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Como o sexo é enquadrado nas notícias sobre o Japão

Estátua de uma “mulher de conforto”. Estátuas como essa estão espalhadas pelo mundo. Licença da imagem:  CC0 Domínio Público

Os meios de comunicação anglófonos parecem ter obsessão com o sexo no Japão. Gueixas, garotos que negam a sexualidade, mulheres que não querem se casar, androgenia, robôs e mangás eróticos parecem dominar a cobertura da mídia internacional, criando uma visão exótica e restrita da cultura japonesa.
 
Entretanto, é difícil saber se essa tendência evidente nas reportagens é dominante na cobertura de notícias, ou se tais histórias parecem mais prevalentes porque têm forte caráter sensacionalista.
 
Uma busca no Google com a combinação de palavras “sexo e Japão”, em agosto 2017, teve como resultado instantâneo um número significativo de histórias:

Como esperado, esses artigos fetichizam o assunto sexo e Japão, frequentemente com uma pincelada robótica. Histórias que eu também analisei.

Os termos “sexo e Japão” também estão previsivelmente ligados ao debate preocupante e contínuo sobre “mulheres de conforto“, mulheres do leste da Ásia traficadas como escravas sexuais pelas forças japonesas durante a Segunda Guerra Mundial, e como o Japão recorda e enxerga essa história. Alguns artigos recentes incluem:

O uso da poderosa plataforma Media Cloud Dashboard permite um olhar mais aprofundado e matizado na forma como os meios de comunicação anglófonos enquadram o sexo e o Japão. Essa ferramenta tanto ajuda a identificar padrões e tendências na linguagem midiática quanto desafia minhas próprias preconcepções.

Como o Japão se enquadra? Quem está fazendo o enquadramento?

Embora os resultados da amostra aleatória da plataforma Media Cloud Dashboard sejam estatisticamente significativos, eles são mais sugestivos que oficiais. Começamos a investigação com análise da mídia anglófona orientada para o público dos Estados Unidos, devido às reportagens completas e consistentes realizadas pelos meios de comunicação com influência significativa no enquadramento de tópicos que são proeminentes nos noticiários. A coleta averigua os meios de comunicação de todo o mundo anglófono, o que gera uma grande quantidade de dados mesmo com esse espectro restrito.

A primeira consulta mostra histórias com frases que contêm as palavras “sexo e Japão”, publicadas entre agosto 2016 e agosto 2017. Na plataforma Media Cloud, o modo visual “Word Clouds” oferece indícios de combinação das palavras nos conteúdos midiáticos. Quanto maior a palavra na nuvem, maior sua frequência. Os resultados completos podem ser encontrados nesta planilha on-line. A amostra resultante dos padrões das notícias pôs em cheque o meu preconceito cognitivo inicial.

japan sex

Usando a Media Cloud Dashboard para examinar a cobertura em três amostras da linguagem usada pela mídia anglófona entre meados de agosto de 2016 e meados de agosto de 2017, descobri que o tópico “sexo e Japão” não se pautava exclusivamente em robôs ou na falta de interesse dos japoneses pelo sexo. (Ver imagem ampliada)

Eu imaginava que essas histórias sobre sexo e Japão nos meios ocidentais se limitavam a como o país era estranho, fetichista e pervertido. Embora essa linguagem seja evidente, a história de maior destaque no ano passado foi sobre a Coreia, escravidão e guerra, tópicos provavelmente relacionados à questão das “mulheres de conforto” na Segunda Guerra Mundial.

Um olhar mais atento para os dados mostra 227 histórias sobre “sexo e Japão” na mídia dos Estados Unidos no ano passado. Cinquenta e quatro destas histórias mencionaram as palavras “escrava” ou “escravidão” e 37 delas incluíram a palavra “estátua”. Isto indica que, quando se trata de “sexo e Japão”, “mulheres de conforto” é um temas significativo.

