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As 7 mil edições do governo russo na Wikipédia

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Quando se trata da Wikipédia, os computadores do governo russo são como abelhas atarefadas. Ao longo dos últimos dez anos, endereços de IP pertencentes a várias agências estatais russas foram responsáveis por quase 7 mil edições anônimas de artigos da Wikipédia em língua russa.

Um programador norueguês chamado Jari Bakken criou recentemente uma lista completa das 6909 edições anônimas na Wikipédia do governo russo. Bakken publicou listas semelhantes de edições na Wikipédia feitas por endereços de IP com origem em governos nos Estados Unidos, Israel, Irlanda, Canadá, Austrália e Noruega. Assim como modificações feitas por várias grandes empresas de petróleo.

Estudando as revisões na Wikipédia feitas nos computadores do governo russo, nós podemos apenas supor que as pessoas responsáveis estavam agindo de forma independente ou a serviço de uma campanha organizada. Provavelmente, um pouco dos dois.

A lista de Bakken inclui repetidas revisões de artigos sobre políticos russos, acrescentando elogios e removendo informações danosas. Por exemplo, endereços de IP no serviço secreto da Rússia, o FSO, fizeram 36 edições do artigo da Wikipédia sobre o senador russo Andrei Klishas, a quem o governo dos EUA sancionou em março 2014 por seu papel na anexação da Crimeia. A mesma agência revisou a página da Wikipédia do vice-primeiro-ministro Dmitry Rogozin cinco vezes. Endereços de IP do governo protegeram a reputação de outras figuras públicas também, incluindo o dramaturgo Aleksandr Pudin (25 revisões), o filósofo Viktor Vaziulin (30 revisões), “O porta-voz das crianças” Pavel Astakhov da Rússia (35 revisões), o sucessor de Astakhov Aleksei Golovan (4 revisões ), o político Vyacheslav Tetyekin (36 revisões) e muitos outros.

Apesar disso, nem tudo parece uma conspiração do Kremlin para “corrigir” a Internet. Por exemplo, alguém em um computador de propriedade de uma fábrica de produtos químicos estatal em Kursk editou a página da Wikipédia sobre o vídeo game “Call of Duty: Modern Warfare 3″, não para criticar o enredo do jogo (que envolve um ataque militar russo em Nova York), mas para corrigir [ru] um pequeno detalhe da sinopse do seu enredo. O autor provavelmente era apenas um fã do jogo.

Algumas das revisões até mesmo sugerem divergências entre as fileiras da burocracia russa. Em meio a protestos que abalaram Moscou em dezembro de 2011, por exemplo, alguém em uma empresa de TV estatal atualizou [ru] um artigo da Wikipédia sobre uma petição anti-Putin para mostrar que mais de 2 mil pessoas haviam assinado. Presumivelmente, esta edição na Wikipédia não foi por ordem do governo.

Outras revisões na Wikipédia, no entanto, casam muito bem com os esforços do Kremlin para proteger a sua própria reputação e prejudicar a imagem dos Estados Unidos. Aqui estão cinco exemplos:

  1. Criticando a nomeação de Michael McFaul [ru] como embaixador dos EUA na Rússia.
  2. Alterando o plano de fundo histórico na subseção do artigo da Wikipédia sobre a crise de reféns na escola de Beslan para afirmar que os Ossetas deram boas-vindas à influência russa [ru] no século 18.
  3. Adicionando uma frase no artigo da Wikipédia sobre a Guerra do Vietnã para enfatizar a vergonha [ru] da derrota dos Estados Unidos.
  4. Criticando o Greenpeace por alegações “não-científicas” [ru] sobre alimentos geneticamente modificados.
  5. Removendo uma acusação na página da Wikipédia de Andrei Klishas de que sua tese pode ter sido plagiada [ru].

Claro que mesmo estas modificações suspeitas pró-Rússia e anti-Ocidente não provam que o Kremlin está tentando controlar a maior enciclopédia da internet. O autor do ataque contra o embaixador McFaul, por exemplo, eliminou a revisão quase que imediatamente. É inteiramente plausível que estas revisões sejam o trabalho de funcionários públicos agindo por conta própria, com o interesse genuíno de “esclarecer as coisas”.

Sendo a Internet o que é, nós provavelmente nunca saberemos com certeza.

Artigo traduzido por Cristiano Hentges.
Tradução editada por Débora Medeiros como parte do projeto Global Voices Lingua