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Adeus a Abbas Kiarostami, cujo olhar “atravessou as suas raízes persas”

A photo of Abbas Kiorastami shared by Hossein Setareh on Facebook made out of 1000 frames from the Kiarostami film "Where is the Friend's Home?."

Imagem de Abbas Kiarostami, compartilhada por Houssein Setareh, feita a partir de 1000 fotogramas retirados do filme “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, gravado por Kiarostami em 1987. Imagem utilizada com permissão para ser republicada.

Na noite de 4 de julho, a notícia de que o cineasta iraniano Abbas Kiarostami perdeu sua luta contra o câncer aos 76 anos foi dada de um hospital em Paris.

Kiarostami tinha dado entrada  na metade do mês de junho no hospital Arad, situado no Teerã, onde ele havia sido submetido a uma cirurgia por conta de seu grave câncer gastrointestinal. Posteriormente, no dia 27 de junho, sua família decidiu que ele deveria ir em busca tratamentso médicos mais avançados em Paris, e ele foi transferido  em uma ambulância aérea por sua equipe de produção.

As homenagens e o luto que se seguiram após o anúncio de sua morte ultrapassaram as fronteiras do Irã, já que o cineasta era considerado uma lenda por sua qualidade artística tanto em seu próprio país quanto no exterior.

Nas redes sociais, pessoas diretamente envolvidas com o cinema iraniano, como a atriz Tanareh Alidoosti, consideraram o falecimento de Kiarostami uma perda para a indústria cinematográfica e para o país como um todo:

Que momento triste para o Irã e seus muitos fãs do mundo todo. Todos perdemos um grande homem hoje”. #Kiarostami

— Taraneh Alidoosti (@t_alidoosti)  4 de julho de 2016

Em certa ocasião, o diretor franco-suíço Jean-Luc Godard canonizou o papel de Kiarostami para o cinema por meio da seguinte afirmação: “O cinema começa com DW Griffith e termina com Abbas Kiarostami”. Martin Scorsese, por sua vez, declarou ainda que “Kiarostami representa o maior nível de talento no cinema”.

O próprio Kiarostami respondeu a esses elogios (com uma declaração que agora podemos ler como uma trágica antecipação), dizendo que “Essa admiração talvez seja mais apropriada depois de minha morte”.

Kiarostami foi o primeiro e único iraniano a receber a notória Palma de Ouro, o maior prêmio entregue pelo Festival de Cannes, por sua produção de 1997 intitulada Gosto de Cereja, além de outras homenagens e premiações (principalmente europeus).

No Irã, seus filmes foram recebidos com desconfiança e censura pelas autoridades. Antes da Revolução Islâmica de 1979, ele foi censurado por utilizar imagens de mulheres trajando o hijab. Depois da Revolução, contudo, foram seus filmes que retratavam mulheres sem o hijab que impossibilitaram sua distribuição nacional. Apesar das limitações, e diferentemente de grande parte de seus colegas artistas e cineastas, Kiarostami foi um dos poucos que não deixou o Irã após a Revolução.

Em uma entrevista em 2005, concedida ao jornal The Guardian, Kiarostami explicaria:

The government has decided not to show any of my films for the past 10 years. I think they don't understand my films and so prevent them being shown just in case there is a message they don't want to get out. They tend to support films that are stylistically very different from mine – melodramas.

O governo decidiu não exibir nenhum dos meus filmes pelos próximos 10 anos. Eu penso que eles não entendem meus filmes, e então os proíbem de serem exibidos caso haja alguma mensagem que eles não querem que seja passada. Eles costumam apoiar filmes que são estilisticamente muito diferentes dos meus: melodramas.

Apesar dessa tensão, Kiarostami ainda detinha muito respeito e admiração entre as autoridades. O Primeiro Ministro da Saúde do Irã, Hassan Ghazizadeh Hashemi, esteve entre os últimos visitantes a se encontrar com Kiarostami em seu leito enquanto ele estava no hospital no Teerã.

“Seu olhar poético atravessou as suas raízes persas”

Conversamos com alguns fãs de Kiarostami e pedimos que eles falassem sobre algumas de suas cenas e de seus momentos preferidos do cinema do diretor.

