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Polícia pede, mas MPL invoca Constituição e diz que não vai divulgar trajeto de protestos com antecedência

São Paulo entrará na sua terceira semana de protestos contra o aumento da tarifa do transporte público. Foto: Mídia Ninja/Twitter

O Movimento Passe Livre (MPL) e a Secretaria de Segurança Pública seguem em impasse com relação ao trajeto dos protestos contra o aumento da tarifa de ônibus e metrô em São Paulo. A Secretaria exige que o grupo informe com 24 horas de antecedência o trajeto da marcha, mas o grupo diz que continuará com a tradição de decidir o percurso em assembléia com os presentes na hora do ato.

Há duas semanas o grupo protesta contra o aumento das passagens de ônibus e metrô em São Paulo, que este ano subiu de R$ 3,50 (0.80 USD) para R$ 3,80 (0.92 USD). O sexto ato está marcado para a terça-feira, dia 26 de janeiro, na Estação da Luz.

Em nota à imprensa divulgada no dia 25, a Secretaria de Segurança Pública propôs uma “reunião de planejamento” com os organizadores antes da manifestação do dia 26, “para que o pleno direito de manifestação seja garantido, assim como o direito de ir e vir dos mais de 12 milhões de habitantes de São Paulo”

No Facebook, o MPL postou justificou o seu posicionamento:

O Secretário quer saber o trajeto dos atos para que a PM possa se posicionar e atacá-los com maior precisão. Quer “negociar” com antecedência com os manifestantes para intimidá-los, fazendo com que os atos não ocorram ou que sejam menos impactantes, invisíveis para o resto da população. […]
Não podemos admitir esse retrocesso! A Secretaria de Segurança Pública não está autorizada pela Constituição Federal a determinar quando e onde a população pode se manifestar. Por isso, manteremos o nosso diálogo aberto com os manifestantes, conversando sobre o trajeto do ato em nossa concentração. Não cabe ao Estado decidir a forma dos movimentos sociais se organizarem! A sociedade não pode aceitar essa imposição!

Quinto protesto terminou com violência policial

Repressão na Praça da República. Foto via Jornalistas Livres. Uso livre.

Repressão na Praça da República. Foto: Jornalistas Livres, uso permitido.

A última manifestação convocada pelo grupo, realizada no dia 21, terminou com violência após a Polícia Militar impedir que a marcha seguisse o percurso por eles proposto, alegando que outro protesto já estaria ocorrendo no mesmo local. A agência Democratize explicou:

[…] Segundo o movimento, a manifestação que começará no Terminal Parque Dom Pedro II, caminhará nas ruas do Centro, passando pela Câmara Municipal, até chegar no seu ponto de destino — a Assembleia Legislativa Estadual de São Paulo (ALESP).

Menos de uma hora depois, a SSP divulgou nota oficial declarando que era impossível o MPL percorrer o trajeto declarado por conta de outra manifestação feita no local, por motoristas de vans escolares.

O MPL decidiu realizar uma rápida assembleia no local, na qual foram votadas alternativas à rota original bem como a sua manutenção. A posição vencedora foi a de continuar com o trajeto planejado. Segundo ativistas, a manifestação saiu do Terminal sob tensão e vigilância da Polícia Militar.

A marcha seguiu pacífica até a Praça da República, onde a PM passou a cercar os manifestantes de forma a impedir que seguissem até a a Assembleia Legislativa. O cerco foi realizado com uma grande quantidade de motocicletas, além de blindados israelenses anti-distúrbio. Sobre estes últimos, o jornalista Raphael Sanz escreveu:

Recentemente, foram comprados 6 blindados israelenses Plasan Sasa pela PM paulista. Segundo informações deste levantamento – feito a partir de dados divulgados por Metrô, SPtrans e imprensa – os veículos custaram 30 milhões de reais. Com essa verba seria possível comprar 100 ônibus, 272 ambulâncias, ou até mesmo financiar a tarifa zero por cerca de três dias para os 4,6 milhões de passageiros diários do metrô de São Paulo.

Pouco após às 21h, diante da pressão dos manifestantes para seguir adiante, a Polícia começou a atirar bombas de efeito moral, de gás e balas de borracha. A agência Democratize explicou:

URGENTE

Polícia atira contra manifestação pacífica em São Paulo, com mais de 7 mil pessoas gritando “sem violência”, na região do Centro. Muitas bombas e tiros de bala de borracha.

Motivo: PM não queria permitir que manifestação caminhasse até a ALESP, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

E também postou um vídeo que mostra o momento em que começa a repressão:

Em outro vídeo gravado pelo coletivo Território Livre é possível ouvir o som de bombas e balas de borracha enquanto os manifestantes fogem.

Vários manifestantes ficaram feridos, alguns com gravidade. Segundo o coletivo Movimento Pró-Corrupção, diversos deles foram atingidos por bala de borracha. Em sua página do Facebook, os Advogados Ativistas relataram:

Presenciamos pelo menos 6 atendimentos médicos só na esquina da 7 de Abril com a Dom José de Barros. Os ferimentos de bala de borracha, estilhaços de bomba, cassetadas e o mais grave uma fratura na perna de um senhor.

Nas imagens, homem com ferimento de bala de borracha na cabeça e jornalista da TVDrone ferido na perna por estilhaços de bombas. Fotos via MPL (esquerda) e Jornalistas Livres (direita). Uso livre.

Nas imagens, homem com ferimento de bala de borracha na cabeça e jornalista da TVDrone ferido na perna por estilhaços de bombas. Fotos via MPL (esquerda) e Jornalistas Livres (direita), uso permitido.

Jornalistas também foram atingidos pela Polícia, entre eles Juliano, fotógrafo da TVDrone, que ficou ferido após uma bomba estourar em sua perna.

A página do coletivo TV Drone lançou uma nota:

Repudiamos a violência institucional e a tentativa de criminalizar as manifestações e reivindicações da sociedade. Não podemos aceitar que a luta contra o aumento do transporte seja tratada com tamanha truculência.

O jornalista Raphael Sanz também publicou uma série de fotos da manifestação.