

The genetic evidence on “Aryan Invasion” appears to have shifted to support a migration around 2000 BC (according to this article anyway). Have not closely followed the latest papers, will need time to read the new papers on this. If the evidence has really changed, I will also change my view. Only way to do research.

Evidências genéticas da “invasão ariana” parecem ter mudado para apoiar a migração de aproximadamente 2000 AEC (ao menos, segundo esse artigo). Não acompanhei de perto os últimos trabalhos. Preciso de tempo para lê-los. Se as evidências realmente mudaram, também mudarei minha posição. A única forma de realizar pesquisa.

O debate em relação à teoria de que os indo-arianos teriam migrado para a Índia e trazido sua antiga língua sânscrita para o sul da Ásia continua gerando controvérsia e abrindo caminho para mais pesquisas antropológicas sobre os povos, as culturas e as línguas da região. As mais de 780 línguas da Índia fazem com o que o país seja um dos mais linguisticamente diversos do mundo. Entretanto, dessas línguas, somente 22 gozam de proteção constitucional, enquanto mais de 196 línguas estão em perigo de extinção.

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