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Em centro de isolamento para repatriados em Angola, falta triagem, espaço, e até papel higiênico

Captura de ecrã vídeo de Angolanos expostos ao relento – captação no perfil de Wilcker Cláudio (com permissão).

Com três casos de COVID-19 confirmados, Angola faz parte dos mais de 40 países Africanos que já registaram a presença da doença.

No dia 18 de Março, criou uma comissão inter-ministerial para combater o avanço da pandemia no país. O Ministério da Saúde confirmou os dois primeiros de COVID-19 no dia 21 de Março.

Angola fechou fronteiras aéreas, terrestres e marítimas à circulação de pessoas desde à meia-noite de 20 de Março, mas tem autorizado alguns voos para transportar cidadãos angolanos de regresso ao país.

O governo estabeleceu centros de isolamento nos arredores da capital Luanda para alojar os angolanos repatriados. Um vôo com origem em Lisboa trouxe cerca de 200 passageiros no dia 21 de Março,

Muitos passageiros não foram tratados de maneira equânime. Célio Alberto, um deles, disse ao portal Maka Angola, que as autoridades dividiram os passageiros de forma diferente para o cumprimento da quarentena:

Sem sabermos quais foram os critérios de selecção, as autoridades escolheram os passageiros que foram para o hotel de cinco estrelas Vitória Garden e os que foram enviados para o Centro de Quarentena no Calumbo.

Já os passageiros destinados ao Centro de Desenvolvimento da Criança Nova Esperança, município de Viana, tiveram que aguardar durante mais de três horas nos autocarros antes que eles pudessem entrar no centro de isolamento.

Os passageiros que foram levados para o centro de quarentena do Caumbo passaram por uma situação parecida, tendo que dormir no veículo antes de acessar o centro. O portal Maka Angola conta a história:

Manuela Silva relata, indignada, a jornada do aeroporto ao local de quarentena, onde chegaram por volta das 22h00. “No trajecto, com sirenes e batedores, fomos apedrejados na via como assassinos, como estando a trazer o vírus para matar os angolanos”, denuncia.

(…)

Manuela Silva revela que só às 2h00 da madrugada chegaram alguns indivíduos não identificados, os quais deram início à montagem de camas individuais e beliches nos quartos do Centro de Desenvolvimento.

“Encontrámos os colchões ao relento, todos empoeirados e os quartos nunca antes habitados, em péssimas condições. As casas de banho nem sequer tinham papel higiénico”, revela a passageira.

“Uma médica que lá se encontrava de serviço disse-nos para irmos fazer as necessidades no capim. Nem nos permitiu perguntar-lhe como as mulheres o fariam no meio dos homens”, conta Manuela Silva.

“A TAAG ligou-nos porque havia um voo de emergência para transportar familiares de ministros e outros dirigentes e podíamos aproveitar. Ninguém nos informou de que ficaríamos sujeitos a estas condições degradantes. Muitos teriam preferido ficar em Lisboa”, lamenta Manuela Silva.

No mesmo dia, chegou outro voo proveniente da cidade do Porto, a mais afectada pelo novo coronavírus em Portugal. Segundo Célio Alberto, falando também para o Maka Angola, não houve triagem dos passageiros:

Misturaram-nos todos, os passageiros do Porto e de Lisboa. Não havia espaço nem condições para estarmos separados. Ficámos aglomerados e não havia quem nos desse informações nem estabelecesse quaisquer procedimentos de controlo. Mediram-nos apenas a temperatura à chegada, nada mais.

Familiares dos internados estão a levar alimentos para os reclusos devido à incapacidade do Estado para prover alimentação suficiente.

O caso foi notícia em Moçambique – captura do Telejornal, 24 de Março

Após diversas críticas na imprensa e nas redes sociais, a Casa Civil do Presidente da República designou o General Pedro Sebastião, Ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente da República, para coordenar a comissão inter-ministerial de Gestão das Medidas Contra a Expansão da COVID-19,garantindo que os passageiros seriam alojados em casas de melhores condições:

Agradecemos a compreensão dos cidadãos pelos constrangimentos ocorridos. O Executivo está empenhado neste processo e tudo fará no sentido de salvaguardar a saúde pública e o bem maior, a vida de todos os angolanos.

Enquanto isso, o professor universitário Gabriel Tchingandu expressou no seu perfil do Facebook sentir falta de informação nos média:

Sinto muita falta de informação sobre o COVID-19 em Angola. Se eu fosse director de uma rádio ou TV em Angola, suspendia toda a programação normal do órgão. Montaria uma tenda de repórteres na entrada do centro de quarentena Calumbo e outra na entrada do centro da Barra do Kwanza. Outra tropa de jornalistas diante das portas dos hospitais e clínicas assistindo casos.

Outra tenda de jornalistas ficava montada diante do quartel general da Comissão Inter-sectorial do Governo. No estúdio, os diferentes especialistas de saúde, comentadores e autoridades esgrimiriam argumentos com o foco virado para Angola.

Outros jornalistas em diferentes ruas das cidades fariam relatos de testemunhas com interesse no caso Covid-19. A cobertura de factos e ditos seria “no stop” em 24 horas. Os jornalistas nesta cobertura especial teriam seus salários duplicados.

Assim ajudaria a combater o coronavírus em Angola, aumentando igualmente a audiência da minha TV/rádio

Já o jornalista André Mfumu Kivuandinga alega que os cidadãos em quarentena estavam sem comer e que suas bagagens que estavam em partes incertas:

Segundo denúncias acabadinhas de me serem feitas por um angolano, cujo nome irei omitir, que se encontra no Centro de Quarentena, em Calumbo, Viana, Luanda, desde às 1 horas da madrugada que comeram até agora estão sem alimentação, também não sabem o paradeiro das suas bagagens.

Até aqui nenhum responsável do Governo ou da comissão multissetorial os foi visitar, o cidadão em caso é hipertenso”.

Carlos Pinho, jovem comentador político, publicou no seu perfil do Facebook um vídeo de indignação dos passageiros, ainda na zona do aeroporto 4 de Fevereiro.

“Incompetência gritante. Mas afinal quando teremos um governo a sério. É disto que eu falo: dignidade”.

Após decretação de estado de emergência por quinze dias, outro maior problema colocado é justamente a praticabilidade de medidas como o confinamento total da população, tal como mostra o comunicador e comentador Víctor Mendes:

Decretar estado de emergência e encerramento de todo funcionalismo público é o que venho falando há uma semana. Fechar para evitar o mal maior.

Inglaterra e Estados Unidos entram em lockdown brevemente. Foi esse o erro que a Itália cometeu.

Mas nós estamos perante um grande dilema. Sim ou não?

O nosso governo nunca se preparou para um cenário como este. Não fechar poderemos também pagar muito caro e com aquilo que não tem preço. Vida.

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