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Brasil: Escândalo Sexual no Big Brother Desperta Debate sobre Machismo

Aconteceu na madrugada do passado dia 14 de janeiro, no programa com maior audiência do Brasil, o Big Brother (BBB): “um estupro transmitido ao vivo, sem que nada fosse feito”. O relato é de Alê, uma blogueira feminista, que se revoltou com a inoperância da maior rede do País, TV Globo, enquanto assistia o acontecimento. Com ela, milhares de outros internautas manifestaram a sua indignação.

Após participar da festa de sábado à noite, a concorrente do BBB Monique Amin, estudante de 23 anos, se dirigiu a seu quarto. Como havia consumido bebidas alcóolicas – cujo consumo é estimulado pela “própria Globo (…) em doses cavalares” -, Monique se deitou na cama, evidentemente mostrando embriaguez. O modelo Daniel Echaniz, de 31 anos, acompanhou Monique e deitou-se com ela na cama. Momentos depois, ele aparece fazendo movimentos sexuais com ela. Contudo, como o próprio programa admitiu, Monique estava desacordada – estando, assim, impossibilitada de consentir qualquer ato sexual.

A blogueira Leticia Fernandez compartilhou a tela de Notícias que a versão paga do BBB exibiu no momento:

Está rolando o clima entre Daniel e Monique debaixo do edredom. Ele se mexe, parece acariciar a sister, mas a loira não se move.

O vídeo do fato, como esperado, ficou disponível na internet por pouco tempo. Os vídeos no YouTube foram removidos “por violar a política do YouTube sobre conteúdo de nudez ou sexo” (sic).

“O amor é lindo”, o machismo não

O caso não teve repercussão imediata  na televisão, com exceção do comentário do apresentador Pedro Bial, que disse – após exibição de um vídeo apontado como manipulado por diversos usuários do twitter para diminuir o impacto da situaçãoque “o amor é lindo”. A repercussão do caso na internet foi no entanto inversalmente proporcional à da TV. Em blogs, portais jornalísticos, twitter e facebook, o assunto era o mesmo.

No Twitter muitos diziam que “teria sido uma armação para aumentar a audiência”, conforme comentou a blogueira Rosangela Basso.

Ana Marques, conhecida como Morango, ex-participante do programa criticou a manipulação  do caso afirmando que se sentia, ela própria, estuprada:

Esperei ouvir de Bial, jornalista e pai de uma filha que tem a idade de Monique, um manifesto de repúdio à atitude de Daniel que servisse de exemplo. Também esperei do “BBB” uma edição minimamente transparente e depois, um posicionamento. Mas foi o contrário.

Se a opinião sobre o abuso sexual no BBB foi quase unânime nas redes sociais, também houve internautas que viram o caso num outro prisma.

"Machismo Mata", Marcha das Vadias, Brasilia 2011. Foto de Bianca Cardoso no Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

"Machismo Mata", Marcha das Vadias, Brasilia 2011. Foto de Bianca Cardoso no Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

A jornalista Sara Martinez (@sarafcmartinez) lamentou a multiplicação de comentários como “tava bêbada / mereceu / é vadia / o cara é preto, só podia dar nisso”. Enquanto vários internautas partilhavam fotos de Marchas das Vadias no Brasil, a jornalista e escritora Nina Lemos, chocada com a declaração de Pedro Bial, resumiu o dia a “cinismo e machismo”:

Chocante é (…) também o machismo que correu solto na internet o dia inteiro ao se falar do caso.  “Quem bebe além da conta não tem do que reclamar no dia seguinte. Se quer respeito, aprende a beber”, escreveu um blogueiro com milhares de seguidores.

Mais do que um acontecimento em um reality show, o fato ocorrido entre Daniel e Monique levanta importantes questões relacionadas com comportamento e educação sexual no Brasil.

Alex Castro, do blog Papo de Homem escreveu um artigo com base na “seguinte regra: em caso de dúvida, não estupre”:

Estamos há séculos ensinando as meninas como se vestir e como agir – para a segurança delas, claro! Mas talvez fosse a hora de ensinar os meninos como não-estuprar. (…) entre esses pais que controlam as saias das filhas com tanta ênfase e afico, quantos já usaram a MESMA ênfase e o mesmo afinco para controlar os hormônios e os impulsos dos filhos? Para ter uma conversa franca e aberta sobre estupro e escolha?

Em poucas horas seu artigo reuniu “3 mil likes no FB, 850 RTs (retweets), 160 comentários, e foi lido 80 mil vezes”.

Na mesma linha de que “não são as mulheres que precisam aprender a evitar e se prevenir contra estupros, são os homens que precisam aprender que não podem estuprar”, o blog coletivo Biscate Social Club ampliou o debate sobre o estupro afirmando:

Estupro não é sexo. Estupro não é uma vontade incontrolável de dar prazer à outra pessoa mesmo que ela não saiba que quer muito isso. Estupro não é um favor, não é um acidente, não é uma empolgação. Estupro é uma violência que decorre de uma relação de poder. No estupro, aproveita-se da vulnerabilidade do outro.

Aplicando a lei a um «reality show»

Conforme escreveu a jornalista Natalia Mendes, num especial para o blog Nota de Rodapé, só “depois da mobilização nas redes sociais e a hashtag #DanielExpulso chegar em primeiro lugar dos Trending Topics do Twitter” é que a direção do programa tomou ação.

