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Lobos solitários também são terroristas

Lone Wolf Screenshot

Captura de tela da  partida de videogame “Rainbow Six Siege – episódio 1 – Lone Wolf!”, no YouTube  publicada em 8 de março de 2016, pelo usuário Bay Area Buggs.

Um dos temas mais debatidos após o tiroteio de Las Vegas foi se o atirador que causou a tragédia devia ser descrito como “lobo solitário” em vez de “terrorista”. Um argumento muito usado é que chamar assassinos de lobos solitários em vez de terroristas é um tipo de tratamento preferencial para brancos, especialmente se comparado ao tratamento dado a criminosos negros, e mais ainda se muçulmanos.

O termo lobo solitário tem associações românticas com o individualismo e as mitologias do Oeste americano. Por outro lado, como analisado no blog da comunidade Global Voices, perpetradores negros e muçulmanos são, com muita frequência, e por padrão, considerados ou rotulados como “terroristas” nos Estados Unidos.

Esta caracterização é retoricamente convincente, embora errada, pela simples razão de que a mídia, as forças de segurança e outros setores norte-americanos empregam o termo “lobo solitário” para caracterizar terroristas, muçulmanos e negros. A ideia de que há privilégio e preconceito no noticiário dos EUA sobre terrorismo e tiroteios em massa é verdadeira, mas se manifesta de outra forma.

De fato, as referências a muçulmanos ou ao islamismo estão entre os temas mais frequentes na mídia dos Estados Unidos, sempre que a notícia aborda um lobo solitário assassino ou um terrorista.

Também chamaram os muçulmanos de “lobos solitários”

Uma análise abrangente sobre a cobertura da mídia nos últimos tempos pelos principais veículos de notícias dos EUA mostra que houve um grande número de histórias sobre lobos solitários relacionadas com o Islã ou os muçulmanos.

Dados reunidos pela Media Cloud, uma plataforma que estuda os ecossistemas midiáticos, demonstraram que: ao pesquisar por “lobo solitário” foram identificadas 3.657 histórias sobre lobos solitários em fontes de notícias on-line nos EUA, de 1.º de janeiro de 2016 até agora (A Media Cloud é parceira do nosso projeto NewsFrames). “Terrorista” é a palavra mais frequentemente associada, e termos como “islâmico”, “Estado Islâmico” e “muçulmano” ou “jihadista” também aparecem nas primeiras colocações da amostra aleatória.

Termos mais frequentemente associados com “lobo solitário” em uma amostra da coleta de dados das principais mídias de notícias on-line dos EUA de 1.º de janeiro de 2016 a 5 de outubro de 2017. Fonte: Media Cloud (Ver imagem ampliada)

A frequência da palavra “terrorista” pode ser devida a existência de uma categoria sociológica para “lobo solitário terrorista”, como demonstra este estudo de 2014 do Centro Internacional de Luta contra o Terrorismo ou esta pesquisa de 2015 do Centro de Estudos de Segurança de Georgetown. De acordo com a pesquisa, os EUA, sofreram mais ataques terroristas de lobos solitários do que qualquer outro país. Foram 113 entre 1968 e 2010. E, curiosamente, os ataques de lobos solitários foram explicitamente encorajados por grupos extremistas de supremacistas brancos dos EUA a partir dos anos 1990. Apesar disso, as investigações concluem que, atualmente, “os lobos solitários parecem vir de todos os âmbitos extremistas ideológicos e religiosos”, e as principais semelhanças entre os ataques de lobos solitários podem ser encontradas nos traços de personalidade, na psicologia ou na forma de socialização, e não na ideologia.[1]

Ainda assim, os dados da Media Cloud demonstram que o termo usado na mídia contemporânea dos EUA é, com frequência, associado ao Islã. Isto talvez possa refletir um aprimoramento das táticas de lobos solitários por indivíduos que se identificam com esta afiliação, mas também é provável que se trate da contínua obsessão dos EUA com a radicalização do islamismo, tanto na classe política como no discurso público. Isto é certo, apesar do fato que, nas últimas décadas, mais atentados nos Estados Unidos tenham sido ocasionados por radicais de extrema direita que por extremistas islâmicos.

Analisando mais profundamente os 465 artigos que mencionaram “lobo solitário” e “Islã” ou “muçulmanos” na mesma frase, as narrativas revelam uma forte associação entre muçulmanos e lobos solitários nos noticiários dos EUA. Isso se deve, em parte, a relatos de que o Estado Islâmico (aqui ou aqui) e clérigos muçulmanos radicais como Anwar al-Awlaki encorajem ações de lobos solitários.

Descrições de muçulmanos nos Estados Unidos como lobos solitários assassinos foram vistas em noticiários no passado, nos casos de Omar Mateen, em Orlando ou de Syed Rizwan Farook, em San Bernandino, embora, no último caso, ele tenha sido caracterizado junto com a esposa como “jihadista”, portanto não exatamente “solitário”.

O moderador Lester Holt levantou a questão de forma dramática com perguntas a Bernie Sanders e Hilary Clinton durante os debates presidenciais do Partido Democrata de 2016, ao discutir o Estado Islâmico e os ataques de lobos solitários nos EUA: “Nós precisamos reconhecer que nossa primeira linha de defesa contra ataques de lobos solitários está entre americanos muçulmanos”, disse Clinton.

