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No Rio de Janeiro, favela ao lado do estádio do Maracanã sofre com remoções para as Olimpíadas de 2016

Grafite na Favela Metrô-Mangueira é retrato da violência que representam as remoções. Foto: Catalytic Communities/ Flickr CC BY - NC - SA 2.0

Grafite na Favela Metrô-Mangueira é retrato da violência que representam as remoções. Foto: Catalytic Communities/ Flickr CC BY-NC-SA 2.0

Na tarde do dia 28 de maio, o Rio de Janeiro viveu mais um episódio de remoção forçada em favor das obras visando as Olimpíadas de 2016. Moradores da favela Metrô-Mangueira, localizada próxima ao Estádio do Maracanã, onde ocorrerá a abertura dos jogos Olímpicos do Rio, tiveram casas e comércios demolidos com o objetivo de dar lugar à construção de um polo automobilístico.

Moradores contam que não receberam aviso prévio da prefeitura e foram surpreendidos na manhã do dia 28 com a presença dos tratores. Pelo menos oito construções foram demolidas, entre elas uma igreja da Assembleia de Deus.

A moradora Girlene Tavares falou à reportagem do UOL que teve pouco mais de 15 minutos para recolher seus pertences.

Quase derrubaram comigo dentro. Peguei uma mochila, coloquei meus documentos e o das crianças, umas roupas, e uns amigos ajudaram a carregar a máquina de lavar e uma geladeira. Era pouco, mas era tudo que eu tinha.

Adriano Vidal, outro morador, relata que reuniu todos os móveis que tinha em um terreno baldio, onde está nesse momento vivendo com a família:

Falaram que era para tirar tudo, que iam derrubar. Não dormi. Só sigo aqui por causa da minha mãe.

A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) afirma que entrou na favela com o objetivo de derrubar “construções irregulares”. A entidade diz que as construções tiveram suas estruturas condenadas após vistoria.

O prefeito alega que todas as pessoas que moravam lá já haviam sido transferidas para conjuntos habitacionais e que as pessoas que ainda residem ali têm algum tipo de “comércio ilegal”, e apenas essas foram as construções que foram demolidas. Ao jornal O Globo, ele afirma que o polo automobilístico já está sendo licitado.

 

Escombros das casas demolidas na Metrô-Mangueira. Foto: Catalytic Communities/Flyckr CC BY-NC-SA 2.0

Escombros das casas demolidas na Metrô-Mangueira. Foto: Catalytic Communities/Flyckr CC BY-NC-SA 2.0

No mesmo dia moradores da favela Metrô organizaram um protesto contra a demolição dos seus imóveis, que contou com a participação solidária de alunos da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), cujo campus fica próximo à comunidade. Segundo a PM, cerca de 300 pessoas participaram do ato.

Segundo testemunhas, a PM reprimiu o protesto com bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e muita violência. A violência se estendeu até o campus da UERJ. Apavorados pelo clima hostil, os estudantes correram em direção a UERJ, para se refugiarem. Alguns moradores também buscaram refúgio no campus e foram recebidos pelos estudantes, mas a polícia e a segurança não os deixaram entrar.

Tropa de Choque da PM, em frente ao campus da UERJ. Foto:Rodrigo Modenesi.

Tropa de Choque da PM, em frente ao campus da UERJ. Foto: Rodrigo Modenesi.

A mando do próprio reitor, as portas cerradas por medo de invasão da reitoria, e os estudantes receberam jatos de água e cassetetes pelos próprios seguranças da universidade. Houve depredação na universidade. A polícia trancou os portões da UERJ e mantiveram todos os alunos “presos”.

Marcas do confronto entre estudantes e seguranças no campus da UERJ. Foto: Rodrigo Modenesi.

Marcas do confronto entre estudantes e seguranças no campus da UERJ. Foto: Rodrigo Modenesi.

A Centro Acadêmico de Comunicação (Cacos) da UERJ registrou em vídeo o confronto entre estudantes e policiais na faculdade.

A polícia civil irá indiciar doze pessoas por crime de dano ao patrimônio, associação criminosa e lesão corporal. Foram identificadas nove estudantes da UERJ e três moradores da Metrô-Mangueira. Se condenados poderão pegar até 15 anos de prisão.