Outras narrativas predominantes sobre sexo e Japão colocam em foco o envelhecimento populacional do país. Uma reportagem descreve “o problema de sexo” no Japão como sendo responsável pela chamada “bomba de tempo demográfica“, que nos leva ao que uma outra fonte chama de “a extinção” japonesa. Quatro histórias contêm “problema de sexo” no título, três usam a palavra “demográfica” e outras três incluem “população”. O The Washington Post relata que o “Japão tem um número preocupante de virgens“.

Nove histórias na consulta associam “sexo e Japão” com robôs. Isso inclui uma história do Daily Mail sobre bonecas sexuais e um artigo da Forbes sobre o turismo sexual com robôs.

Outras histórias relatam que o Japão proibiu a posse de pornografia infantil e o papel atual do país no tráfico sexual.

Um aumento na cobertura de “sexo e Japão”?

Nos resultados, as matérias sobre “sexo e Japão”, veiculadas entre 17 e 18 de janeiro de 2017, estavam vinculadas à palavra “estátua”. Eram referências às estátuas de mulheres de conforto que grupos ativistas sul-coreanos ergueram na Coreia, incluindo uma localizada perto da embaixada japonesa, outra próxima a um consulado regional da Coreia do Sul e em outros países.

japan sex framing

Parece ter havido um aumento no número de histórias mencionando esses termos em meados de janeiro de 2017. (Ver imagem ampliada)

Essa cobertura enfocou a vigília ocorrida na Coreia do Sul no início de janeiro, para protestar contra um acordo entre os governos do Japão e da Coreia do Sul em 28 de dezembro de 2015. O acordo tinha o propósito de resolver de uma vez por todas a questão das mulheres de conforto. A Associated Press (AP) fez a cobertura da vigília e a história que foi amplamente divulgada, causando o aparente “aumento” na cobertura.

Eu queria entender como as mesmas histórias foram veiculadas na Coreia do Sul. Uma consulta usando as palavras “sexo e Japão” pela agência anglófona de notícias Yonhap para o mesmo período mostra que os termos “escravidão” e “escravas” também dominam os resultados. No entanto, não houve picos de cobertura ao longo do ano, o que indica que a informação foi constante.

Surpreendentemente, enquanto na cobertura dos meios de comunicação dos EUA se mescla “mulheres de conforto” e escravidão sexual com as referências esperáveis a bonecas e robôs sexuais, a cobertura da Yonhap não contempla nenhum desses temas.

japan sex korea

Ao comparar a cobertura anglófona estadunidense (esquerda) e a cobertura anglófona da Yonhap (direita), a Media Cloud Dashboard indicou que ambas as fontes cobriram o tema das “mulheres de conforto” (centro). Entretanto, os meios de comunicação estadunidenses incluíram também resultados mais claramente sexuais. Comparando a frequência das histórias, verifica-se que enquanto a cobertura da mídia estadunidense teve um pico em janeiro de 2017, as notícias veiculadas na Yonhap apareceram de forma regular e consistente. As nuvens de palavras da Media Cloud são dinâmicas: uma nuvem de palavra ligeiramente diferente será criada para cada nova busca, mesmo usando termos de busca e intervalo de tempo iguais. (Ver imagem ampliada)

Isso sugere que nos meios de comunicação anglófanos da Coreia do Sul, os termos “Japão” e “sexo” fazem parte de discussões sérias, que pouco tem a ver com a fetichização sexual do “Japão estranho” presente nas reportagens ocidentais.

Uma advertência se faz necessária ao comparar a cobertura anglófona da agência de notícias Yonhap com a cobertura geral em inglês: o conjunto de informações para a Yonhap é pequeno e somente abrange os artigos em inglês que ela escolhe publicar on-line. Sem examinar as histórias sobre “sexo e Japão” em coreano durante o mesmo período, podemos somente fazer observações sobre o que encontramos na plataforma Media Cloud.

Enquadrando trabalho sexual e tráfico humano

Embora histórias sobre mulheres de conforto sejam extensivamente veiculadas, poucas publicações escolhem examinar as suposições subjacentes ao uso do termo como uma descrição exata ou justa dos papéis. O termo implica que estas mulheres eram “seguidoras de acampamentos” (camp followers) que escolheram vender seus corpos por sexo, e não pessoas que foram enganadas e obrigadas à escravidão sexual.

