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Arpilleras: Usando agulha e linha, mulheres costuram histórias de abusos em construções de barragens no Brasil

Art made by Brazilian cartoonist Vitor to the Arpilleras project. (Image: Arpilleras: Bordando a resistência/Facebook)

Arte feita pelo cartunista brasileiro Vitor para o projeto “Arpilleras: Bordando a Resistência” (Imagem: Arpilleras: Bordando a resistência/Facebook)

Na época em que Pinochet mandava no Chile, histórias não podiam ser contadas. Um grupo de mulheres chilenas – mães e esposas de presos políticos – encontrou uma maneira de subverter a ordem. Usando retalhos contrabandeados de roupas velhas, às escondidas e à luz de velas, elas passaram a denunciar através da costura — como Violeta Parra, antes delas – o que acontecia no país. Anos depois, as telas costuradas pelas arpilleras se tornaram documento dos abusos, tortura e a vida do Chile sob ditadura e percorreram o mundo em exposições.

Foi em uma dessas exposições — no Memorial da América Latina, em São Paulo, em 2011 — que o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no Brasil descobriu a técnica da arpilleria. A exposição, criada para encorajar o bordado como ferramenta de empoderamento e resistência, serviu perfeitamente com o coletivo de mulheres do MAB. Como contaram ao Global Voices em uma entrevista por email, depois de conseguir apoio da União Europeia para documentar e denunciar violações de direitos humanos em áreas afetadas por construções de barragens, em 2014, o coletivo passou a realizar workshops pelo país ensinando arpilleria.

No Brasil, como em muitos países, quanto maior o discurso de desenvolvimento que acompanha uma barragem, maior o efeito colateral trazido por ela. Uma pesquisa, realizada pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos, identificou 16 violações aos direitos humanos em áreas de barragens no Brasil.

E, como afirma o MAB, “para as mulheres, as violações são ainda piores”:

Com a chegada de milhares de operários nas cidades pequenas onde estão os canteiros de obras das hidrelétricas, por exemplo, há um aumento dos casos de assédio sexual, tráfico de mulheres, prostituição e estupro.

Essas são algumas das histórias que um documentário produzido pelo movimento via crowdfunding quer contar. Dos 25 mil reais (aproximadamente 8 mil dólares) de seu objetivo, o projeto já atingiu 20 mil através da plataforma de financiamento coletivo Catarse, e tem apenas dois dias para conseguir o resto.

Pequenas histórias, Grandes mulheres 

O documentário pretende seguir as histórias de cinco mulheres das cinco regiões do Brasil e mostrar como suas vidas mudaram com a chegada das companhias de energia e seus projetos gigantes de construção. Ainda sem personagens definidas, como contam ao Global Voices, os produtores já sabem que os contos de barragens só mudam de endereço:

Temos escutado todo tipo de histórias. O leque das perdas é muito grande e vai desde o caso da Maria, que foi ameaçada pela empresa caso não aceitasse a carta de crédito; a Fernanda, que perdeu a fonte de renda porque trabalhada fazendo doces para festas; a Damiana, que não conseguiu mais deixar a sua filhinha ao cuidado da vizinha; a Jose, que, com 15 anos, engravidou de um operário, dando à luz a mais um “filho da barragem”, porque aquele operário voltou a casa com a sua família; a Lucenilda, que conseguiu escapar do “boate Xingú” (na barragem de Belo Monte), onde estava presa, em regime de cárcere privado e escravidão, sendo obrigada a se prostituir várias vezes ao dia.

Nos seus 30 anos de existência, o Movimento dos Atingidos por Barragens passou a traçar um padrão empregado por empresas de energia elétrica nas suas usinas de norte a sul. Indenizações e reassentamentos, por exemplo, são sempre emitidos em nome de homens, excluindo as mulheres. Os números de violência nessas regiões mostram uma imagem ainda mais macabra:

(…) são inúmeras as evidências de aumentos das ocorrências de assédio sexual, tráfico de mulheres e prostituição nas proximidades dos canteiros de obras das barragens. Porto Velho (RO), município que abriga a hidrelétrica de Santo Antônio e Jirau, registrou um aumento significativo nos índices de violência após o início das obras. Segundo pesquisa da Plataforma Dhecas, entre 2008 e 2010, o número de homicídios dolosos subiu 44%, e o índice de estupros cresceu 208% em três anos após a chegada dos empreendimentos.

In a research conducted by a Special Commission investigating Dams zones, 16 human rights violations were identified in several Brazilian regions. (Image:

De acordo com pesquisas conduzidas por uma comissão especial que investiga as zonas de barragens, 16 violações de direitos humanos foram identificadas em várias regiões do Brasil. (Imagem: Vitor/Arpilleras: Bordando a resistência/Facebook)

Bordando além

E aí entra a arpilleria. Utilizando uma técnica com a qual mulheres de zonas afetadas por barragens já são familiarizadas – a costura e o bordado -, ela ajudou a criar um espaço seguro para que compartilharem suas experiências e opiniões, segundo o MAB:

As mulheres são as que mais sofrem com a construção de barragens, mas também elas possuem uma força extraordinária para se unir, se empoderar coletivamente e ir para frente na defesa dos seus direitos e os direitos da sua família e comunidade.

Em dois anos de trabalho do Coletivo Nacional de Mulheres do MAB com as arpilleras no Brasil, 100 oficinas foram realizadas em 10 estados com 900 mulheres. Como Neudicléia Oliveira, integrante do grupo, contou em uma entrevista ao jornal Brasil de Fato, se antes a costura costumava ser fonte de renda para muitas dessas mulheres, agora é uma arma política.

Enquanto ainda há pouca vontade política de fazer algo pelas comunidades violadas pelos grandes projetos de energia no Brasil, para o MAB, as arpilleras podem ser o começo de uma revolução:

Violeta Parra definia as arpilleras como “canções que se pintam”. Para as chilenas, foram uma forma de luto e de luta. Arpillera para nós é como um grito escancarado em forma de bordado. Arpillera é transgredir o significado histórico da costura, que apenas corroborava que o lugar da mulher era no ambiente doméstico, privado. Arpillera é a revolução costurada.

Para apoiar a realização do documentário sobre o trabalho das Arpilleras no Brasil, visite a página do Catarse aqui.

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