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Empresa brasileira exporta armas para países árabes

Este post escrito por Bruno Fonseca e Natalia Viana, da Agência Pública, foi originalmente publicado como reportagem de título “Bomba brasileira na pele turca” e faz parte da cobertura especial #IndústriaBrasileiraDeArmas sobre o lobby e a indústria de armas no Brasil. O material será publicado numa série de três artigos no Global Voices Online. Esta é a segunda parte da série.

Confira o primeiro post: Bomba brasileira na pela turca

Condor é a única empresa brasileira que vende armamentos para o governo da Turquia, conforme divulgou sua assessoria de imprensa. Além dos projeteis de longo alcance e da granada “bailarina”, a Condor produz sprays de gás lacrimogêneo e pimenta, bombas de fumaça, balas de borracha e pistolas elétricas incapacitantes, conhecidas como “taser”. Em 2011, a empresa já havia confirmado a venda de armamento para países árabes, embora tenha negado a venda direta para o Bahrein. Entre seus clientes estava o governo dos Emirados Árabes Unidos, que enviou tropas de apoio ao governo baremita.

Em abril deste ano, a Condor assinou mais um contrato com o governo dos Emirados Árabes, no valor de US$ 12 milhões, para o fornecimento de 600 mil unidades de munições não-letais. O acordo foi anunciado durante a Laad, a maior feira de defesa e segurança da América Latina, realizada no Riocentro em abril.

Menos de um mês antes do início dos protestos na Turquia, o governo brasileiro apoiou um encontro de empresas de armamento nacionais com compradores estrangeiros em Istambul. Durante a mostra Internacional de Defesa IDEF 2013, realizada entre 7 e 10 de maio, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil) e a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Abimde) – cujo vice-presidente, Carlos Frederico Queiroz de Aguiar, é presidente da Condor – montaram um vistoso estande no pavilhão do Brasil.

Na parte que coube à Condor, uma vitrine estampava variados projéteis metálicos, granadas e latas de sprays coloridas, iguais àqueles que seriam utilizados poucas semanas depois nas ruas do mesmo país. Sob o nome da empresa, em um letreiro vermelho, também foram expostos a granada “bailarina” e “diversas soluções em defesa” – segundo o jargão da indústria – como 13 tipos de munições incapacitantes de 40 x 46mm para lançadores.

Estande da empresa Condor em pavilhão brasileiro na Turquia em maio de 2013. Alguns dos itens expostos são os mesmos que seriam utilizados contra a população em menos de mês depois/Agência Pública/Sob licença Creative Commons

Estande da empresa Condor em pavilhão brasileiro na Turquia em maio de 2013. Alguns dos itens expostos são os mesmos que seriam utilizados contra a população em menos de mês depois/Agência Pública/Sob licença Creative Commons

Questionada sobre o incentivo à Condor e a outras empresas brasileiras na Turquia, a Apex não respondeu à reportagem da Pública até o momento de publicação. De acordo com o jornal turco Sozcu, o ministro de Comércio Hayati Yazici informou que nos últimos 12 anos, o país importou 628 toneladas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta sobretudo do Brasil e Estados Unidos. O valor das importações chegou a US$ 21 milhões.

Em fevereiro deste ano, a Abimde já havia participado de outra feira de armamento, dessa vez em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Novamente, a Condor participou do evento como a única empresa brasileira produtora de armas não-letais.

Uso de armas não-letais são questionadas no Brasil

O Brasil assinou no último dia 3 de junho o Tratado sobre Comércio de Armas (ATT, em inglês) na Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo o texto, que visa a eliminação do comércio de armas para genocidas, terroristas e crime organizado internacional, “será regulado o comércio de armas convencionais estabelecendo critérios para a exportação e trazendo mais transparência às transferências”. Considerado um grande avanço para um país que evita a transparência quando se trata de venda de armas brasileiras – o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior se nega a divulgar números das empresas que exportam armas, por exemplo – o tratado não tem definições específicas sobre comércio de armas não-letais. Os produtos da Condor são vendidos para mais de 40 países.

Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior se nega a divulgar dados de empresas brasileiras que exportam armas/Agência Pública/Usado sob licença Creative Commons

Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior se nega a divulgar dados de empresas brasileiras que exportam armas/Agência Pública/Usado sob licença Creative Commons