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Brasil: Inclusão sócio-digital por meio da Revolução das Lan Houses

Bruno Fernandes, from Patos de Minas, Brazil. Photo available under a Creative Commons license.
Bruno Fernandes, de Patos de Minas, Brasil. Foto disponibilizada com uma licença da Creative Commons.

Acredito que vocês devam está habituados em ver os pais levarem e buscarem seus filhos em lan houses. Esta é uma locadora que fica aqui na minha cidade, veja só a quantidade de bicicletas. Tinha mais ainda do outro lado.

Bruno Fernandes, na legenda da foto acima

A foto acima ilustra bem a “Revolução das Lan Houses” que acontece nesse exato momento no Brasil. Em todo o país, a maioria dos brasileiros hoje acessa a internet por meio de Local Area Networks (LAN), uma tendência que no início era vista apenas nas vizinhanças mais abastadas do Brasil e que agora se transormou em fenômeno em comunidades mais carentes, onde computadores e conexão banda larga são artigos fora do alcance da população. De acordo com Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro, “as lan-houses são locais de grande socialização, e têm ocupado um lugar importante nas favelas”. Seu artigo LAN Houses: A new wave of digital inclusion in Brazil [Lan Houses: Uma nova onda de inclusão digital no Brasil, en] foi recentemente apresentado na Conferência da Universidade de Harvard: Comunicação e Desenvolvimento Humano [en].

Internet para todos?

Há hoje no país mais de 90 mil lan houses, responsáveis por 50% dos acessos à internet. Uma pesquisa publicada em 2008 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) mostrou que 48% de todos os usuários que acessam a internet no Brasil o fazem em centros públicos de acesso pago, como lan houses. Quando se trata de pessoas das classes mais pobres, D e E, esse número salta para 79% – um aumento de 60% em relação aos 48.08% de usuários em 2006.

Outra pesquisa conduzida no início do ano pela TV Cultura em 27 lan houses espalhadas pela cidade de São Paulo e contando com 376 entrevistas com usuários e propriétarios revelou que cresce a presença de usuários das classes C e D. A amostra indicou também que para 17% dos usuários, as lan houses são a única forma de acesso à internet, a mesma proporção dos que têm acesso também em casa (normalmente usuários que precisam acessar a internet quando estão fora), 15% no trabalho e 12% na escola. Jogar videogames é a atividade principal para 42% dos entrevistados, mas uma proporção igual acessa portais de cultura, notícia e entretenimento. Redes sociais, especialmente o Orkut, e bate-papo online também são muito populares. Além disso, as lan houses também são usadas para pesquisas diversas, trabalhos escolares e busca de emprego.

Mas de que forma a inclusão digital promovida por lan houses em todo o país afeta o desenvolvimento humano no Brasil?

Jeimy Remir, que entrevistou proprietários e usuários de lan houses, diz que elas melhoram a vida dos dois grupos, e têm mudado a cara do país, principalmente nas áreas periféricas das grandes cidades. De acordo com ele, a inclusão digital promovida pelas lan houses de fato afeta o desenvolvimento humano no Brasill:

Fruto de criatividade e empreendedorismo, a construção de uma lan house tem mudado a vida de seus proprietários. Geralmente acopladas à casa de quem administra, as lan houses apresentam-se em ambientes estilizados, muitas vezes estruturados nas garagens de residências, com iluminação e decoração diferenciadas. […] Outra característica das lan houses é servir como espaços para encontro de jovens, intencionados em fazer amizades, interagir e paquerar. Com as ferramentas atuais da Comunicação, como msn, orkut e bate-papo, a utilização desses espaços para semelhantes fins tem sido mais intensa e confirma tais ambientes como um reflexo social. […] Por isso, as lan houses afirmam seu poder por servirem para a inclusão digital, dando acesso à internet para pessoas de baixa renda, e confirmam com singularidade suas inclinações: fonte de renda para quem administra e ponto de encontro para jovens.

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Foto de Yasodara disponibilizada com uma licença da Creative Commons.

Lan house, até aqui?

Lan House em Pirenópolis. Fica em frente ao Banco do Brasil.

Ah, o pogresso.

Yasodara, na legenda da foto acima, tirada em 2007. Pirenópolis é uma pequena cidade de Goiás com apenas pouco mais de 20 mil habitantes.