O roteirista iraniano-holandês Sehand Sahebdivani escolheu uma cena da narrativa documental-ficcional de 1990  intitulada Close-up”. Ele explicou por que a cena o comove tanto:

This scene is when a man who might not be completely mentally sound meets a famous director. The director asks him what he's done and he says “on the outside seems I've defrauded a family,” to which Kiarostami asks, “but what about the inside?” He responds “the inside (inner truth) is that I was simply a fan of cinema.” In our prison system [in Iran] we need “party bazi” (or some kind of nepotism), so someone who can help us to get a more lenient sentence. But when the director asks this man what he can do for him, he never asks “tell the judge not to be harsh”. He simply (or absurdly) asks the director to make a film about his suffering. While all the time the camera man locks on his intense gaze. Everything tells us this man is unstable, but he's us. We're trapped in a system we can't get out of, and instead of asking our filmmakers (currently deemed higher than our poets and writers) to release us we tell them simply to show our suffering and show the difference between the inner and outer reality. Heartbreaking really.

Nessa cena, um homem que pode não estar totalmente são encontra um diretor famoso. O diretor pergunta a ele como ele está e ele responde que “por fora parece que eu enganei uma família”, e Kiarostami pergunta: “mas e por dentro?” Ele responde: “por dentro (verdade interior) acontece que eu simplesmente era um fã de cinema”. Em nosso sistema prisional [no Irã], nós precisamos de “party bazi” (uma espécie de nepotismo), então alguém pode nos ajudar a pegar uma pena mais leve. Mas quando o diretor pergunta a esse homem o que pode fazer por ele, ele nunca pede “fale para o juíz não ser rígido”. Ele simplesmente (ou absurdamente) pede que o diretor faça um filme sobre o seu sofrimento, enquanto, durante todo o tempo, a câmera focaliza seu olhar intenso. Tudo nos diz que esse homem está desequilibrado, mas ele é nós mesmos. Nós estamos presos em um sistema que não podemos sair, e em vez de pedir aos nossos cineastas (atualmente mais estimados do que nossos poetas e escritores) para nos libertar nós simplesmente pedimos a eles para retratar nosso sofrimento e mostrar a diferença entre a realidade interior e exterior. Realmente aterrador.

Sadaf, uma fã de Kiarostami do Teerã, falou sobre a sua cena favorita em Gosto de Cereja, e explicou:

Apart from my favourites, I can share something else with you. I met him three years ago in a small gathering. He said, “I want people to relate to my movies, that's why my camera lens is usually at eye level. I want you to experience the characters. Feel them and feel as though you are having a dialogue and conversation with them.” And that is what you feel, truly, when you watch his movies. You relate. The stories are real. Some of them we deal with on a daily basis. I will always have much respect for him and his work because he was real.

Além da minha cena favorita, posso contar mais uma coisa para você. Eu o conheci há três anos em um pequeno encontro. Ele disse: “Quero que as pessoas se identifiquem com os meus filmes, e é por isso que as lentes da minha câmera estão sempre no nível dos olhos. Quero que você viva as personagens. Sinta elas e sinta como se você estivesse mantendo um diálogo e conversando com elas”. E isso é o que você sente, verdadeiramente, quando assiste aos filmes dele. Você se identifica. As histórias são verdadeiras. Algumas delas são sobre coisas que fazemos diariamente. Eu sempre terei muito respeito por ele e por sua obra, porque ele era verdadeiro.

Arash Azizi, jornalista iraniana que vive em Berlim, destacou os créditos iniciais do drama franco-japonês Um Alguém Apaixonado:

At the height of his mastery, the poet-filmmaker of the villages of Gilan moonlighted in Tokyo and told us a story backgrounded by the magical jazz of Ella Fitzgerald. For me, it was realisation of a dream I didn't know I had — and this is why I fell in love with Kia's “Like Someone In Love”. He proved that his poetic vision transversed its Persian roots and it could give life to stories beyond. Alas it was to be his last feature.

Do alto de sua técnica, o poeta-cineasta dos vilarejos de Gilan trabalhou de sol a sol em Tóquio e nos contou uma história com o jazz mágico de Ella Fitzgerald como pano de fundo. Para mim, foi a realização de um sonho que eu não sabia que tinha – e foi por isso que eu me apaixonei por Um Alguém Apaixonado do Kia”. Ele provou que seu olhar poético atravessou suas raízes persas e foi capaz de dar vida a histórias para além delas. Infelizmente essa acabou sendo a sua última.

O jornalista italiano Roberto Pizzato descreveu a primeira vez em que descobriu o cinema simples, porém genial, por trás da produção Gosto de Cereja, de Kiarostami:

I hadn’t watched any of his movies till a couple of years ago. At that time I was working for an independent cinema production company and a colleague brought a DVD to the office: it was Taste of Cherry, plus some interviews and a couple of his early short movies in black and white. When I think of that film, I am still moved by the enormity of the talent behind it: storytelling with a universal message in such a minimalistic way is a gift only geniuses have. Kiarostami transformed a movie on suicide into a hymn on life just by telling us to enjoy the beauty of the smallest things. As if a man who enjoys these things, regardless where they live and what they have been through, would have to live till he could enjoy them again.

