Está vendo todos esses idiomas acima? Nós traduzimos os artigos do Global Voices para tornar a mídia cidadã acessível para várias partes do mundo.

Saiba mais sobre Tradução do projeto Língua  »

A razão pela qual a eleição presidencial de 2017 em França é invulgar

Mapa que mostra o candidato mais votado depois da primeira volta na eleição presidencial francesa de 2012 nos seguintes territórios: França Metropolitana, Departamentos e Territórios Ultramarinos e votos dos cidadãos franceses a viver no estrangeiro. François Hollande –> cor-de-rosa Marine Le Pen –> cinzento Nicolas Sarkozy –> azul via BigonL em wkipedia CC-BY-30

As iminentes eleições em França, a presidencial e a legislativa, prometem ser diferentes. As eleições presidenciais terão lugar a 23 de abril e 7 de maio, seguidas de perto pelas eleições legislativas a 11 e 18 de junho.

Pela primeira vez no atual sistema republicano de governo em França, estabelecido em 1958, o presidente cessante François Hollande decidiu não se recandidatar. No entanto, há três outras razões — tanto nacionais como internacionais — que dão um certo toque de incerteza a esta campanha.

1. Os partidos tradicionais perderam território para novos partidos

Em 2012, os partidos políticos tradicionais em França, o Partido Socialista e o Partido Republicano tinham assegurado os primeiros lugares em todos os departamentos na primeira volta. Sem dúvida que não será este o caso este ano: os candidatos destes partidos estão no terceiro ou quarto lugar nas últimas sondagens, muito atrás de Marine Le Pen, a candidata da Frente Nacional e Emmanuel Macron, candidato do movimento En Marche [Em Marcha].

François Fillon, o candidato republicano está envolto em problemas jurídicos relacionados com o escândalo do emprego falso da sua esposa. Benoît Hamon, o candidato do Partido Socialista, fica-se pelos 16% dos votos previstos nas sondagens depois da sua vitória nas eleições primárias da esquerda.

Esta tendência confirma uma atitude desafiadora contra a política habitual e um desejo por uma mudança significativa. Jean-Philippe Dubrulle é responsável pelo departamento de opinião e estratégia do Institut français d'opinion publique [Instituto Francês de Opinião Pública]. Ele explica o porquê desta eleição ser diferente:

Aujourd'hui, on voit deux tendances assez contradictoires : D'un côté une baisse la participation (ou du moins un désintérêt) et d'un autre une plus grande richesse de l'offre politique. Le désintérêt était justifié par le fait que les gens avaient l'impression que personne ne représentaient leurs idées. C'était, le gros candidat de la gauche et le gros candidat de la droite et puis c'est tout.  Aujourd'hui l'offre est beaucoup pus variée avec des lignes très marquées à gauche, comme à droite ce qui fait qu'on aboutit à deux pôles extrêmement forts. Même si les français ont déjà une bonne idée des candidats qui seront en lice, l'offre n'est pas encore fixée. Tout peut se passer. On assiste clairement à un refus des candidats du passé. Est-ce que tout ça aboutira à un sursaut de mobilisation ou une baisse ? Il est trop tôt pour le dire.

Hoje em dia, assistimos a duas tendências bastante contraditórias: por um lado, há uma redução da participação (ou, pelo menos, uma falta de interesse) e, por outro, há mais por onde escolher no espetro político. A justificação para a falta de interesse era, anteriormente, o facto que as pessoas tinham a impressão de que ninguém representava as suas ideias. Era uma questão de candidato da extrema esquerda, candidato da extrema direita e só isso. Hoje em dia, há muito mais variedade com acentuadas divisões na esquerda e na direita, o que resultou em dois campos extremamente diferentes. Mesmo que o povo francês tenha uma boa ideia dos candidatos que estão na corrida, a batalha ainda não está ganha. Tudo pode acontecer. Isto é claramente uma rejeição dos candidatos do passado. Será que isto tudo irá causar um forte aumento na participação ou uma descida? É muito cedo para dizer.

2. A ascenção inevitável do populismo nas democracias ocidentais 

A vitória de Trump nos Estados Unidos, o Brexit na Grã-Bretanha, a extrema direita na Hungria e a ascenção geral de partidos populistas na Europa são os sinais mais claros de que muitos países estão a rejeitar a globalização e a tornar-se cada vez mais isolados. Olivier Costa, diretor de investigação do CNRS (Centro nacional de investigação científica) e para Science Po Bordeaux, explora em detalhe a causa comum para estas tendências nas democracias ocidentais:

Les gens ont le sentiment que l’avenir est noir et que les vieilles recettes des partis établis ne fonctionnent pas. De ce fait, beaucoup ont la tentation de s’en remettre à des nouveaux venus sur la scène politique qui proposent de nouvelles solutions. Les ficelles sont souvent un peu grosses mais d’une certaine manière, les gens s’en fichent. Il y a ceux qui croient à ce que proposent ces nouveaux venus en se disant que ça n’a pas été essayé, et ceux qui sont dans une logique protestataire, de ras-le-bol par rapport aux partis établis. Aussi, ce succès est dû au fait que les partis traditionnels n’arrivent pas à proposer une alternative.

As pessoas sentem que o futuro é desanimador e que as velhas receitas dos partidos estabelecidos não estão a funcionar. Por causa disto, muitos caem na tentação de se voltarem para os recém-chegados à cena política que oferecem soluções novas. As suas táticas poderão ser muitas vezes um pouco duvidosas mas, de certa forma, as pessoas não se importam. Há aqueles que acreditam no que esses recém-chegados propõem, dizendo a si mesmos que isto nunca foi tentado e aqueles que se encontram numa mentalidade de protesto, que se sentem desanimados em relação aos partidos estabelecidos. Para além disso, este sucesso é devido ao facto que os partidos tradicionais não estão a oferecer qualquer alternativa.

3. Os escândalos que envolvem os candidatos

Depois de várias semanas de escrutínio, nenhum dos favoritos teve sucesso em se distanciar do grupo. Marine Le Pen lidera as sondagens mas também está a enfrentar problemas jurídicos, particularmente a investigação centrada na contratação fictícia de vários assistentes parlamentares europeus, o financiamento da sua campanha eleitorial nas eleições legislativas e presidenciais de 2012 com dinheiro russo e também a perda da sua imunidade no Parlamento Europeu devido à “partilha de imagens violentas”. As ameaças de inquérito judicial que Fillon sofre tem sido muito discutidas nos órgãos de comunicação social bem como as suas promessas esquecidas de se retirar da corrida se fosse alvo de uma investigação.

Fillon deveria pôr em prática a sua primeira promessa “Não serei candidato se for alvo de uma investigação”.

Emmanuel Macron continua a ser uma incerteza e não colhe os frutos do apoio e da estrutura de um partido político tradicional. Benoît Hamon está a ter dificuldade em reunir forças na esquerda e herdou os problemas deixados pelo presidente mais impopular na história da Quinta República.

Todos estes fatores juntos significam que esta eleição é uma das menos certas das últimas décadas e que, independentemente do vencedor, a tarefa de governar um país cada vez mais dividido será um desafio difícil de enfrentar.

Inicie uma conversa

Colaboradores, favor realizar Entrar »

Por uma boa conversa...

  • Por favor, trate as outras pessoas com respeito. Trate como deseja ser tratado. Comentários que contenham mensagens de ódio, linguagem inadequada ou ataques pessoais não serão aprovados. Seja razoável.