Coletivos de direitos humanos deram apoio aos moradores da comunidade nas negociações com o poder público e na tentativa a de evitar confrontos entre moradores e polícia. No dia seguinte, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro concedeu uma liminar que proíbe a prefeitura de dar continuidade às demolições na Metrô-Mangueira.

Resta saber até quando o que resta da Favela Metrô-Mangueira resistirá.

Favelas: uma história de remoções forçadas

Remoções forçadas em favelas não são novidade no Rio de Janeiro. A primeira desocupação de que se tem noticia na cidade ocorreu em 1893, no cortiço do centro da cidade Cabeça de Porco, então autorizada pelo prefeito do Distrito Cândido Barata Ribeiro, que deixou ao menos 400 pessoas desabrigadas. Desse evento decorreu o surgimento das primeiras favelas cariocas.

O campus da própria UERJ, no bairro Maracanã, foi construído em cima do que era a Favela Esqueleto, removida nos anos 1960. A Favela Esqueleto era formada principalmente por moradores que já haviam outrora sido removidos e perdido suas casas onde foi construída a Av. Presidente Vargas, uma das mais importantes do Rio.

O pouco que resta da Favela Metrô, também conhecida como Metrô-Mangueira, existe há mais de 30 anos. A comunidade é integrante do Complexo da Mangueira, localizado na zona norte do Rio de Janeiro, uma região de periferia da cidade que é o cartão postal do Brasil.

A comunidade foi formada incialmente por nordestinos, que vieram trabalhar nas obras de construção da estação do metrô do Maracanã, e ergueram ali os primeiros barracos. Ao contrario de grande parte das comunidades carentes do Rio, lá nunca houve tráfico e milícia. Aproximadamente 700 famílias viviam no local de forma pacífica — até o início das remoções em 2010, que tiveram visibilidade internacional.

Na época, a justificativa usada pela Prefeitura era a ampliação do estacionamento do estádio do Maracanã, que seria inteiramente reformado para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

Uma petição online foi feita pelos moradores contra as remoções, mas parece não ter surtido efeito. As primeiras famílias foram removidas para o longínquo condomínio Varese do programa do governo federal de habitação popular Minha Casa Minha Vida, no distante bairro de Cosmo, na zona oeste da cidade, aproximadamente 2 horas ou 70 km de suas antigas moradias.

As famílias que resistiram, com o auxílio da Defensoria Pública do Estado e da Pastoral das Favelas, conseguiram residências um pouco melhores em dois outros condomínios também do Minha Casa Minha Vida, Mangueira I e II, mas estes próximos à favela Metrô. Um terceiro condomínio, o Bairro Carioca, no bairro de Triagem, Zona Norte da cidade, recebeu outra leva de moradores que foram despejados.

À reportagem do veículo A Nova Democracia, os moradores realocados relatam sofrer com contas abusivas e reclamam de rachaduras na estrutura dos novos prédios.

 

Reportagem produzida pelo grupo de mídia independente A Nova Democracia sobre as remoções na favela Metrô.

Pequenos comerciantes locais estabelecidos na favela Metrô, que tinham nos moradores da favela grande parte de sua clientela, dizem que seus ganhos despemcaram desde as remoções. Muitos estão em via de perderem seus negócios e dizem estar sendo tratados como bandidos pela prefeitura.

 

O livro SMH 2016: Remoções no Rio de Janeiro olímpico, produzido como trabalho de conclusão de curso em Arquitetura por Lucas Faulbauer, traça um mapeamento das remoções realizadas pelo prefeito Eduardo Paes, no contexto pré-Olímpiadas. Segundo dados apurados por Faullhaber o prefeito do Rio de Janeiro promoveu cerca de 67 mil despejos.

De forma bastante confortável, o prefeito Eduardo Paes diz, no vídeo abaixo, usar os jogos Olímpicos no Rio como “desculpa para fazer tudo” na cidade do Rio de Janeiro.

O professor Carlos Vainer, do Ippur – Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano – da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, estima que entre 60.000 e 80.000 pessoas serão removidas de suas residências na cidade do Rio de Janeiro se utilizando como pretexto os megaeventos. Para Vainer, o Rio vem promovendo uma “limpeza urbana”.