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Brasil: Desinformação Sobre Belo Monte e o “Jornalismo de Trincheira”

Este artigo faz parte da nossa cobertura especial Dossiê Belo Monte.

Muitas informações são divulgadas, diária e mundialmente, acerca dos conflitos que envolvem a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Ao mesmo tempo, não se sabe quem realmente ouviu a opinião e os interesses dos ribeirinhos, caboclos e indígenas quanto a essa obra faraônica na Amazônia.

Para Verena Glass, jornalista e coordenadora de comunicação do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, “Belo Monte não é uma questão apenas dos brasileiros, na medida em que ela mexe com violações de direitos humanos”.

Em abril de 2011, após várias comunidades tradicionais encaminharem denúncias à Organização dos Estados Americanos (OEA), a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) pediu a suspensão da obra na Bacia do Rio Xingu a fim de garantir os direitos dos índios. A partir de então, a imprensa passou a mostrar preocupação na cobertura dos acontecimentos em Belo Monte.

Manifestantes contra usina de Belo Monte, Altamira. Foto de K. L. Hoffmann copyright Demotix (19 de Agosto, 2011)

Manifestantes contra usina de Belo Monte, Altamira. Foto de K. L. Hoffmann copyright Demotix (19 de Agosto, 2011)

Decorrido mais de um ano desse pedido, o relatório final do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a situação do Brasil, apresentado no dia 30 de maio em Genebra, enumera os efeitos das grandes obras para a remoção forçada das populações e a necessidade de melhorar a proteção de povos indígenas e quilombolas como duas das cinco preocupações que foram destacadas pelos países participantes. Nesse cenário, Glass afirma que a imprensa internacional cobre os acontecimentos em Belo Monte de modo mais eficaz que a nacional e promove discussões mais profundas, capazes de chegar à ONU.

Iniciativas contra o “maniqueísmo” e preguiça jornalística

A jornalista conta também que fenômenos da mídia representam uma maior mobilização e conscientização em relação a Belo Monte. Exemplo dessa mobilização foi a do cantor Sting, fundador da Rainforest Foundation [en], ONG que defende os povos indígenas. A antropóloga e economista Betty Mindlin considera:

O aumento dos protestos pelas redes sociais contra as obras no Pará me alegram muito e é importante que grandes nomes estejam participando das discussões da Amazônia.

Para ela, a mídia tem grande responsabilidade na formação da opinião pública, mas a educação da população brasileira também deve estar voltada para as questões sociais e ambientais de Belo Monte. Mindlin acredita na viabilidade do desenvolvimento econômico aliado à justiça social, mas para isso os movimentos sociais devem ter uma atuação forte sobretudo no Brasil e despertar o interesse de estudantes. “Essa visão crítica tem que existir desde cedo”, enfatiza a antropóloga.

Cerca de 150 famílias de regiões que vão ser inundadas pela construção da usina foram despejadas. Foto de K. L. Hoffmann copyright Demotix (17/06/2012)

Cerca de 150 famílias de regiões que vão ser inundadas pela construção da usina foram despejadas. Foto de K. L. Hoffmann copyright Demotix (17/06/2012)

De acordo com Glass, é fato que ainda existem poucas informações precisas e profundas em relação aos indivíduos que serão atingidos pelo projeto do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ela considera que as distorções e a desinformação em relação aos impactos sociais da usina resultam em uma visão maniqueísta sobre as populações tradicionais e ribeirinhas. Já Leonardo Sakamoto, jornalista, doutor em Ciência Política e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), ressalta:

As pessoas das grandes cidades brasileiras olham para a Amazônia como sendo, de um lado, habitada por ‘bons selvagens’, e, de outro, um vazio demográfico,

Segundo Betty Mindlin, vive-se em uma sociedade divida, em que há mitos no bom e no mal sentido, como o de que a Amazônia é desabitada, o que acaba por favorecer as ocupações destrutivas nesse território.

