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Milhares manifestam-se nas Filipinas contra as mortais “guerras triplas” do presidente Duterte

Grupos minoritários nacionais lideram a marcha de protesto até Luneta a 21 de setembro. Fonte: Manila Today. Usada com permissão.

Milhares juntaram-se a 21 de setembro de 2017 ao protesto em Manila, nas Filipinas, para denunciarem os abusos dos direitos humanos sob o governo do presidente Rodrigo Duterte, que assumiu o poder em junho de 2016.

O protesto teve lugar no mesmo dia em que a lei marcial foi imposta no país pelo ex-ditador Ferdinand Marcos, em 1972. As Filipinas estiveram sob lei marcial até 1981. Neste período, o governo de Marcos foi acusado de cometer abusos generalizados dos direitos humanos. Marcos foi finalmente deposto por uma revolta pacífica conhecida como o “Poder do Povo”. Duterte tem vindo a dizer que admira Marcos.

Os participantes expressaram a sua indignação coletiva pelas chamadas guerras triplas da administração de Duterte: a “guerra às drogas”, que já matou mais de 13,000 pessoas; a “guerra sem tréguas” contra as comunidades rebeldes que expulsaram agricultores e povos indígenas das suas terras; e a “guerra ao terror”, em Mirawi, que colocou toda a parte sul da ilha de Mindanao sob lei marcial.

Para além do aumento do número de mortos na guerra contra as drogas, o grupo de direitos humanos Karapatan também documentou 88 assassinatos políticos maioritariamente de líderes de camponeses e ativistas, assim como casos de prisões ilegais, evacuações forçadas, bombardeamentos aéreos e tiroteios indiscriminados na guerra de Duterte contra a insurreição.

Apesar dos esforços da administração de Duterte para interromper e desencorajar os protestos, os organizadores estimam que cerca de 30,000 pessoas enfrentaram a chuva para se juntarem às intervenções no parque de Luneta, em Manila.

Liderados pela aliança das sociedades civis Movement Against Tyranny (MAT), trabalhadores, camponeses e organizações operárias, membros de minorias nacionais, grupos religiosos, artistas, estudantes e profissionais estiveram envolvidos na organização da manifestação em Luneta.

Protestantes deram voz às suas preocupações sobre o que eles viram como uma tentativa do presidente Duterte de impor o regime ditatorial no país. O grupo de direitos humanos Karapatan realçou semelhanças entre Marcos e Duterte:

The parallelism between the Marcos and the Duterte regimes are becoming more pronounced, as the latter not only aids the political rehabilitation of the Marcoses but also employs the same fascist tactics and anti-people policies of the Marcos dictatorship, including threats to impose a nationwide martial rule. Duterte and his security cluster has utilized narratives and tactics straight out of Marcos’s playbook of repression, repeating and justifying rights violations, with increasing frequency and intensity.

O paralelismo entre os regimes de Marcos e Duterte está cada vez mais evidente, à medida que o último  não só apoia a reabilitação política da família Marcos como também usa as mesmas táticas fascistas e antipolíticas populacionais do regime de Marcos, incluindo ameaças para impor a lei marcial a nível nacional. Duterte e o seu grupo de segurança utilizaram narrativas e táticas retiradas diretamente do livro de repressão de Marcos, repetindo e justificando violações dos direitos humanos com incrível frequência e intensidade.

A população a protestar no parque da Luneta. Crédito das Fotos: Manila Today. Usadas com permissão.

Tentativas para sabotar e deslegitimar protestantes

O caminho para realizarem o protesto estava marcado por obstáculos. As autoridades tinham inicialmente declarado o dia 21 de setembro como a data em que iram simular uma evacuação em caso de terramoto a nível nacional. Alguns acreditaram ser uma tentativa para impedir as pessoas, principalmente trabalhadores e estudantes, de se juntarem à manifestação. Depois, os organizadores da manifestação reportaram dificuldades para reservar um espaço no parque da Luneta para a manifestação. Aulas e trabalho nas escolas e repartições públicas estavam suspensas, aparentemente para desencorajar a presença na manifestação. Nas Filipinas, estudantes e professores podem juntar-se a manifestações em massa se houver aulas, caso consigam convencer os dirigentes escolares a juntarem-se a uma atividade política como um grupo. Além disso, políticos têm a tendência de suspender aulas para impedir escolas e estudantes de participarem em ações políticas.

O presidente Duterte ameaçou ativar a lei marcial se a manifestação se tornasse violenta. Entretanto, o chefe da polícia nacional avisou que seis embarcações de protestantes de Visayas e Mindanao infiltradas por forças rebeldes armadas juntariam-se à demonstração. Mais tarde afirmou que a informação que recebeu estaria errada.

Dias antes do protesto, o presidente Duterte declarou o dia 21 de setembro como o “Dia Nacional do Protesto” e mobilizou alguns milhares de trabalhadores e defensores do movimento pró-Duterte usando fundos governamentais para alugar autocarros, distribuir comida aos participantes e contratar celebridades atraentes para entreterem a multidão.

“O Cubo de Rody” a ser queimado na ponte de Mendiola diante dos portões do palácio presidencial. Fonte: Manila Today. Usada com permissão.

Momentos altos da manifestação

Os protestantes queimaram o “Cubo de Rody”, uma efígie cúbica com cerca de 2,5m feito à semelhança do cubo mágico, mas com a cara do presidente Duterte a par das do ditador filipino, Ferdinand Marcos; do líder Nazi, Adolf Hitler; e de um cachorro, símbolo da manipulação do governo por parte de potências estrangeiras como os Estados Unidos. Nas Filipinas, o uso do termo cachorro (tuta em filipino) na política significa subserviência cega a um mestre.

Para além das criativas efígies, grandes faixas, cartazes coloridos e discursos calorosos, a manifestação também contou com apresentações culturais. Incluindo, entre várias, uma versão filipina de “Do You Hear The People Sing” do musical “Les Misérables”.

Apesar da suspensão de aulas nas escolas públicas e em muitas das privadas, milhares de estudantes juntaram-se ao protesto em Luneta. Na verdade, um post no Twitter que mostrava um estudante que se tinha juntado à manifestação enquanto estudava tornou-se viral:

ESTUDANTES DO POVO
FAZEM PARTE DA LUTA
(E FAZEM REVISÕES PARA BIO 12)

Mais protestos na próxima semana

No rescaldo da forte demonstração a 21 de setembro, o presidente Duterte recuou face às ameaças anteriores e mais uma vez alterou a sua atitude estendendo um “ramo de oliveira” e oferecendo oportunidades de “diálogo construtivo” aos protestantes.

Os líderes do protesto, no entanto, disseram que a oferta de Duterte era “hipócrita” no meio das contínuas guerras contra as drogas, as insurreições e a lei marcial em Mindanao. Dizem que isto só demonstra o medo do presidente Duterte do surgimento de um genuíno movimento em massa contra o seu governo sangrento.

Vários grupos de sociedade civil prometeram lançar protestos maiores contra o crescente abuso dos direitos humanos por parte do governo de Duterte e a sua crescente tirania.

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