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Brasil: “Precisamos ver qual será o ‘legado’ dos protestos para a comunicação”

Este post faz parte da nossa cobertura especial Revolta do Vinagre

Quando protestos pipocaram por todo o Brasil no meio deste ano, o Coletivo Nigéria, de Fortaleza, também saiu às ruas, câmaras em punho.

DVD do documentário Com Vandalismo na página de Facebook do Coletivo Nigéria. Assista ao filme no artigo “Com vandalismo”: documentário mostra lado das ruas nos protestos do Brasil, publicado em agosto no Global Voices.

“Não sabíamos o que sairia da nossa cobertura dos protestos, só sabíamos que tínhamos de estar lá,” conta Pedro Rocha sobre o documentário Com Vandalismo. Assista ao filme no artigo publicado em agosto no Global Voices.

“Começamos filmando pelo dever de registrar o que estava acontecendo. Não fazíamos a menor ideia no que aquilo ia dar,” conta Pedro Rocha, um dos quatro jornalistas que formam há dois anos o coletivo, juntamente com Roger Quentin, Yargo Gurjão e Bruno Xavier. O resultado foi o documentário “Com Vandalismo”, que já acumula mais de 95 mil visualizações no Youtube e narra os acontecimentos daquele período na cidade de Fortaleza, com um enfoque crítico no discurso midiático construído em torno do “vandalismo”.

Em entrevista por e-mail ao Global Voices, Pedro Rocha detalha um pouco mais sobre esta experiência e reflete sobre os possíveis rumos da comunicação no país após as manifestações.

Global Voices (GV): Você considera que, com os protestos e o uso intensivo de ferramentas sociais, a mídia cidadã brasileira subiu um degrau em seu processo de amadurecimento?

Pedro Rocha (PR): Talvez a gente precise esperar um pouco mais. Ver como isso vai funcionar na Copa, por exemplo. Para usar uma palavrinha mágica sempre que se fala de megaeventos: precisamos ver qual será o “legado” desses protestos para a comunicação. De todo modo, se o ditado que diz que “a necessidade faz o homem” estiver certo, provavelmente esse amadurecimento irá se concretizar.

Até agora, o que vimos foram as pessoas correndo para as redes sociais em busca de informação, porque só com a grande mídia não dá – ainda mais agora que a relação entre essa mídia e os manifestantes está cada vez mais desgastada. Muitos manifestantes não concedem entrevistas a eles (se é que um dia essas entrevistas foram solicitadas) e hostilizam os repórteres de algumas emissoras. Por outro lado, a mídia alternativa, independente ou cidadã, seja qual for o nome, é quem está criando e ocupando esse espaço.

GV: Como essas mudanças no cenário político e midiático afetam o futuro daquilo que vocês fazem?

Bruno Xavier, um dos integrantes do Coletivo Nigéria, em ação. "Não sabíamos o que sairia de nossa cobertura dos protestos, só sabíamos que tínhamos que estar lá," conta Pedro Rocha, sobre o documentário Com Vandalismo.

Bruno Xavier, um dos integrantes do Coletivo Nigéria, em ação, durante a exibição do documentário Brincantes Fúnebres em restaurantes populares. Foto utilizada com permissão.

PR: Primeiro, estamos nos questionando mais do que nunca sobre o nosso trabalho, sobre as ideias que nos orientam, sobre como devemos nos posicionar nessa história. Em segundo lugar, vem a forma como nos organizamos como produtora e/ou coletivo.

A “produtora” Nigéria trabalha com comunicação institucional pra movimentos sociais e terceiro setor principalmente. Nós sempre guiamos politicamente nosso trabalho. Porém, isso às vezes pode entrar em conflito com as exigências da cobertura das manifestações, quando atuamos mais como “coletivo” – de forma voluntária, por assim dizer. Quer dizer, às vezes temos que priorizar uma coisa ou outra ou nos dividir e sacrificar um pouco cada lado. Além disso, temos nossa produção jornalística propriamente dita, que requer um tratamento diferente dos vídeos institucionais ou mesmo dos vídeos das manifestações.

Na nossa opinião, todas estas diferentes formas de comunicação são importantes e se complementam, mas precisaremos cada vez mais pensar na forma como sustentar esses trabalhos. Por exemplo, a partir da repercussão Com Vandalismo – realizado sem nenhum financiamento e com a colaboração de várias outras pessoas além dos integrantes da Nigéria – estamos planejando uma forma de financiar a cobertura da Copa no próximo ano.

GV: No documentário, você aparece em um momento com alunos do curso de Comunicação Social, houve algum intercâmbio entre o curso e a Nigéria?