Foi só na edição de segunda-feira, 16 de janeiro, que a Rede Globo resolveu se pronunciar. Pedro Bial, não citando especificamente o que aconteceu, disse que o participante Daniel havia infringido as regras do programa e, por isso, tinha sido expulso. Já o Defensor Público Federal Francisco tinha afirmado no Twitter que era o dever da Globo fazê-lo, reforçando o uso do artigo 215 do Código Penal que tratado estupro de vulnerável explicando “que não depende da vítima o início da ação”, pois a ação seria presumida.

Maíra Mano em seu blog explica porque o ato pode ser considerado crime:

Segundo o artigo 213 da lei 12.015, de 2009, é estupro “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. (…) também é preciso mencionar o artigo 215, que fala sobre violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável na modalidade em que a vítima está impossibilitada, por outro meio, de oferecer resistência.

"Você não pode tocar sem o meu consentimento". Foto de Bianca Cardoso no Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

"Você não pode tocar sem o meu consentimento". Foto de Bianca Cardoso no Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

Já na terça-feira, 17 de janeiro, o apresentador mais uma vez falou sobre o caso no programa, e ratificou a versão da TV Globo de que ambos – Daniel e Monique – estavam conscientes na noite de sábado, mesmo apesar de Monique “possivelmente sofrendo de amnésia alcoólica”, ter afirmado antes não se lembrar do ocorrido. A própria Globo noticiou no dia 17 que ambos os “brothers” negaram o estupro em declarações à polícia.

Não seria a primeira vez que um caso de abuso sexual aconteceria no reality show Big Brother. O portal Operamundi nos conta sobre um caso semelhante na África do Sul, no qual embora “muitas pessoas exigiam que o estudante respondesse legalmente por seus atos”:

os dois seguiram no programa até o final. Após votação popular, Richard ganhou o BB da África do Sul e faturou o grande prêmio — Ofunneka ficou em segundo.

Ana flávia Ramos, do blog Tab na Rede deixa a pergunta no ar:

O histórico de barbaridades no BBB já não é novo, mas quais serão os limites do programa após um suposto estupro em cadeia nacional? Como será interpretada pelas autoridades públicas e pelos telespectadores a omissão da Globo diante do caso?

Colaborou neste post Raphael Tsavkko Garcia

9 comentários

  • conceição alves

    acho uma pouca vergonha desse rapaz que aproveitou-se da moça embriagada para fazer sexo ele e um marginal merece ser preso sim.

  • valrilene

    Só pudia dar nisso um programa que não tem nada de valor maral. tudo vale por dinheiro, as pessoas vivem semi nuas a maioria do tempo, confinado sem fim moral. Não que nada justifique o que pode ter acontecido. Mas a televisão brasileira tem muita coisa indecente que chega nas nossas casas para nossa infelicidade.

  • lena

    quanta prostituição em pleno horãrio nobre.
    onde chegamos com o nível cultural

  • Ela quiz da e nao aguento agora ferro a vida do menino

  • Assima Villela

    Sou professora aposentada e acho que ser livre é muito bom, melhor do que fomos no passado, porem esta liberdade exarcebada esta nos prejudicando principalmente nos mulheres , que seremos chamada de vagabunda, piranhas e etc, e os homens estao nos usando como peça descartaveis, nao sou nenhuma santa, mas tudo tem limite inclusive nossa liberdade, bvjs.

  • CLAUDIO RENATO ZAMORA COSTA

    Acho em primeiro lugar que um programa deste nível, (big brother), só existe porque tem quem goste de consumir lixo, e sinte prazer nas imagens de corpos sarados e mentes vázias, ainda por cima valorizam polemicas plantadas para medir índices de audiências, não obstante qualquer tipo de crime deverá ser punido inclusive a manipulação da opinião pública dos telespectadores deste horrivel “espetáculo”.

  • josenilson lima

    Os dois estavam embreagados, mais algumas horas atras ela e ele estavam lucido do que estavam fazendo, se beijando e se pegando, então se os dois foram pro quarto, então o esperado era sexo. 90% das mulheres e homens não querem apenas beija se o melhor de tudo e sexo

  • pimbo

    é uma pena que alguém ainda dÊ ibope para esse tipo de programa ,pois acho que quem dá ibope para isso também está vivendo confinado ,ñ tem liberdade de se expressar ,ou ñ sabe se expressar e aí vira telespectador assíduo de um programa que ñ acrescenta nada .

  • Edgar Rocha

    Estou em abstinência deste programa há uns 7 ou 8 anos (orgulho!). Não sei o nome de ninguém, nem a cara de nenhum deles. No começo era curioso, por causa da novidade. Até o programa do Jan Willis e da Grazi (era engraçado!). Mas a coisa foi piorando, piorando… Parece até que a intenção era redirecionar para um público alvo mais hedonista, mais enquadrado no tipo de sociedade cada vez mais dependente do culto à imagem, do poder de consumo, do egocentrismo… Aquilo não reflete outra coisa. Acho que a intenção é mesmo impor valores que desagregam as relações sociais de uma maneira tal que não se possa relacionar-se com o outro sem vê-lo como um concorrente (e desleal). Felizmente, a simples possibilidade de um estupro gerou uma indignação capaz de impor aos senhores do BBB (as vozes dos bastidores) algum limite à compulsão escroque que parece tomá-los quando sobem os números no IBOPE. Que bom. Nem tudo está perdido. Quem sabe uma overdose de sacanagem possa criar alguma imunidade no público em geral.

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