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Brasil: Churrascão da Gente Diferenciada Agita Higienópolis

Uma nova modalidade de protesto ganha as redes no Brasil, promovido por uma nova classe social: a “gente diferenciada”, que participou de um churrascão em resposta à desistência do governo de São Paulo de construir uma estação de metrô em Higienópolis, em decorrência de um abaixo assinado de 3.500 moradores do bairro de classe alta da capital paulistana.

A notícia provocou indignação nos paulistanos e o caso foi amplamente discutido no Twitter, chegando aos “trending topics” com as hashtags #Higienopolis e #GenteDiferenciada. O termo espalhou-se na rede depois da publicação de uma entrevista sugerindo que o metrô acarretaria a chegada de “drogados, mendigos, uma gente diferenciada, promovendo a degradação de suas ruas sagradas e aumentando assim o número de ocorrências policiais”.

Um churrasco popular em protesto contra a elite do bairro foi rapidamente organizado no Facebook, e em dois dias mais de 55 mil pessoas confirmaram participação:

"Churrascão São Paulo" - Foto (transcrição à esquerda) partilhados por Mark Hillary no Flickr, sob uma licença Creative Commons 2.0 (by)

"Churrascão São Paulo" – Foto (transcrição à esquerda) partilhados por Mark Hillary no Flickr, sob uma licença Creative Commons 2.0 (by)

Churrasco da gente diferenciada
Quando: Sábado 14 de Maio
Onde: Em frente ao Shopping de Higienópolis
Horário: 14h
Traje: Diferenciado
*Leve cadeiras de praia, cachaça, farofa, som portátil e o que você quisar. Mulatas bezuntadas de óleo serão bem-vindas.
Na imagem, José Serra, ex-governador do estado de São Paulo, e ex-candidato à presidência do país, pelo partido de direita, Social Democracia Brasileira (PSDB), num churrasco.

Na legenda da foto, o questionamento sobre a decisão do governo:

“Prevaleceu o bom senso”, declarou o presidente da entidade Defenda Higienópolis, o empresário Pedro Ivanow.

Como nosso bom senso não é o forte, promoveremos agora um churrascão em frente ao shopping Higienópolis para mostrar que os ricos não chegam aos pobres, mas os pobres sim, facilmente chegam aos ricos.

Leve farofa, carne de gato, cachorro, papagaio, som portátil, carro tunado e tudo o que sua consciência social permitir. Afinal, a rua é pública e o Higienópolis não está separado por muros.

Segundo Danilo Saraíva, criador do evento no Facebook, o churrasco começou como uma brincadeira contra o elitismo abusivo, mas acabou representando “a resposta de uma população que quer dizer basta”:

Antes de mais nada: não houve organização. Outra afirmação que causa contestação aos odiadores de plantão. Como é possível que um evento tão organizado e pacífico tenha sido comandado apenas pela iniciativa do povo, que não tem nome?

Eu não faço “pobrismos” – ainda que eu questione este termo -, nem acredito que aqueles presentes o fazem. O Churrascão serviu para mostrar que a população paulista quer dizer basta. Basta ao elitismo, basta de trânsito, basta de violência, basta de antisemitismo, basta de homofobia, basta de achar que os pobres (ou os que se acham pobres) serão menos ouvidos do que uma elite ensurdecedora.

Maria Frô blogou assim que chegou em casa:

Manifestação irreverente, criativa, com a cara de uma parcela da juventude paulistana de classe média: bem vestidos, bem-humorados e acima de tudo bem informados e conscientes de que para a cidade melhorar para todos, todos têm de se envolver e lutar por boas causas. […]

Encontrei também muitos moradores do bairro Higienópolis que têm consciência que a cidade é de todos. Conversei com vários deles, uma senhora que vive há 35 anos em Higienópolis, dona Marivone, 80 anos, disse que nunca viu nada igual no bairro e ela estava lá participando da manifestação e se divertindo com a moçada. […]

Já participei de muitas manifestações em algumas fui queimada com gás de pimenta. Mas em Higienópolis não houve qualquer violência e vi jovens questionando os policiais de modo bem incisivo que em uma manifestação da periferia os moradores não ousariam fazer. Mas os policiais permaneceram na maior calma, educadíssimos, como gostaríamos de ver toda a polícia.

O evento foi também transmitido online ao vivo pelo cidadão repórter Thiago de Araújo:

http://qik.com/video/40096164

Uma questão de classe – e mobilidade

Quando só os cidadãos ricos e influentes são ouvidos, fica clara a assimetria da democracia na cidade.

Apontou a jornalista Thalita Pires, no seu blog Desafios Urbanos, com esperança de que a reação contrária à decisão de cancelamento da construção da estação fizesse “um contraponto aos desejos dos moradores locais”. Com a adesão massiva ao evento no Facebook, a reação dos governantes não demorou:

Com o Churrascão, conseguimos também que o Ministério Público investigasse as intenções por trás do cancelamento da estação de metrô na Avenida Angélica e até um pronunciamento oficial do governador Geraldo Alckmin.

Imagem do perfil Gente Diferenciada no Facebook - a hipotética estação de metrô

Imagem do perfil Gente Diferenciada no Facebook – a hipotética estação de metrô

A questão da mobilidade dentro da megalópole foi levantada na página do churrascão no Facebook:

O metrô, hoje, não atende a necessidade de quem mora nesta cidade. O transporte público é risível. Ônibus lotados a tarifas absurdas, veículos em situação precária, falta de corredores, atrasos em obras, acidentes, são apenas algumas das situações que tornam São Paulo ainda mais caótica do que ela deveria ser, graças ao seu número de habitantes.

