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Moradores de favela de São Paulo protestam depois das mortes de nove jovens pela polícia

Em protesto no dia 4 de dezembro, três dias depois das mortes, moradores caminharam até a sede do governo de São Paulo pedindo justiça | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Reproduzida sob licença

Este texto é publicado aqui via parceria de conteúdo entre o Global Voices e a Agência Mural.

Uma semana se passou desde que nove jovens morreram em Paraisópolis, favela da zona sul de São Paulo, onde vivem mais de 100 mil habitantes. Desde então, moradores têm se manifestado e cobrado respostas sobre o que levou a situação e sobre as ações relacionadas a Polícia Militar.

Com idades entre 14 e 23 anos, morreram na ação policial que iniciou em uma festa funk conhecida como “Baile da 17″: Gustavo Cruz Xavier, 14, Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16, Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16, Denys Henrique Quirino da Silva, 16, Luara Victoria Oliveira, 18, Gabriel Rogério de Moraes, 20, Eduardo da Silva, 21, Bruno Gabriel dos Santos, 22, e Mateus dos Santos Costa, 23.

Logo após a ocorrência, imagens de policiais encurralando jovens em becos e vielas se espalharam pela internet, como este publicado pelo repórter André Caramante:

A alegação da PM é de que a operação teve início após uma troca de tiros com dois homens que estavam em uma moto. Eles teriam fugido para a região onde era realizado o baile. A ação policial terminou em tumulto e, na correria, pessoas foram pisoteadas.

Centenas de moradores protestaram na noite seguinte. Estima-se que 5.000 pessoas estavam no baile quando a confusão começou. Imagens gravadas por moradores mostram policiais encurralando jovens e agredindo durante a operação. Alguns relatam que o clima tenso se acirrou nas últimas semanas após a morte de um policial.

Ao longo da semana, a vida na comunidade esteve mais silenciosa do que o comum, segundo relato de moradores. No entanto, ainda com receio, a maioria evita dar entrevistas. Por outro lados, familiares protestaram ao longo da semana.

Gritos como “A Quebrada Quer Paz”, “Chega de opressão”, “Justiça”, marcaram um dos atos que também teve críticas ao governador João Doria (PSDB). A Secretaria de Segurança Pública afirma que a operação começou após dois motoqueiros terem trocado tiros com os policiais e fugido para a região do baile.

O próprio governador, que chegou a negar culpa dos policiais logo após a notícia das mortes, mudou o tom com a publicação de vídeos mostrando um policial rindo enquanto agredia jovens nas ruas da favela. Ele recebeu familiares e anunciou uma comissão externa para apurar os fatos:

Na manifestação, moradores levavam cartazes e cruzes, em referência às mortes. Motociclistas fizeram ainda um buzinaço.Também foi feito um minuto de silêncio e uma oração.

Os moradores também entoaram o Rap da Felicidade, música tradicional das comunidades: “Eu só quero é ser feliz e andar tranquilamente na favela em que eu nasci, e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”.

Mais cedo, a página de Paraisópolis no Facebook publicou um texto em solidariedade aos familiares. “Não aceitaremos calados, exigimos justiça com a punição dos culpados. Paraisópolis e as comunidades precisam de ações sociais para enfrentar suas dificuldades, mais do que remediar, precisamos prevenir. CHEGA de violência, queremos paz”.

Ainda na semana passada, o mesmo grupo publicou uma série de nove reivindicações como a investigação transparente do caso, o estímulo a instrumentos de lazer no bairro e contra a criminalização do funk.

Preconceito

A ação em Paraisópolis levantou discussões no Brasil sobre dois pontos: a falta de espaço de lazer para os jovens que vivem em áreas pobres da cidade, e também o preconceito contra o estilo funk.

Vários jovens ouvidos ao longo da semana pela Agência Mural e que vivem nessa região relataram a falta de espaços para curtir, além dos gastos impostos para se locomover pela cidade. Por outro lado, há questionamentos se ações como a de Paraisópolis teriam ocorrido em regiões nobres da cidade, onde o funk também é tocado.

O baile onde houve a ação policial se tornou um dos principais pancadões de São Paulo. As nove vítimas não eram da favela de Paraisópolis, mas de outras periferias da Grande São Paulo: Capão Redondo e Interlagos, na zona sul, Pirituba e Jaraguá, na zona norte, Vila Matilde, na zona leste, além das cidades de Mogi das Cruzes e Carapicuíba.

A publicação de um dos jovens assassinados, Dennys Guilherme, feita em seu Facebook em abril, viralizou. A frase que acompanhava uma foto dele dizia: “Vou ser um dos favelados que vai conquistar o mundo. vou ser pra minha mãe o motivo de tanto orgulho”. No protesto, Fernanda, irmã dele, pediu justiça.

Uma das questões é som alto durante as noites em que essas festas ocorrem. Moradores que não participam do evento costumam reclamar da situação, e afirmam haver excessos. Por outro lado, o evento também movimenta a economia dessas regiões. 

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou a ação da polícia e exigiu que o Estado reforme seus protocolos de segurança. Embora o número de homicídios tenha caído 11% no Brasil, o número de pessoas mortas pela polícia aumentou, segundo pesquisa recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Só em 2018: 6.220 vítimas.

Em um editorial, nós, da Agência Mural, afirmamos sobre a tragédia:

A morte desses jovens de Paraisópolis escancara o que está nas entrelinhas: as periferias não têm direitos ou têm menos direitos de ser feliz do que outros lugares da cidade. Ela não é vista como parte da cidade, mas como um território de exclusão.

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