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Levou 121 anos para que uma cantora indígena se apresentasse no Teatro Amazonas

Djuena Tikuna durante apresentação no Teatro Amazonas. Imagem: captura de tela, Jornalistas Livres (Youtube)

No dia 23 de agosto, a cantora Djuena Tikuna se tornou a primeira indígena a se apresentar no palco do Teatro Amazonas, baluarte da cultura europeia localizado no seio da maior floresta tropical do mundo.

A artista de 32 anos produziu e protagonizou o lançamento do seu disco Tchautchiüãne, trabalho inspirado pelo ciclo da borracha, que na virada do século 20 transformou a região amazônica para sempre.

Djuena, da etnia tikuna — a mais numerosa do Brasil –, se identifica como “cantora do movimento indígena”. Suas letras têm verve ativista: falam de temas caros à sua comunidade, como meio ambiente e demarcação de terras, e são cantadas apenas em tikuna — o que, para ela, é uma escolha política:

Alguns povos não falam mais a sua língua. Já pensou se canto em português? Os jovens que estão me assistindo vão querer me imitar. Mesmo na cidade, temos de manter a língua e a identidade.

Para entender o que a apresentação da cantora significa para os povos originários do Brasil, é útil olhar relembrar a história do próprio Teatro Amazonas.

O edifício localizado no centro de Manaus, capital do estado do Amazonas, foi desenhado pelo Instituto Português de Engenharia e Arquitetura de Lisboa e inaugurado em 1896, auge da exploração da borracha na região.

Numa época em que a indústria automobilística dava seus primeiros passos, a descoberta da borracha obtida a partir das seringueiras, árvore típica da Amazônia, provou-se um negócio extremamente lucrativo e atraiu uma horda de investidores, aventureiros e trabalhadores de outras partes do Brasil.

A riqueza gerada por essa indústria — que utilizava técnicas indígenas para extração do látex das árvores — colocou as capitais do estados do Norte do Brasil entre as mais desenvolvidas do país e financiou a construção do Teatro Amazonas, proposto pela nova elite local e erguido com mão-de-obra indígena.

A conversão de indígenas em trabalhadores pobres não foi a única ferida deixada pela borracha: essa época foi marcada pela expulsão em massa de diversas tribos das suas terras de origem.

Ainda assim, levou 121 anos para que um indígena se apresentasse no palco de um dos mais importantes legados daquela época.

O Amazonas é um dos estados que concentra maior número de populações indígenas — cerca de 17% dos 896 mil indígenas que hoje vivem no Brasil, cuja população total é de 200 milhões.

Segundo Djuena, o povo Ticuna é um povo “muito musical”: ela mesma aprendeu a cantar com a mãe, que aprendeu da avó, que aprendeu de seus antepassados.

Ainda criança, saiu da aldeia e foi morar em Manaus. Conta ainda que a ideia de levar seu espetáculo para o Teatro Amazonas veio de uma questão que ela apresentou a si mesma: “Por que eu não posso cantar lá? Por que eu sou índia?”, afirma em reportagem do site Jornalistas Livres, que também mostra cenas do espetáculo.

Ela completa:

Quando eu cantei no palco do Teatro Amazonas com eles, que nós batemos os pés, é uma forma de eu estar dizendo: estamos aqui, parentes. Vocês sofreram por causa dessa construção, mas nós estamos aqui, vamos continuar aqui lutando e vamos continuar aqui resistindo.

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