Lutando contra preconceitos e encarando obstáculos

No entanto, apesar da inclusão social que promovem, as lan houses são vítimas de preconceito no Brasil. Uma notícia publicada em um grande portal na internet que chamou recentemente a atenção foi o chamado à polícia por parte de um proprietário de uma lan house para prender um cliente que havia levado um pacote de fotos pornográficas de crianças de 6 a 8 anos para distribuí-las pela rede. Segundo usuários, a forma como a notícia foi divulgada pela imprensa deu a entender que lan houses são pontos de encontro para pedófilos:

O título da notícia que está sendo veiculada na internet ,e que com quase toda a certeza será veiculada pelos jornais, é Suposto pedófilo é preso em lan house com fotos de crianças, como você podem ver neste link do Terra e neste outro de uma procura pelo tema no Google News. Quem fica com a fama, quem fica mal na foto é a Lan House. Antro de desmandos e desvirtuamento de caminho para adolescentes.

Não é este o quadro. As lan houses sofrem os mesmos riscos que qualquer outro setor da economia enfrenta. Lans Houses, cybers cafés, telecentros e o que for, têm um papel fudamental no processo de inclusão à infraestrutura da era do conhecimento, da inclusão digital à inovação, como eles demonstram nesta apresentação estatística do mercado brasileiro.

André Rubens percebeu que esse preconceito é generalizado em todo o país ao participar de uma reunião em dezembro passado com outros donos e presidentes de associações de lan houses brasileiras. Segundo ele, foi possível perceber que “parece que as pessoas acham que Lan House é algo que prejudica a saúde e o bem estar do indivíduo”. Ele explica como essa situação já foi pior, com o aumento rápido e considerável dessa novidade no ramo dos negócios até então desconhecida:

Tudo isso virou uma grande bomba, até que começaram a aparecer novos dados que mostram que somos responsáveis pela inclusão digital no país e que jogos eletrônicos fazem BEM SIM para a formação da criança e do adolescente INCLUSIVE aqueles considerados violentos e principalmente as pessoas que nos atacavam receberam seu contrata ataque devido e hoje nos respeitam! Nossa briga continua, argumentando com as autoridades, rebatendo comentários estúpidos e fazendo novos projetos vamos conquistar simpatia da sociedade e seremos reconhecidos com grande importância na inclusão sócio-digital.

Av. Paulista - São Paulo - Brasil. Photo by cassimano used under a Creative Commons license.
Av. Paulista – São Paulo – Brasil. Foto de cassimano disponibilizada com uma licença da Creative Commons.

Essa reunião, que teve como objetivo entender e ajudar a solucionar os principais problemas enfrentados pelas lan houses no Brasil, contou com o apoio do projeto Mozilla, que disponibilizou um wiki para documentar a discussão e motivar que o debate continue de forma colaborativa, aberto a todos:

Diversas questões foram tratadas, tais como a questão da informalidade, as propostas de regulamentação para o setor, os principais problemas técnicos enfrentados, sugestões de customização do Firefox e as restrições ao uso de jogos. (…) A primeira fase do Projeto Lan House consistiu exatamente em identificar quais eram os problemas enfrentados e mapear as opções de como ajudar. Agora, gostaríamos de saber a sua opinião sobre o que a Mozilla pode fazer para ajudar as lan houses a levar inclusão digital para o Brasil de maneira mais abrangente e melhor.

Controle estatal e difícil regulamentação

Em entrevista no blog de Ceila Santos, o diretor da ABCID (Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital Rafael Maurício da Costa conta como novas e mais severas regulamentações podem forçar muitas lan houses a fechar as portas:

Associou-se intensamente que lan house equivale à evasão escolar. E deduziu-se que para combater a evasão escolar, basta combater as lan houses. Como conseqüência disto produziu-se uma série de leis pelo País que dificultam de sobremaneira a instalação formal do negócio. O que acontece é que há uma demanda vertiginosamente crescente pelo acesso à tecnologia, e ela produz a oferta que vemos, dessa forma, como não há amparo na atuação legal a informalidade é majoritária. O interessante é que é justamente nessa informalidade que predominam todas as más praticas que a legislação pretende combater e como conseqüência infeliz o aumento do número de pessoas formais que encontram cada vez mais “cláusulas de barreira” à operação legal.