A prática de recrutar trabalhadoras sexuais é parte da longa história japonesa de tráfico de mulheres, já que os campesinos pobres vendiam as filhas para trabalhar em bordeis das cidades. Anos mais tarde, as mulheres karayuki eram recrutadas para trabalhar em bordeis em todo o Sudeste Asiático. Em ambos os casos, as meninas e as mulheres eram forçadas a aceitar o trabalho escravo, o que as impedia de pagar as suas dívidas.

O Japão não foi o único no tráfico de mulheres após a guerra. As forças da ocupação dos Estados Unidos criaram suas próprias “estações de conforto” no Japão e na Coreia, copiando o modelo de “mulheres de conforto”.

Há 72 anos, em 26 de agosto de 1945, estabeleceu-se a “Associação de Recreação e Diversão” (RAA na sigla em inglês) pelas forças dos EUA no Japão. Prostitutas (mulheres de conforto) foram contratadas pela RAA para servir às tropas aliadas no Japão. A fotografia mostra soldados americanos reunidos em uma Casa Yasu-ura. Imagem colorida por rede neural.

Por último, o termo “mulheres de conforto” é falacioso, pois não conecta aquelas práticas antigas com o tráfico de mulheres atual. Estima-se que aproximadamente 4,5 milhões de pessoas foram aprisionadas e exploradas sexualmente em todo o mundo no ano de 2017.

Como as “mulheres de conforto” são enquadradas na mídia dos EUA

Alguns autores da mídia dos Estados Unidos, como Mindy Kotler, uma especialista no assunto, têm o cuidado de enquadrar o tema “mulheres de conforto” como ele é realmente: mulheres escravizadas com a finalidade de prover sexo. Mas, o que ocorre com outros autores e repórteres?

Eu usei a Media Cloud para pesquisar o termo “mulheres de conforto” para o mesmo período da análise inicial, entre meados de agoste de 2016 e meados de agosto de 2017, e, em seguida, examinei as histórias em profundidade.

Das 252 histórias sobre “mulheres de conforto”, 25 traziam “escravidão” no título. Links inativos e acessos pagos me impediram de examinar algumas das histórias, mas dos 208 artigos acessíveis, 106 incluíam “escrava” no título ou na história em si quando se referiam às “mulheres de conforto”.

Cinquenta por cento destas histórias reconhecem a realidade: essas mulheres não eram seguidoras de acampamentos, eram, no melhor dos casos, vítimas de tráfico sexual. Os outros 50% descrevem as mulheres pelo eufemismo “mulheres de conforto” ou como “prostitutas”.

O que vem em seguida na cobertura de sexo e Japão?

O acordo firmado em 2015 entre o Japão e a agora desprestigiada ex-presidente da Coreia do Sul, Parque Geun-hye, continuará a ser um ponto-chave da discussão nas relações entre os dois países, visto que foi assinado pela ex-presidente Park, que espera julgamento e punição severa por acusação de corrupção. O novo governo sul-coreano pode rever os termos, especialmente porque alguns grupos civis têm aumentado a visibilidade do tema com a instalação de estátuas de “mulheres de conforto” nos ônibus urbanos de Seul. Assim, nós podemos esperar uma cobertura continuada do tópico.

A cobertura futura do tema permanece uma incógnita. Para explorar esses assuntos mais detalhadamente, necessitaríamos examinar os meios de comunicação em outras línguas e observar as interconexões e tensões entre as histórias. Mergulhos mais profundos poderiam nos ajudar a compreender:

  • Até que ponto as “mulheres de conforto” são compreendidas pela mídia como pessoas escravizadas e exploradas, e;
  • Até que ponto a fetichização da cultura japonesa é um enquadramento comum nos meios de comunicação estadunidenses e  ocidentais anglófanos em comparação com outros.

Essa pesquisa de “sexo e Japão” e “mulheres de conforto” é apenas um começo. Ela me ajudou a ir além dos tópicos sensacionalistas e das minhas próprias preconcepções, como também a usar uma mescla de informações e de análises para compreender as tendências reais da cobertura de notícias.

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