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As histórias por trás da DACA, a recém-encerrada ação para jovens imigrantes não documentados nos EUA

Ativistas protestam pelo fim da DACA em Los Angeles, 5 de setembro de 2017. “Deportem o ódio, não os sonhadores” e “Unidos Sonhamos/#DefendaDACA.” Fotografia de Molly Adams no Flickr, permissão CC BY 2.0.

O Procurador-Geral dos Estados Unidos, Jeff Sessions, anunciou recentemente que o governo Trump encerrará o programa que concede vistos de trabalho e de estudo, renováveis e válidos por dois anos, aos imigrantes que foram levados ao país ainda crianças e sem documentação.

Nos dias que se seguiram à mudança da política em torno da Ação Diferida para Chegadas na Infância (Deferred Action for Childhood Arrivals, ou DACA), protestos, passeatas, petições, “campanhas robotizadas de resistência” e pedidos de impeachment inundaram a internet e as ruas dos EUA. Críticos acusam a Casa Branca de crueldade, já que muitos beneficiários da DACA se identificam como americanos.

A DACA foi colocada em prática por meio de uma ação executiva do Presidente Barack Obama em 2012. Uma versão legislativa desta política, conhecida como DREAM Act, foi repetidamente rechaçada pelo Congresso.

Aproximadamente 800 mil beneficiários da DACA, normalmente chamados de “dreamers” (sonhadores) por referência ao DREAM Act, encaram agora a possibilidade de serem deportados daqui a seis meses, quando seus vistos expiram, se o Congresso não agir.

A decisão provocou um renovado debate sobre a própria definição do que significa ser “americano”, nesse caso referindo-se a um cidadão dos Estados Unidos, com organizações como a Define American na linha de frente, usando histórias para dar rostos aos números.

A iniciativa foi fundada pelo jornalista Jose Antonio Vargas, ele mesmo não documentado, e tem como missão usar o poder da história para “transcender a política e mudar os rumos da discussão sobre imigrantes, identidade e cidadania em um país em transformação”.

Além disso, a Define American convida pessoas não documentadas e seus aliados a criarem e compartilharem depoimentos em textos e vídeos sobre a experiência de ser imigrante nos EUA.

Giovanni Amado, 23 anos, chegou aos EUA em 1998, vindo da Cidade do México, quando tinha apenas três anos de idade. Nesse vídeo-depoimento, publicado alguns dias antes do anúncio do governo Trump, Amado fala sobre seu trabalho como especialista em fraudes em um banco e diz que não entende como acabar com a DACA pode ajudar alguém:

The term American should not be defined by a document or the lack of one. It is more so the willingness to contribute to the country and help others out whenever possible.

O termo ‘americano’ não deveria ser definido por um documento ou pela falta dele. É muito mais a vontade de contribuir com o país e ajudar o próximo sempre que possível.

Denea Joseph, uma mulher de 23 anos proveniente de Belize, que chegou aos EUA com 7 anos, conta que a DACA lhe permitiu conluir seus estudos universitários. Ela define “americano” como:

..an individual — immigrant or otherwise — who has lent their skills, knowledge, education, business acumen as well as labor that lends to this nation’s positionality as a hegemonic power.

… um indivíduo, imigrante ou não, que concedeu suas habilidades, conhecimento, formação, talento empresarial, bem como o trabalho que levou a nação à posição de potência hegemônica.

Além dos depoimentos colaborativos, a Define American lançou recentemente a #UndocuJoy (#AlegriaNãoDocumentada), uma campanha nas redes sociais projetada para combater representações vitimizantes de pessoas não documentadas “inundando as redes com imagens autênticias de felicidade”.

A campanha exibe um vídeo em colaboração com o poeta Yosimar Reyes, que narra seu poema “I Love Us” (“Eu amo nós” e “Eu amo os EUA”) por meio de uma série de imagens do cotidiano de pessoas não documentadas acordando, indo para o trabalho, dançando, fazendo café da manhã, e sendo humanos:

Reyes escreve:

I love us / because we have constantly had to prove our humanity / and constantly done it beautifully / Because to stay human / Under these conditions / you have to have an understanding of / Beauty.

Eu amo nós (os Estados Unidos) / porque repetidamente tivemos que provar nossa humanidade / e repetidamente o fizemos belamente / Porque para permanecer humanos / Sob essas condições / há de se ter um entendimento sobre / Beleza.

#UndocuJoy recebeu declarações de solidariedade de cidadãos americanos e de pessoas que imigraram para os EUA. O autodenominado escritor não documentado Ciriac Alvarez tuitou:

Talvez eu não possa controlar a crueldade do mundo, mas posso controlar o que eu propago. #UndocuJoy significa propagar gentileza e compreensão.

A luta por um santuário permanente

No discurso do Procurador-Geral Sessions em que anuncia o fim da DACA, ele se referiu aos beneficiários do programa como “basicamente estrangeiros adultos ilegais”.

Sua escolha vocabular chamou à memória a campanha #WordsMatter (#PalavrasImportam) lançada pela Define American em 2015, insistindo para que os jornalistas parem de usar a palavra “ilegal” para se referir a pessoas:

Phrases such as ‘illegal immigrant’ and ‘illegal alien’ replace complex legal circumstances with an assumption of guilt. They effectively criminalize the personhood of migrants, instead of describing the legality of their actions.

Expressões como ‘imigrante ilegal’ e ‘estrangeiro ilegal’ substituem circunstâncias legais complexas por uma suposição de culpa. Elas efetivamente criminalizam a personalidade dos migrantes, ao invés de descrever a legalidade de suas ações.

“Estar nos EUA sem os documentos adequados é uma violação civil, não criminal,” continua a campanha.

Considerando os comentários depreciativos que Trump fez sobre pessoas de origem mexicana, assim como uma série de ordens executivas, absolvições e decretos controversos envolvendo minorias, a ação de encerrar a DACA e a linguagem usada para justificar a decisão reforçaram acusações de que o presidente estaria deliberadamente incentivando a desconfiança e o ódio na sociedade.

Antes mesmo da ascensão de Trump à presidência, as prioridades do governo federal no que diz respeito a deportações levou certas regiões do país a limitarem sua cooperação com a Imigração e Alfândega dos EUA (ICE). Atualmente, quatro estados (California, Colorado, Connecticut e Novo México), além de 37 cidades e condados, se declararam cidades-santuário.

Após a decisão sobre a DACA, o prefeito de Chicago, Rahm Emmanuel, reforçou o comprometimento da cidade com a oferta de santuário, chegando ao ponto de declarar Chicago uma “Zona Livre de Trump”.

Contudo, cidades-santuário não são uma solução permanente para os beneficiários da DACA. Seu destino agora está nas mãos do Congresso. Talvez ouvir as histórias pessoais publicadas por iniciativas como a Define American faça os legisladores se recordarem de que há pessoas reais por trás das estatísticas e de que ser americano é mais do que apenas um papel.

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