Já existe regulamentações bem rígidas para lan houses, e essas variam de acordo com o estado na qual se localizam. Em São Paulo, por exemplo, cada lan house deve manter uma database dos nomes e endereços dos usuários. No Paraná, um projeto de lei propõe que todas as pessoas assessando computadores a partir de uma lan house sejam filmadas e que os proprietários mantenham todas as gravações por dois anos. No estado do Amazonas, usuários menores de idade precisam de uma autorização por escrito de seus responsáveis para acessar um computador de lan houses. Um projeto de lei considera a solicitação de identidade para todos os usuários. Luiz Rodrigo Silva de Souza, um blogueiro de 14 anos que às vezes frequenta lan houses, comenta sobre a ineficácia dessas leis – talvez por estarem longe da realidade:

Já deve ser a décima lei que fazem tentando regulamentar lan houses. Regulamentar não, proibir permitindo. Já tentaram proibir lan houses num raio de 1 km de escolas, proibir as crianças de usar os computadores por mais de três horas seguidas e competições com prêmio em dinheiro, e funcionou? (…)

O ideal é a criança estar na escola, não na lan house, mas tirá-las de lá não é somente criar uma lei, se fosse assim, por que também não cria uma lei que proíba crise econômica, cigarro e miguxês? Está mas do que claro que estas medidas não vão tirar as crianças da exploração e prostituição infantil, o máximo que vão conseguir é falir as lan houses. Manter uma lan house legalizada em Manaus é inviável com os custos de uma conexão banda larga por aqui, e com essas leis querem responsabilizá-las por um problema cujos principais culpados são os responsáveis e a própria sociedade.

In this upcoming lan house, the spelling has been adapted to 'lan rause' to help with the pronunciation in Portuguese
Nessa lan house a ser inaugurada, a redação foi adaptada “lan rause” para ajudar a pronúncia em português. Foto: Barata Blog

Como podemos perceber, essa super “lan rause” ainda está passando por reformas em seu prédio para que seja possível abrigar adequadamente a grande multidão ansiosa para acessar internet de 1 Giga!! Um espanto!! E ainda dizem que o Brasil é um país atrasado…

Barata Blog, na legenda da foto acima

Inclusão social por meio de inclusão digital

Existem mais de 90 mil lan houses no Brasil, ao mesmo tempo que o país conta com apenas 2 mil cinemas e 2.600 livrarias [en]. Será que elas podem vir a ser um lugar não apenas limitado aos videogames ou atualização do orkut, ou até cidadania e serviços a cidadãos online [en]? A pedagoga Rita Guarezi diz que as Lan Houses já desempenham um papel crucial na difusão da Educação à Distância:

Espalhadas pelo Brasil inteiro, as lan houses ganham expressão ainda mais relevante nas regiões mais carentes, norte e nordeste, onde são registrados os maiores índices de evasão escolar do país. […] Dentro desta realidade de crescimento constante de usuários da internet e das lan houses, a Educação à Distância pela Internet (e-learning) vai se firmando como um instrumento de auxílio no combate à evasão escolar entre jovens, oferecendo as mais variadas opções para quem quer complementar seus estudos, reciclar e aprimorar conhecimentos. […] Por tudo isso, podemos visualizar a lan house como um espaço também de estudo. Acreditamos que a EAD pela Internet no Brasil está intimamente ligada ao futuro das lan houses e suas novas nuances. E as perspectivas são extremamente promissoras.

E podem também vir a ser um espaço para cultura. A escritora Simone Campos tem um projeto: aproveitar a popularidade das Lan Houses para tornar o Brasil um país de leitores. Um de seus futuros projetos é uma ficção interativa, usando a linguagem do videogame, que é bem mais familiar para novas gerações que do que a do livro, para fazer literatura:

A lan house é o novo rendez-vous. Eu simplesmente tenho que aproveitar isso. Pretendo plantar um vírus que transforme a lan house em biblioteca.

Gil Giardelli vislumbra uma revolução:

Nas periferias das megalópoles, o cool são as sessões de lan house corujão R$ 6,00 passa a noite lá e pela manhã tem um belo café!

Os garotos se socializam, os pais ficam tranquilos, os educadores se preocupam e os terapeutas certamente terao mais pacientes em um futuro próximo!

50% dos conectados no Brasil, estão nas lan houses! Como será esta revolucao? Garotos antenados? Garotos solitários? Garotos com a educação diferenciada? Economia e educação coletiva elevada ao cubo? Um nova humanidade?

'Lã Rause', in an even more Brazilian spelling. Photo from PraLer Blog.

“Lã Rause”, escrito de uma forma ainda mais abrasileirada. Foto (ou montagem) do Blog PraLer.

13 comentários

  • Paula,
    não canso de aplaudir esse trabalho de você do Global Voices.

    Esta útima imagem tá um primor.
    Já tive preconceito com lan house, admito. Hoje, já penso em como desconstruir essa questão do controle.
    Coisa de quem tem filho com 11.

    Abraços

    • Olá Orlando!