Fotografando o Rio Madeira, Porto Velho, Rondônia. Foto de Guilherme Jófili no Flickr (CC BY 2.0)

Fotografando o Rio Madeira, Porto Velho, Rondônia. Foto de Guilherme Jófili no Flickr (CC BY 2.0)

Por outro lado, Leonardo Sakamoto afirma que ainda há, hoje, muita paixão em defesa dos direitos dos povos, sobretudo dos indígenas, e muitos se esquecem da submissão dessas pessoas ao capital. “Esses indivíduos são de carne e osso, têm interesses”, enfatiza o jornalista, referindo-se às promessas de recompensas que a empresa responsável pelas obras de Belo Monte, a Norte Energia, faz à população. Dessa forma, para Sakamoto, ter uma abordagem maniqueísta é mais fácil, na medida em que não exige reflexão e boa apuração por parte dos jornalistas:

O jornalista é fruto do que ele vive e por isso reproduzimos os mesmos erros de cobertura do passado.

Tanto para Sakamoto, quanto para Glass, a imprensa deve mostrar que o que está em jogo na região não é o bem contra o mal. “O que está lá não é tudo de bom”, diz Sakamoto. Para ambos, a garantia de alternativas para Belo Monte deve ser feita a partir do discurso crítico e adaptado à realidade de cada um, e não à facilidade de se produzir uma matéria superficial e pontual, como ocorre em muitos veículos da grande mídia.

Belo Monte enquanto ponta de lança

Vista aérea da usina hidrelétrica (UHE) Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia. Foto de Programa de Aceleração do Crescimento PAC no Flickr (CC BY-NC-SA 2.0)

Vista aérea da usina hidrelétrica (UHE) Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia. Foto de Programa de Aceleração do Crescimento PAC no Flickr (CC BY-NC-SA 2.0)

A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte segue o modelo energético do governo da presidente Dilma Rousseff e custará cerca de R$ 30 bilhões para os cofres públicos – um dos maiores investimentos da história do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O PAC também inclui as usinas no rio Madeira, Jirau e Santo Antônio, estando esta com as suas duas turbinas em operação há dois meses. Enquanto isso, com orçamento duas vezes maior à Santo Antônio, Belo Monte pode ser a ponta de lança para o planejamento de outras obras.

A jornalista do Movimento Xingu Vivo Para Sempre acrescenta:

Dependendo da resistência em Belo Monte, o governo vai pensar se vale a pena construir em outros lugares.

A cobertura da imprensa em relação às hidrelétricas também é questionada pelo jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto. Em seu blog Cartas da Amazônia, do portal Yahoo Notícias, ele ressalta que a atenção da mídia e da opinião pública brasileira é levada ao paroxismo antes que dela possa resultar uma ação:

Quando o momento de intervir se apresenta, está desatenta, já perdeu o interesse, passou para outro item da agenda.

Ele considera que, ao invés de centrar o foco apenas na questão de Belo Monte, a imprensa deveria acompanhar a hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia, que está em funcionamento há quase dois meses. E pontua:

Uma vez tornadas prontas e acabadas, os que a vinham acompanhando partem para outro front.

Ainda não se sabe, assim, se os objetivos dos recentes protestos contra Belo Monte são resultados práticos ou apenas a defesa de uma causa que em pouco tempo desaparecerá. A superficialidade e as distorções da imprensa brasileira só aumentam essas incertezas, cabendo ao “jornalismo de trincheira” – defendido por Sakamoto – aprofundar o olhar para os cotidianos e reais interesses dos amazônidas.

Este artigo foi publicado originalmente no blog de Priscila Kesselring, no âmbito do Projeto Repórter do Futuro – um curso de complementação universitária para estudantes de jornalismo que pretende debater questões sobre a Amazônia e os diversos conflitos a ela relacionados.

Este artigo faz parte da nossa cobertura especial Dossiê Belo Monte.

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