Eu não havia assistido a nenhum de seus filmes até alguns poucos anos atrás. Na época, eu estava trabalhando para uma produtora cinematográfica independente e um colega trouxe um DVD para o escritório: era Gosto de Cereja, algumas entrevistas e alguns de seus curtas em preto e branco. Quando eu penso naquele filme, ainda fico comovido com o tamanho do talento por trás dele: o modo de contar uma história que carrega uma mensagem universal de uma forma tão minimalista é um talento que apenas os gênios possuem. Kiarostami transformou um filme sobre o suicídio em uma ode à vida somente nos dizendo para aproveitar a beleza que reside nas pequenas coisas. Como se um homem que sabe aproveitar essas coisas, independentemente de onde ele viva e do que ele tenha passado, tivesse que viver até ser capaz de aproveitá-las novamente.

Thomas Erdbrink, jornalista holandês que atualmente mora no Irã, demonstrou sua preferência por cenas do filme Shirin, de 2008:

One of my favourites is ‘Shirin’ where actresses from before and after the revolution listen to the famous Iranian love story of Farhad and Shirin. Kiarostami shows us their reactions. Lovely film.

Um dos meus favoritos é Shirin, em que atrizes de antes de depois da Revolução escutam a famosa história de amor entre Farhad e Shirin. Kiarostami nos mostra as suas reações. Filme encantador.

Pensando em sua cena favorita de Close-up, o diretor de criação iraniano-canadense Takin Aghdashloo nos conta:

My favourite scene is from Close Up where Sabzian meets the family he defrauded by pretending to be a famous film director. Kiarostami recreates the true story of the fraud using all the actual people involved but this time as actors, playing themselves. In this scene, Sabzian's true identity has been exposed to the family but they forgive and welcome him to their home. Kiarostami's masterpiece is a true intervention in reality, showing the therapeutic and unifying power of cinema.

Minha cena favorita é do filme Close-up, onde Sabzian se encontra com a família que ele enganou ao fingir ser um famoso diretor cinematográfico. Kiarostami recria a história verídica da fraude utilizando todas as pessoas reais envolvidas no ocorrido, mas como atores interpretando elas mesmas. Nessa cena, a identidade verdadeira de Sabzian foi exposta pela família, mas eles o perdoam e o recebem novamente em sua casa. A obra-prima de Kiarostami é uma verdadeira intervenção na realidade, que retrata o poder terapêutico e unificador do cinema.

A respeito de uma cena entre uma mãe e seu filho da narativa  documental-ficcional  Dez, de 2002, Sarvenaz, um fã estadunidense-iraniano, explica:

The ability to bring out such raw and real emotion between a mother and son. One of my favorite scenes. Rest in peace.

A habilidade está em retratar uma emoção tão crua e real entre uma mãe e seu filho. Uma das minhas cenas favoritas. Descanse em paz.

O fotojornalista italiano Nicola Zolin, que passou um período fotografando o Irã, expôs a inspiração que ele teve a partir do premiado Gosto de Cereja, de 1997:

What inspires me most was especially his movie “Taste of Cherry” which expressed the way Kiarostami was able to give voice to the voiceless I would say, or those parts of society which are never really heard from. This movie with the character who is driving who wants to kill himself, driving to the south of Tehran and meeting the most random people, and the depth of the dialogue drives you completely inside the sense of existence, and that to me is what Kiarostami was able to do, how to show the sense of existence through the peculiarity of the Iranian people, their dreams, preoccupations and their visions of the world, and this for me was also very inspiring to get to know this culture [Iranian] that I've been exploring and studying, which I admired, and he was the first vehicle for me to get to know it, and learn to love it and get to know the depth of it.

O que mais me inspirou foi especialmente seu filme Gosto de Cereja, que expressou a maneira como Kiarostami era capaz de dar voz aos que não têm voz, eu diria, ou àquelas partes da sociedade que nunca são ouvidas. Esse filme, com sua personagem que está dirigindo e que quer se suicidar, dirigindo para o sul do Teerã e encontrando as pessoas mais aleatórias, e a profundidade de seus diálogos te leva totalmente para o sentido da existência, e isso, para mim, é o que Kiarostami era capaz de fazer, como mostrar o sentido da existência por meio da peculiaridade do povo iraniano, seus sonhos, suas preocupações e sua visão de mundo, e isso me inspirou muito para conhecer essa cultura [a iraniana] que eu venho explorando e estudando, que me influencia, a ele foi o primeiro veículo para que eu pudesse conhecê-la, aprender a amá-la e conhecer sua profundidade