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Brasil: Desocupação Fortalece Movimento Estudantil Contra Militarização da USP

Assembléia dos estudantes em 08/11, foto de Stefano Biagioni Wrobleski , no Facebook

Na manhã do dia 8 de novembro, a Polícia Militar (PM) desocupou à força o prédio da Reitoria da Universidade de São Paulo (USP), que tinha sido tomado por cerca de 70 estudantes desde o dia 27 de outubro, quando três estudantes foram presos por estarem fumando maconha nas imediações do prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), conforme reportado pelo Global Voices. A ação envolveu cerca de 400 policiais da Tropa de Choque da PM, guarnições do Grupo de Operações Especiais (GOE) e a Cavalaria da PM.

A jornalista Shayene Metri, do Jornal do Campus, da USP, fez a cobertura:

Muitos PMs chegaram, saindo de carros, motos, ônibus, caminhões. Apareceram helicópteros e cavalaria. Nem eu e, acredito, nem a maior parte dos presentes já tinham visto tanto policial em ação.
[…]
Os estudantes que enfrentavam de verdade os policiais que faziam a ‘corrente’ em torno da Reitoria eram levados para dentro. Em questões de segundos, um estudante sumia da minha frente e era levado pra dentro do cerco.

http://youtu.be/zP3iKI9uiWs

O usuário do Youtube ArmasMenosLetais dispnibilizou esse vídeo e outros mais.

Os 70 estudantes foram levados à 91a. delegacia da Polícia Civil de São Paulo para prestar depoimentos sobre a ocupação da reitoria da USP, e apenas liberados depois de pagar fiança (esta paga por um sindicato de trabalhadores da USP), informou o jornalista Paulo Moreira Leite, e acrescentou:

Lá fora, muitos estudantes diziam — com convicção — que seu movimento expressa a alvorada de um levante popular, exemplo do que acontece com a insurreição estudantil no Chile, a revolta dos indignados na Espanha, a ocupação de Wall Street e tudo mais. Na sala com os delegados, ouvia-se argumentos típicos da polícia política do regime miltar.

Legitimidade do Movimento Estudantil

Batalhão de Choque da PM, com policiais sem identificação, reunido em frente à reitoria. Foto do Coletivo Passa Palavra, Copyleft

Num comunicado lançado após a desocupação, os estudantes da USP esclarecem que “o incidente do dia 27/10/11, quando 3 alunos foram pegos portando maconha, não foi o ponto de partida das reivindicações estudantis. Aquele foi o estopim para insatisfações já existentes” com o modelo de segurança da USP e a falta de transparência da Reitoria. Mais sobre as reivindicações e protestos contra a presença da PM na USP pode ser lido no blog do jornalista Leonardo Sakamoto, que entrevistou diretores do Directório Central de Estudantes da USP.

Os estudantes se tem organizado em assembleias, e no dia 7 de novembro eram cerca de mil que deliberavam sobre a continudade da ação ou uma mudança de tática. Apesar do voto pela desocupação ter vencido por estreita margem, alguns estudantes mais radicais resolveram manter a ocupação. Sabendo que a ocupação era considerada ilegal pela justiça, os estudantes em peso se recusavam aceitar uma intervenção policial violenta.

O blogueiro Eduardo Guimarães comenta que não importa os métodos ou a legitimidade da ocupação:

Não dá para criticar os estudantes da USP. Pouco importa se o método que escolheram para protestar contra o aumento do efetivo da PM no campus foi equivocado. Quando o governo monta uma operação de guerra com um contingente policial desse tamanho enquanto a cidade pena nas mãos dos bandidos, tudo mais perde o sentido.

Universidade sob militarização

Cartoon by Carlos Latuff. Under CC>.

A presença da PM no campus resulta de um “convênio da USP com a PM, firmado após o assassinato em maio do jovem Felipe Ramos de Paiva”, explica Daniel Lopes, editor do blog Amálgama,  indicando que isso “fez com que a criminalidade no local caísse drasticamente“. No entanto, os estudantes vem denunciando esta presença, que consideram uma provocação por parte do contestado reitor, João Grandino Rodas, considerado ilegítimo por não ter sido eleito, e sim indicado pelo então governador, José Serra. Para o jornalista Guilherme Scalzili com os últimos acontecimentos “o modelo de gestão universitária imposto pelo governo estadual perdeu os últimos resquícios de legitimidade”.

O cartunista Carlos Latuff explica:

Dado o histórico autoritário do atual reitor da USP, não é dificil perceber que o real interesse de Rodas está longe de ser a segurança no campus e sim a instalação de um aparato de repressão para não só impor as políticas do governador Geraldo Alckmin, como também reprimir movimentos sociais, nesse caso em particular, a organização de estudantes, professores e funcionários da universidade.

O estudante e ativista Hugo Albuquerque critica:

Quando falamos em militarização do campus, não estamos, de modo algum, exagerando. O que ocorre é o  contrário: estamos normalmente esquecidos que, embora o Brasil tenha se tornado uma democracia à moda ocidental – com todas as suas boas-intenções e bom-mocismos -, ainda temos como principal força de segurança policial um corpo militar com poder sobre a população civil em tempos de paz. Pior do que isso, só mesmo a decisão política de colocar tal força para dentro de uma instituição de ensino – ou, quem sabe, fazer isso e esperar que não ocorra nenhum incidente.

Estudantes, como Yacov Fidélis, em texto publicado pela blogueira Conceição Oliveira, reclamaram da demonização de suas ações feita pela mídia e da reação de parte da sociedade, que:

passou a vender a imagem de que os estudantes rebeldes estavam dispostos a quebrar tudo e deixar a vida de seus colegas à mercê de bandidos só para poderem fumar maconha em paz.

O professor e blogueiro Chico Bicudo foi mais fundo, selecionando uma série de frases contra estudantes que ouviu e criticando o uso de “adjetivos” e frases feitas contra os estudantes:

(…) os estudantes da USP são “maconheiros e mimados”. O adjetivo é o argumento de quem não tem argumentos. Reduz o mundo complexo a uma marca – repetida exaustivamente, transforma-se em rótulo, que não desgruda mais. Funciona para desqualificar, para agredir, para achincalhar, para impor falsas verdades. Jamais para debater. Porque, para tanto, é preciso estar disposto a ouvir, a descobrir, a mergulhar, a pensar – e não só a reproduzir qualidades ou defeitos colhidos aos quatro cantos.

Cartum de Carlos Latuff. Licença Creative commons.

E o jornalista Marcelo Rubens Paiva finaliza:

Venceram a generalização, o debate político raso e o Estado maniqueísta.

Perderam a dialética e os movimentos sociais.

Perdeu a DEMOCRACIA [o diálogo].

Sim, a violência urbana pede a PM no campus universitário. A maioria estudantil, idem.

Mas não esta PM mal treinada, viciada em extorsão a maconheiros, pragmática.

Após todos este eventos, os estudantes da USP, reunidos em assembléia, resolveram convocar uma greve, que pode ser seguida por professores e funcionários da instituição. Estudantes e funcionários da UNICAMP  demonstraram sua solidariedade ao movimento, assim como os estudantes da UNESP e greves estudantis ameaçam se espalhar por outras universidades de São Paulo.

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