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O depoimento de uma professora, neta de escravos, sobre como é o racismo no Brasil

O depoimento da professora sobre como é sentir racismo no Brasil viralizou | Foto: Reprodução/Facebook

Uma professora, mulher, negra, 77 anos, aposentada, natural do estado do Paraná, no sul do Brasil, virou a musa da Festa Literária de Paraty – maior evento de literatura do país, realizado a cada dois anos, na cidade do litoral do Rio de Janeiro. Diva Guimarães não era um nome conhecido para os brasileiros até sexta-feira, 28 de julho. Quando ela levantou da cadeira para tecer um comentário, durante uma mesa que discutia o racismo no Brasil, sobre sua história, não imaginava que teria a repercussão que teve, como ela mesma disse mais tarde:

Ontem, eu fui libertada por mim. Eu quero deixar claro que não me sinto vítima, não me sinto nenhuma miserável, apesar de tudo o que eu passei, e que ao pensarem que estavam me prejudicando, me auxiliaram com todo o sofrimento a chegar onde eu cheguei.

Diva nasceu na cidade de Serra Morena no interior do estado do Paraná. O local hoje tem pouco mais de 200 casas, segundo ela. Neta de escravos, ela diz que a mãe passou por todo tipo de humilhações para garantir que os filhos estudassem. Foi assim que Diva seguiu ainda menina para a capital Curitiba, cidade onde apenas 2,8% da população se declara negra, para virar professora. No depoimento que viralizou nas redes sociais, ela conta sobre o que tinha de ouvir dentro do colégio de freiras para onde foi levada aos 5 anos, para estudar e trabalhar:

Vou contar uma história que marcou a minha vida. Eu amadureci com 6 anos. As freiras contavam a seguinte história: Jesus criou um rio e mandou todos tomar banho, se banhar na água abençoada daquele maldito rio. As pessoas que são brancas é porque eram pessoas trabalhadoras, inteligentes e chegaram nesse rio, tomaram banho, ficaram brancos. Nós, que como negros, somos preguiçosos – o que não é verdade, porque esse país vive hoje porque meus antepassados deram condição para todos – mas então, nós, como negros preguiçosos, chegamos no final, quando todos tinham tomado banho e o rio só tinha lama. Por isso, nós só temos a palma da mão clara e a sola dos pés. Porque nós só conseguimos tocar as mãos e os pés [na água]. Isso a freira explicava para contar aos brancos como nós éramos preguiçosos. Isso não é verdade, porque senão, a gente não teria sobrevivido.

Este ano, Diva viajou até Paraty para conhecer Conceição Evaristo, escritora e ativista do movimento negro, que é uma referência no Brasil. Para a TV da Flip, ela contou que sempre sonhou em participar do evento, mas como usa seu salário para sustentar outras três pessoas, não conseguia. Mas acabou chegando à Festa Literária justamente no ano em que o homenageado é o escritor Lima Barreto, que também era neto de pessoas escravizadas.

No mesmo vídeo, Diva conta o que a fez pedir o microfone para falar:

O que aconteceu ontem foi da alma. Eu me levantei por impulso e disse: não vou perder essa oportunidade de falar pelos negros de hoje e, especialmente, pelos negros de ontem, que sofreram por esse país, morreram de todas as formas. Eu quero que eles reconheçam que o Brasil de hoje existe porque os negros morreram para dar qualidade de vida para os que hoje estão aqui.

A professora que virou celebridade e era requisitada para selfies na Flip, pediu ainda que os jovens negros de hoje estudem e leiam para ajudar a descontrair o mito preconceituoso de que seu povo é “preguiçoso”.

Pouco antes de dar seu depoimento, que já tem mais de 8,5 milhões de visualizações, ela foi vítima de racismo mais uma vez. O episódio foi relatado ao jornal Folha de São Paulo e mostra o preconceito velado que tanto marca o Brasil e que o país resiste em ver. Diva estava passeando na feirinha da Festa Literária quando foi abordada por um vendedor, com raiva, que cobrava que ela limpasse o cocô de um cachorro que estava a poucos metros de distância. Além de ela não ser dona do cachorro, também não era a única pessoa no local que ele poderia ter abordado. Ainda assim, o homem a escolheu entre todos que passavam por ali. “Eu sei bem porquê”, diz ela.

Com mais da metade da população negra, Brasil nega racismo

Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que os negros correspondem a 53,6% da população brasileira hoje. Porém, são apenas 17,2% entre o 1% mais rico da população. Em maio, países africanos e de maioria negra cobraram medidas do governo brasileiro para combater o racismo no país, no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Segundo a BBC:

Essas nações pediram providências do governo brasileiro para a redução dos homicídios contra jovens negros, garantia de liberdade religiosa, melhora ao acesso a educação de qualidade pela população afro-brasileira, proteção e garantias de direitos para mulheres negras e mais acesso a políticas de redução da pobreza e acesso a programas sociais.

Na mesma mesa em que Diva se destacou, pouco antes, o ator Lázaro Ramos também deu um depoimento sobre como o racismo tem um efeito ricochete em toda a sociedade brasileira. “É um questão central o que está acontecendo hoje no Brasil com a juventude negra. Várias potências estão sendo assassinadas”, disse ele antes de seguir para a leitura de um texto próprio:

Sim, somos racistas. Acreditemos e lutemos para não sermos. Sim, somos classistas. Aqui, quem estuda mais, ou seja, quem teve mais chance, tem direito a cela especial [no presídio]. Gostamos de celebrar e de privilegiar o especial. Cela ruim é para preto e pobre. Bota eles lá e tira eles da nossa frente.

O grupo de jornalismo independente Mídia Ninja encontrou com Diva em Paraty e perguntou “que recado ela daria para as jovens mulheres negras de hoje?”. A resposta dela foi:

“Que elas não se valorizem pelo corpo, se valorizem pela cultura. Que elas não são mercadoria sexual (…) Que elas tenham discernimento para distinguir esse tipo de abuso. Ela tem o direito de usar o corpo como quiser, mas não dessa maneira que tentam passar, como tentam fazer que os negros sejam conhecidos fora do Brasil como objeto sexual”.

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