No blog Imprença, o abaixo-assinado foi comparado ao projeto o Movimento Passe Livre, que reuniu cerca de 3 mil pessoas em protestos pela redução do preço da passagem de ônibus em São Paulo levados a cabo por estudantes, que chegaram a ser atacados pela polícia, conforme o Global Voices reportou no início do ano:

O resultado? Muitas passeatas, uma audiência pública marcada e desmarcada, prisões, etc. Diminuiu o preço? Não. […] Aí o pessoal do bairro de Higienópolis {{que sim, vem de Higiene}} reuniu 3 500 ASSINATURAS, sem ninguém sair de casa… o governador resolveu fazer o quê?! CANCELOU a estação de metrô do local.

Urbanista e Relatora da ONU sobre Habitação, Raquel Rolnik opinou no seu blog:

a questão fundamental nisso tudo é a forma como se dá todo o processo de decisão sobre as novas linhas e estações: estas vão sendo anunciadas e desanunciadas sem nenhum planejamento estável – aliado a uma estratégia urbanística pactuada coletivamente na cidade – e, portanto, ao sabor das pressões dos interesses que conseguem ter acesso à mesa de decisão.

Churrasco ambulante. Foto Luís Eduardo Catenacci, disponível no Flickr (CC BY-NC-SA 2.0)

Churrasco ambulante. Foto Luís Eduardo Catenacci, disponível no Flickr (CC BY-NC-SA 2.0)

6 comentários

  • Gabriel

    E se fossem construir um Singupura no seu bairro? O que você pensaria sobre isso?

    • Casimiro

      Pois é… em meu bairro já há um Singapura. E eu fico frustrado em pensar que minha geração não conseguiu, apesar de toda a conversa mole de “luta contra a ditadura” (que só mudou de cara, mas não de donos), criar um país mais justo para seus habitantes mais pobres.

  • cleide silva ferreira

    Adorei a manifestação !!!
    É tão bom saber que existem pessoas que se sensibilizam por uma boa causa,
    parabéns para todos que estiveram nessa luta !
    Afinal precisamos de mais estações de metrô e principalmente saber respeitar todas as classes sociais e com todas as diferenças.Humano é sempre humano seja
    lá onde for.
    Estou orgulhosa de ser paulistana.
    Cleide.

  • Edgar Rocha

    Legal que a garotada tenha decidido se manifestar quanto à discriminação social e o servilismo do governo a um setor específico da população paulistana . Sou do tempo em que toda manifestação sempre era motivada por lideranças, que depois cooptavam os bônus pra autopromoção ou coisa do tipo (cara-pintada, lembram?). A maioria das pessoas é cética em função desse tipo de coisa. Parece que não foi o caso desta manifestação. A internet tem se mostrado um excelente fator aglutinador, que funciona a despeito de qualquer condução ideológica, partidária ou coisa do tipo. Parece até o que acontece no Oriente médio atualmente. Quem sabe a liberdade de expressão de fato, retome seu fôlego daqui pra frente… Parabéns aos manifestantes!

  • Na minha opinião, que talvez pareça um pouco dura a alguns, essa manifestação serviu mais para que filhinhos de papai pudessem brincar de che guevara… Eu particularmente, com toda a sinceridade que me caracteriza, não sou favorável a esse tipo de movimento, porque inclusive banaliza, vulgariza, amesquinha o que deveria ser uma verdadeira luta social. Me parece que o evento todo foi acomodado nos moldes da agenda de um grupo de burgueses, como se fosse mais um programinha de sábado qualquer, uma festinha de temática socialista: “venham, tragam os comes e bebes, e não se esqueçam da fantasia de combatente do povo”
    mais das minhas impressões sobre esse evento no meu blog:
    destrurir.blogspot.com/2011/05/churrasco-dos-assemelhados-registros.html
    um texto tratando melhor do assunto se encontra no post anterior

  • Edgar Rocha

    Joaquim,
    Respeito muito este teu ponto de vista. Estudei na Faculdade de História da USP e sei o que você quer dizer. Mas, na esperança de que essa geração tenha evoluído em relação à minha, ainda acho importante que tenha surgido de forma aparentemente espontânea esta manifestação. Muita gente que não é ligada a partido, a lideranças, ideologias, como é o meu caso, vê na internet uma possibilidade de manifestação autônoma, capaz de promover aproximação entre pessoas que realmente PENSAM de forma semelhante quanto a um tema tão poderoso quanto a discriminação social (isso diz respeito a todos nós). Militantes de plantão, porra-locas, costumam ter tanta sede de poder que evitam tais movimentos se estes não lhes der espaço para exercer as prerrogativas de seu ego inflado. Não fui ao churrasco, mas apoio, enquanto iniciativa desta natureza. É bom darmos uma chance. Quem tem mais de 30 anda descrente graças a estes “bandeiristas” que cooptam tudo a favor de sua imagem ou do grupelho ao qual pertencem. Sinto que, esta forma de aglutinação (a internet), possa ser um contraponto. Vamos dar uma chance. O Brasil precisa retomar a prática de manifestar-se, de organizar-se a despeito de lideranças oportunistas. Era assim, no começo. Mas, depois que os movimentos viraram a mina de ouro de uma esquerda ávida por puro poder, a coisa desvirtuou. Foi minha geração e a anterior que fizeram isso. Não a dessa garotada que está chegando.

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