      Obrigado por acompanhar o nosso trabalho, e pelo elogio!
      As Lan Houses estão aí para ficar. O desafio é fazer com que elas cumpram realmente o belo papel de possibilitar a inclusão digital daqueles que são excluídos de quase tudo que têm em mãos.

      Abraços,
      Paula

  • ótimo a inclusão digital, agora elas também podem se tornar um vilão para a educação, no meu município as lan houses oferecem serviços de realização de trabalho escolar.

    o professor passa o trabalho, as crianças mandam pra lan house fazer e a criança nada aprende. isso é o que acontece por aqui. ( a última publicação no meu Blog).

    é obvio que isso não tira o mérito dos benefícios, trazidos pela lan house, mas essa realidade existe.

  • É oportuno também destacar a existência das mais de 30 mil pequenas escolas de cursos livres, encontradas em mais de 4500 cidades brasileiras, promovendo a inclusão digital e ensino de informática.

    • Pedro Almeida

      (Correção) As escolas públicas há muito deveriam oferecer uma profissão junto ao diploma de conclusão do 2° grau / ou ensino médio…

      Haveremos de “importar” técnicos e operários da Europa?

      Segundo os noticiários da TV, a demanda por mão-de-obra qualificada é crescente!

      O modelo educacional do ensino público atual está equivocado. Aguns querem acreditar que o sistema de cotas raciais é a solução para o problema histórico dos excluidos da sociedade, isto não é verdade! A pobreza não leva em consideração a cor da pele do cidadão.

      A faixa etária integral que deveria receber “atenção especial” do governo situa-se entre 14 e 25 anos. As empresas atualmente estão à procura de técnicos já empregados. Haveremos de “importar” técnicos e operários da Europa? O trabalho especializado não constitui um ideal ou motivação para juventude. O vestibular sim! O Brasil corre o risco de ter grande número de cidadões com nível superior, sem trabalho ou trabalhando em subempregos.

      As escolas públicas há muito deveriam oferecer uma profissão junto ao diploma de conclusão do 2° grau / ou ensino médio – por exemplo o modelo Chileno de Educação Pública). Li no jornal que o ensino público em São Paulo, já neste ano de 2010, está oferecendo cursos técnicos! Se fosse possível acreditar em boa-vontade, eu diria que os alunos já formados nas escolas técnicas federais, de acordo a experiência devidamente comprovada, poderiam ser contratados sem concurso para trabalharem como professores, monitores ou mestres de ofícios na rede municipal e estadual (do ensino médio) trazendo verdadeiro benefício ao Estado Brasileiro. Lógico que as oficinas ou laboratórios teriam de ser gradualmente montados com os equipamentos necessários aos trabalhos práticos e/ou experimentais. Outra solução bastante inteligente seria o Estado oferecer e divulgar anualmente e com urgência, número determinado de matrículas gratuitas no SENAI, SEBRAE, SESC, acompanhando o bolsista durante o período de seu treinamento.
      A demanda por mão-de-obra qualificada é crescente. A formação e diploma atual oferecido é demagógico.

      O desafio está colocado

      (Gentileza manter somente esta versão do texto que encontra-se pendente de liberação)

    • Pedro Almeida

      Correção, por gentileza leia-se: “Alguns querem acreditar que o sistema de cotas raciais é a solução para o problema histórico dos excluidos da sociedade…”

  • Paulo,
    generalizar é muito feio, minha loja foi inaugurada em 1999, nessa época nem as classes A e B tinham acesso regular a Internet. Aqui nunca tivemos jogos e criança e adolescente somente acessa para trabalhos escolares, alias não cobramos para que usem os pc´s para estudar e não fazemos trabalhos para terceiros.

  • Paula,
    É ótimo encontrar pessoas que tem compreensão da importância das Lan Houses para a população. Para as classes A e B como entretenimento e conveniência e para as classes C, D e E como ponto de inclusão digital e social!

    Um abração!

  • wander

    abrasilierada????

    Me perdoe, Melhor usar o termo “abrasilERRADA”.

    Errado é dizer que escrever errado é “jeito brasileiro”.

  • […] por meio de Local Area Networks (LAN), uma tendência que no início era … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

  • Sem uma lan-lan o Espaço Mensaleiro estaria fora do ar.
    Compro sinal e sou feliz desabafando.

    DINHEIRO PÚBLICO NÃO TEM DONO!

    Aqui no Brasil não tem mesmo.

  • Inara

    Paula,

    Excelente artigo. Obrigada por compartilhar um trabalho de tamanha qualidade e relevância conosco.

    Abraços,

    Inara

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