PR: Sou professor do curso de jornalismo de uma faculdade particular aqui de Fortaleza. E já tinha convidado dois estudantes de lá, o Franzé e o Leandro, para serem bolsistas em um outro projeto da Nigéria sobre Direito à Moradia. Nós estávamos mapeando as ocupações irregulares em Fortaleza quando os protestos estouraram no país. Nessa história, eles acabaram compondo a equipe. Estiveram em todos os quatro dias que o documentário registrou e, no último, o Leandro acabou sendo detido comigo, depois de sermos encurralados pelo Batalhão de Choque. Não fomos para a delegacia porque a presidente do Sindicato dos Jornalistas do Ceará passou no local exatamente na hora.

GV: Que diferenças há entre o trabalho com a Nigéria e as outras experiências profissionais de vocês com mídia?

PR: Os quatro integrantes da Nigéria têm percursos profissionais diferentes, mas, com exceção de um, tivemos passagens mais curtas ou mais longas pelos maiores grupos de comunicação do Ceará. E existe uma primeira grande diferença, que é a diferença entre ser empregado de uma grande empresa e ser sócio de seus amigos numa produtora. É verdade que isso impacta também na sua estabilidade financeira, mas isso é compensado por outros ganhos, como a ausência de hierarquia.

Da esquerda para a direita, Pedro Rocha, Yargo Gurjão, Bruno Xavier e Roger Pires. "Esse é outro tipo de cobertura que se junta às transmissões, aos relatos pessoais no Facebook, às charges de ilustradores independentes etc," afirma Pedro Rocha,

Da esquerda para a direita, Pedro Rocha, Yargo Gurjão, Bruno Xavier e Roger Quentin. Foto utilizada com permissão.

Por exemplo, a falta de hierarquia faz com que estejamos a todo momento debatendo – agora mesmo estamos tendo que encarar na prática conceitos como o “equilíbrio” em nossa produção jornalística, já que nos identificamos com as posições dos manifestantes, mas também queremos nos manter como um espaço em que o diálogo e o debate sejam possíveis. Esse tipo de organização nos dá também a liberdade de escolhermos no que queremos apostar e a responsabilidade de assumirmos esse risco. O Com Vandalismo foi um caso desses. Depois de tudo, alguns outros projetos atrasaram, foram deixados temporariamente de lado, mas valeu a pena.

GV: Quais foram os principais desafios na cobertura dos protestos?

PR: Tirando o fato de que não conhecíamos gás lacrimogênio e bala de borracha, nem exatamente sabíamos como se portar diante daquele tipo de situação de confronto, o maior desafio a meu ver foi se orientar naquela revolta. Saber o que filmar, quem entrevistar, perceber o que estava em jogo – basicamente entender o que estava acontecendo no país. Se ainda hoje é difícil entender isso, não pense que foi mais fácil para quem estava lá na Alberto Craveiro, sob um sol infernal, no meio de um mar de gente correndo e tossindo gás lacrimogênio. Talvez por isso a repressão policial tenha se transformado numa pauta por si só, por ser um elemento imediato, inquestionável e, no final das contas, aglutinador, apesar de o objetivo ter sido a “dispersão” dos manifestantes. Talvez por isso também escolhemos nos apoiar num ponto específico, o “vandalismo”, para seguirmos documentando, sem nos perdermos em julgamentos sobre a história.

GV: O que vocês pensam de coletivos nascidos durante os protestos, como o Mídia Ninja?

PR: A Mídia Ninja é, sem dúvida, o maior fenômeno dessa comunicação que ganhou força com os protestos. As transmissões ao vivo, pra mim, são o elemento mais revolucionário nessa história toda. Em junho, você podia assistir o helicóptero da Record News sobrevoando São Paulo ou o Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que acompanhava um cara correndo pelas ruas com um celular entrevistando os manifestantes. Se você demorasse um pouco mais nessa dupla cobertura, iria perceber que algumas coisas na transmissão da TV estavam equivocadas.

Hoje nós temos transmissão ao vivo pela Internet aqui em Fortaleza e imagino que em quase toda cidade em que o 3G dê conta do serviço. Particularmente gosto de acreditar que os ninjas viraram uma espécie de confraria ou, simplesmente, uma rede, independente do grupo Mídia Ninja até. Por outro lado, existem coletivos, como a Nigéria, que não fazem cobertura ao vivo, mas registram e postam no mesmo dia ou no dia seguinte alguns vídeos, já com alguma edição e com uma qualidade melhor de imagem. Esse é outro tipo de cobertura que se junta às transmissões, aos relatos pessoais no Facebook, às charges de ilustradores independentes etc.

Se o Brasil tivesse uma TV pública de qualidade e um sistema de comunicação realmente democrático, ainda assim esse tipo de ação seria necessário. Ou seja, diante do monopólio comercial da comunicação brasileira, essa comunicação dos ninjas e dos coletivos é questão de sobrevivência e esperamos que só se fortaleça daqui pra frente.

Este post faz parte da nossa cobertura especial Revolta do Vinagre