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Brasil: Com liderança da extrema-direita nas eleições, LGBTs relatam ataques e crises de ansiedade

Levantamento aponta que ocorreram cerca de 70 ataques no Brasil pelo “acirramento da violência política”, no período de eleições| Foto: ONG Somos/Divulgação/Usada com permissão

Dias depois do primeiro turno das eleições no Brasil, que deram 46% dos votos ao candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro, o país viu aumentarem os relatos de agressões e intimidações contra pessoas LGBT.

Bolsonaro é conhecido por declarações polêmicas, como dizer a uma colega deputada que não a estupraria “porque ela não merecia” e já disse ser “homofóbico, com orgulho“.

Entre relatos de ameaças e agressões, crises de pânico e ansiedade viraram rotina para população LGBT nestas eleições. O Global Voices ouviu algumas das histórias de quem viveu isso.

O designer e figurinista Filipe Teixeira, 24 anos, conta que foi vítima de intimidações de pessoas que declaram voto em Jair Bolsonaro no dia seguinte à votação. Ele saía de casa para almoçar em um bairro de classe média-alta, em Porto Alegre, no sul do país, quando homens dentro de um carro gritaram: “Bolsonaro vai matar viado” (uma gíria no Brasil para se referir a homens gays).

Me senti intimidado e constrangido também pela exposição. Tinha pessoas em volta, não fui o único a ouvir. Fora que eu sofro de ansiedade e pânico e essas situações são certamente um forte gatilho para que as crises aconteçam. Penso também nas pessoas que têm menos recursos do que eu pra tratar esses problemas, o quanto podem vir a sofrer.

Felipe diz que sua mãe ficou preocupada e nervosa quando soube do fato e chorou. Ele diz ainda:

Vamos resistir, acima de tudo, e torcer para que as coisas não sejam tão ruins quanto a gente espera, por mais que eu não acredite muito nisso.

Em São Paulo, um caso semelhante aconteceu com o ator e diretor de teatro Caio Balthazar, 31 anos. Ao sair a pé do local onde votou no dia 7 de outubro, um homem o empurrou e o xingou gritando coisas como “Vai dar o cu, seu viadinho” e “Você tem que dar o rabo, seu viadinho filho da puta”. Em seu perfil no Facebook, Caio escreveu:

Era tanto ódio que saía da boca dele, mas tanto ódio. Eu fiquei em choque, perplexo, totalmente sem reação. Quando eu falo que o discurso de ódio ameaça minha existência, eu não estou exagerando.

“Veado de merda! Logo, logo a gente vai poder te matar”. Essas foram as palavras que o terapeuta ocupacional Diego Celestino, 30 anos, ouviu enquanto caminhava na rua voltando do trabalho na semana após as eleições também em São Paulo.

O marido dele, Flávio Henrique Santana, 29 anos, disse que o casal já andava assustado por causa de agressões sofridas por amigos próximos. Em 11 anos de relacionamento, eles nunca haviam sofrido ameaças do tipo.

Depois de relatar o que houve nas redes sociais, Flávio compartilhou o post no grupo de WhatsApp da família, que tem vários eleitores de Bolsonaro. Ele diz que ninguém se manifestou sobre o que aconteceu.

Ao Global Voices, Flávio diz que, mesmo depois de se sentir desestabilizado, percebeu a necessidade de resistir:

Nós nos sentimos muito sozinhos, é como se a gente não tivesse apoio das pessoas que mais espera: a família. Eu não quero ninguém chorando no meu velório quando eu for assassinado por homofobia. É o que a gente pode fazer agora. Ao mesmo tempo, estamos cogitando sair do Brasil caso ele ganhe. Não vou pensar duas vezes.

De volta ao armário?

Mulheres protestam contra o presidenciável Jair Bolsonaro em Brasilia | Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Para o psicólogo e professor Angelo Brandelli Costa, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), está acontecendo uma repetição do momento em que as pessoas eram obrigadas a esconder sua sexualidade. Ele diz:

No Brasil, nunca tivemos uma mudança completa. A violência estava latente e as pessoas não percebiam. O que mudou, agora, é que também se está responsabilizando certos grupos sociais por problemas que são mais complexos e envolvem economia e política.

Costa lembra que existem pesquisas detectando que experiências de preconceito direto — quando as pessoas LGBT são violentadas física ou verbalmente — e indireto — quando se antecipa que uma agressão pode acontecer — têm uma repercussão grande na vida das vítimas gerando ansiedade, depressão e isolamento.

Para ele, o que estamos vivendo é uma crise civilizatória em que direitos humanos estão sendo violados e as instituições que deveriam protegê-los não estão conseguindo lidar com a situação.

Precisamos ir para um outro debate, de entender que qualquer pessoa deve ter seus direitos preservados simplesmente por serem pessoas e não apenas por sofrerem. Os LGBTs têm direito a ocupar o espaço público e se ele se tornou tóxico, temos que pressionar para que se adapte.

Outros ataques

Manifestação Mulheres contra Bolsonaro em São Paulo, uma semana antes das eleições | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Um levantamento da Agência Pública aponta que ocorreram cerca de 70 ataques no Brasil pelo “acirramento da violência política”, desde o dia 30 de setembro até a semana após as eleições. A grande maioria provocada por apoiadores de Bolsonaro:

Uma jornalista esfaqueada e ameaçada de estupro. Um carro jogado em cima de um jovem com camiseta do Lula que conversava em frente ao bar com os amigos. Uma jovem presa e agredida, jogada nua em uma cela da delegacia. (…) Isso mostra que as declarações de Bolsonaro que incitam a violência contra mulheres, LGBTs, negros e índios e a violência policial estão ecoando país afora e se transformaram em agressões físicas e verbais nestas eleições.

À mesma reportagem, a jovem transexual Guil Andrade, de Belo Horizonte, relatou que levou um tapa ao tirar um adesivo a favor de Bolsonaro, colocado em seu peito à força por um apoiador dele:

Medo. É a única coisa que consigo definir no momento (…) A gente vai ficando acuado, trancado em casa, não estou conseguindo trabalhar. Eu quero poder existir sem ser questionada e pressionada o tempo todo.

Entre outros ataques envolvendo não apenas LGBTs, ocorridos após as eleições, está o assassinato do capoeirista Moa do Katendê, 63 anos. Moa foi morto com 12 facadas nas costas, na cidade de Salvador, Bahia, após ter declarado voto em Fernando Haddad, opositor de Bolsonaro, membro do Partido dos Trabalhadores.

O que dizem os candidatos

O próprio Bolsonaro também sentiu a violência causada pelas tensões políticas: ele foi esfaqueado no início de setembro, enquanto fazia um ato de campanha. Segundo a Polícia Federal, o agressor agiu sozinho.

Perguntado na rádio CBN sobre os ataques cometidos por seus apoiadores, Bolsonaro disse que não poderia se responsabilizar por seus eleitores e que era uma “vítima”. No Twitter, escreveu:

Porém, seu adversário, Fernando Haddad, lembrou na mesma rádio falas do candidato prometendo “fuzilar” os membros do PT e exaltando um torturador do regime militar, para dizer que “ao não se controlar, [Bolsonaro] não controla mais ninguém”.

O segundo turno das eleições no Brasil acontece no dia 28 de outubro.

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