A grande questão é quando e como usar o termo “terrorista”

O principal problema é como associamos os tiroteios em massa com o terrorismo. A frequente associação na cobertura das  notícias entre “terrorista” com muçulmanos ou o Islã já foi vista antes, e dados também comprovam isso.

Mesmo retirando considerações do Estado Islâmico, esta amostra de 89.442 artigos on-line norte-americanos para o mesmo período, demonstra que os termos “islâmico” e “muçulmano” estão entre os mais frequentes usados junto à palavra “terrorista”. Embora alguns desses artigos possam ser caracterizações de ataques terroristas de vítimas muçulmanas, os termos “jihadista” e “islamitas” confirmam que o termo é frequentemente associado a perpetradores.

Quando falamos dos Estados Unidos, a aplicação legal do termo “terrorismo” supostamente deve cumprir certos requisitos, incluindo evidências de motivação política. Este artigo recente nos lembra que a definição legal de terrorismo nacional requer tentativas de incutir medo na população e ter objetivos ideológicos.

Contudo, comentários sobre a tragédia de Las Vegas também observam que na legislação do estado de Nevada, qualquer ato destrutivo significante pode ser considerado terrorismo. Essa definição abre a questão sobre por que o tiroteio em Nevada ainda não foi caracterizado como um ato terrorista.

Os noticiários norte-americanos concentram-se com frequência em atores violentos externos, lobos solitários ou não, incentivados por organizações como o Estado Islâmico. Porém, dados que refletem a abrangência de atos de terror globais mostram um quadro geral diferente. De acordo com a Base de Dados do Terrorismo Global, um banco de dados aberto, que inclui informações sobre atos terroristas em todo o mundo, esta foi a ocorrência de ataques no ano passado:

Atos de terrorismo por região em 2016. Fonte: Base de Dados do Terrorismo Global [2]

Comparando este quadro com a amostra da Media Cloud, que apresenta a cobertura da mídia nos principais veículos de notícias dos EUA durante o mesmo período, vemos um foco distinto de cobertura no Oriente Médio e Norte da África.

Termos dominantes associados com “terrorista” que fazem referência a regiões e países em uma amostra das principais fontes de notícias on-line dos EUA em 2016 . Fonte: Media Cloud (Ver imagem ampliada)

A Base de Dados do Terrorismo Mundial mostra um maior número de ataques terroristas no sul e sudeste asiático e na África subsaariana. A mídia dos EUA, contudo, concentra-se na cobertura de eventos europeus e norte-americanos.

Precisamos de estudos mais complexos para melhor caracterizar

Isto não quer dizer que a cobertura local ou nacional deva refletir os índices globais. Os canais de notícias sempre se concentram em notícias mais próximas, mais familiares ou historicamente relevantes para sua audiência.

Ainda assim, os dados reunidos pela Base de Dados do Terrorismo Global mostram como a cobertura pode ser diferente. Por exemplo, as Filipinas, com 633 atentados em 2016, estavam entre os cinco primeiros países a sofrer atentados terroristas. A relação entre Filipinas e Estados Unidos sempre se destacou por disputas históricas, portanto, poucas notícias de cidadãos filipinos que sofreram atos de terrorismo tiveram destaque na mídia norte-americana e influenciaram ou trouxeram consequências em escala mundial.

A cobertura jornalística do terrorismo e dos tiroteios em massa é abundante e apresenta preconceitos similares. Os dados nos mostram que na mídia norte-americana convencional tem havido uma dominante associação entre islamismo extremista e terrorismo nas notícias. E isso também é verdadeiro para o uso do termo “lobo solitário”, apesar de que nos EUA há mais atos terroristas cometidos por radicais de extrema direita que por integralistas islâmicos.

Este índice de ataques extremistas pode não permanecer sempre constante. A frequência e a natureza dos ataques nos anos recentes mudaram; isto desafia nossa compreensão da violência extremista. Contudo, os dados disponíveis nos ajudam a compreender que nossa visão de lobos solitários e terroristas é simples demais. Devemos levar a sério a observação de o que vincula “lobos solitários” são fatores de personalidade, psicologia e socialização, e não de ideologia. Nós precisamos encontrar melhores maneiras para caracterizar as pessoas que causam terror e uma linguagem que faça justiça a todos os afetados por isso.

Artigos relacionados

Os dados relacionados a este artigo podem ser encontrados em Github.[1] “EUA tem mais lobos solitários…”: Ramon Spaaij, “The Enigma of Lone Wolf Terrorism An Assessment”, Studies in Conflict and Terrorism 33, nº. 9 (2010), citados nas pesquisas de Edwin Baker e Beatrice de Graaf, “Lone Wolves: How to Prevent This Phenomenon”, International Centre for Counter-Terrorism – The Hague (2014) e “Report: Lone Wolf Terrorism”Georgetown Security Studies Program National Security Critical Issue Task Force (2015); “incentivado pelos grupos supremacistas brancos dos EUA” e “todo tipo de extremista ideológico e religioso”: (Baker e de Graaf, 2014).

[2] National Consortium for the Study of Terrorism and Responses to Terrorism (START). (2016). Global Terrorism Database [Data file]. Fonte: https://www.start.umd.edu/gtd

Ivan Sigal colaborou neste artigo.

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