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Mulheres migrantes da América Latina contam histórias com bordados e retalhos

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Nova exposição do Museu da Imigração mostra histórias contadas por meio das arpilleras. Foto: Museu da Imigração/Divulgação

É possível um tema tão diverso e complexo como a migração ser abordado por meio da costura? A exposição “Do retalho à trama: costurando memórias migrantes“, que estreiou em fevereiro no Museu da Imigração, em São Paulo, mostra que sim.

A exposição é fruto do trabalho de mulheres migrantes da Casa de Passagem Terra Nova e do coletivo “Mujer Latina, tú eres parte, no te quedes aparte”, composto por mulheres de países da América do Sul. São 17 peças, agrupadas em quatro seções temáticas: Percursos, Saberes, Laços e Lugares.

Os trabalhos são feitos em arpillera, técnica de costura e bordado originária da região de Isla Negra, no Chile. Ela utiliza como suporte um pano rústico (que pode ser desses de saco de farinha ou de batata) e trapos de tecidos. E são com esses materiais simples que, quando tomam forma graças aos bordados e às mãos que os conduzem, contam histórias de vida e compartilham experiências de suas autoras.

A arpillera ficou popular na década de 1970, durante a ditadura militar no Chile. Por meio dele, as mulheres denunciavam as violências, perseguições e demais abusos do regime. Mas a técnica ultrapassou as fronteiras chilenas e foi replicada em diferentes contextos mundo afora.

A exposição fica no Museu da Imigração até 15 de maio.

Emoções em cada bordado

No ato da costura, as mulheres também dialogam sobre as próprias vidas e experiências, aproximando-se umas das outras. E também aprendem umas com as outras.

“Não sabia que era algo tão profundo e como estes pedaços de tecidos podiam tocar a alma de quem podia vê-los. E mais ainda, como mexia com os sentimentos de quem estava confeccionando. A experiência de passar estes momentos com mulheres de outras culturas foi muito gratificante”, reflete a chilena Yolanda Jeanette Cortes, uma das participantes da oficina do coletivo de mulheres que confeccionou parte das arpilleras que serão expostas.

Yolanda teve a companhia da filha, a analista de sistemas Jeannette Cortes , que compartilha das mesmas sensações da mãe. “Através deste trabalho notei que ele nos leva a refletir e rever os porquês de nossa existência. A gente se obriga a relembrar e a redescobrir o sentimento que muitas vezes não conseguimos expressar seja por motivos pessoais, culturais ou socioeconômicos. Temos as mesmas angústias, as mesmas alegrias.”. Jeannette soube da oficina de arpilleras por meio da ONG Presença de América Latina, dentro da qual está o coletivo de mulheres latinas.

A também chilena Gioconda Elgueta também enaltece a experiência de ter ajudado a compor as peças da exposição. “É uma experiência que deixa um doce sabor de amizade, de solidariedade. Trabalhar em grupo e com mulheres de diferentes idades e origens é agregar uma experiência maravilhosa em nosso caminho”.

Já a brasileira Dalvaci Porto, que migrou da Bahia para São Paulo em 2013, disse que também encontrou na arpillera uma forma de se expressar seus sentimentos e compartilhar experiências com outras pessoas. “Foi por meio das arpilleras que encontrei um caminho de reconstruir minha história, partilhar saudades e medos de quem recomeça a vida aos 52 anos em terras desconhecidas; ao mesmo tempo, reunir forças para enfrentar o novo e conquistar um lugar na sociedade. Procurei representar a riqueza da diversidade cultural daqui de São Paulo, que emerge da interação entre os imigrantes e os paulistas. É um fenômeno incrível de trocas na música, na culinária, na literatura, nos costumes, nos jeitos singulares… Fiquei muito feliz pela oportunidade de participar”.

A ideia é expandir o projeto e agregar mais pessoas de diferentes origens e gerações. “Nosso objetivo central  é continuar com nossos processos conjuntos de crescimento como pessoa humana e sociedade. Temos comprovado que o coletivo tem a propriedade de abrir a memoria, ampliar a perspectiva de análise da própria  historia e de sua origem, compreender que existem formas diversa de ser que nos unem e formam um “Nós””, explica a militante chilena Oriana Jara, da ONG Presença da América Latina e que também integra o coletivo de mulheres.

Exposição Do Retrato à trama: costurando memórias migrantes
Data e hora: de 13 de fevereiro, às 11h – vai até 15 de maio de 2016
Local: Museu da Imigração – Rua Visconde de Parnaíba, 1316 – Mooca, São Paulo (SP)
Entrada: gratuita