Está vendo todos esses idiomas acima? Nós traduzimos os artigos do Global Voices para tornar a mídia cidadã acessível para várias partes do mundo.

Saiba mais sobre Tradução do projeto Língua  »

Museu sobre a escravatura inaugurado no Algarve “para que não se apague a memória”

Ossadas. Cadáver de Mãe com recém-nascido entre braços.

Ossadas de escravos do século XV e XVII encontradas em Lagos. Foto: Museu AfroDigital – Portugal

Em 2009, durante as escavações para a construção de um parque automóvel, no Vale da Gafaria, em Lagos, a equipa de arqueólogos que estava de serviço encontrou várias ossadas contendo uma centena e meia de esqueletos ali sepultados. O achado deu origem ao Núcleo Museológico Rota da Escravatura, que foi inaugurado no início do mês de junho (06.06).

Os 155 esqueletos encontrados são de dois períodos distintos. Os mais antigos do século XV e os mais recentes do século XVII. O que os arqueólogos encontraram “é tão raro” que, na altura, se procedeu:

A assinatura de um protocolo de colaboração entre a Câmara Municipal de Lagos e o Comité Português do Projeto UNESCO A Rota do Escravo, com vista à criação de um Museu da Escravatura e à salvaguarda e memorialização do sítio. Nesse protocolo, previa-se que, no local hoje ajardinado, ficasse sinalizado o achamento através de um Memorial e de uma estrutura que permitisse dar a conhecer a realidade ali encontrada.

O referido protocolo acabou por não ser totalmente cumprido mas isso não impediu a inauguração do Núcleo Museológico que acabou por ficar instalado no renovado Edifício da Alfândega – também conhecido por “Mercado de Escravos” – em Lagos.

Inauguração Núcleo Museológico da Rota de Mercado de Escravos

Inauguração Núcleo Museológico da Rota de Mercado de Escravos. Foto: CM-Lagos

Este núcleo museológico de Lagos associou-se ao projeto internacional da UNESCO, “Rota do Escravo“, que tem como objetivo “romper com o silêncio em torno do tema“. Lançado em 1994, por iniciativa do Haiti e de alguns países africanos, este projeto tem provocado significativo impacto e contribuído para o reconhecimento oficial do tráfico de escravos como um crime contra a humanidade. Com comités nacionais em vários países, incluindo Portugal, a organização internacional da “Rota do Escravo” conseguiu instituir o dia 23 de agosto como o Dia Internacional da Memória do Tráfico de Escravos e de sua Abolição e tem levado a cabo diversas apresentações e colóquios sobre o tema para que a memória não se apague.

A Rota do Escravo no mundo e em Portugal

Segundo o historiador norte-americano, Davis Eltis, da Universidade de Emory, em Atlanta:

O tráfico de escravos transatlântico foi o maior deslocamento forçado de pessoas a longa distância ocorrido na história, tendo constituído, até meados do século XIX, o maior manancial demográfico para o repovoamento das Américas após o colapso da população ameríndia.

Eltis estima que entre 1500 e 1840, o período áureo do comércio negreiro transatlântico, cerca de 12 milhões de escravos partiram para as Américas. Enquanto apenas 3,4 milhões de europeus partiram para o mesmo destino, em igual período. A forte demanda por produtos e metais preciosos vindos das Américas e a falta de mão-de-obra, tanto local como de trabalhadores europeus – que não queriam atravessar o atlântico – não era suficiente para dar resposta às exigências dos consumidores na Europa. Fazendo com que o tráfico de escravos e o trabalho humano forçado aumentasse.

Comércio triangular. Fonte: Blogue "Os Descobrimentos Portugueses"

Comércio triangular. Fonte: Blogue “Os Descobrimentos Portugueses

Este trabalho escravo era constituído maioritariamente por Africanos e o comércio negreiro transatlântico integrava duas grandes rotas – do chamado comércio triangular – que ligava a Europa, a África e a América Central e do Sul. Uma das rotas de escravos, a Europeia, foi dominada maioritariamente pelos ingleses e a outra, no Brasil, foi dominada em exclusivo e durante três séculos pelos portugueses:

Os ventos e as correntes também determinaram que os africanos transportados para o Brasil viessem predominantemente de Angola, enquanto o sudeste da África e o golfo do Benim desempenhavam papéis secundários; e que os africanos levados para a América do Norte, o Caribe incluído, viessem principalmente da África Ocidental, em sua maioria dos golfos de Biafra e Benim e da Costa do Ouro. Mas, assim como o Brasil cruzava a fronteira entre os sistemas traficando no golfo do Benim, ingleses, franceses e holandeses também trouxeram alguns escravos do norte de Angola para o Caribe.

Portugal assumiu um papel destacado no tráfico de escravos africanos para as colónias europeias da América e terá sido o responsável pelo início do tráfico atlântico. Embora não o reconhecesse formalmente: 

Tal acusação era motivada pela demora do país em aceitar a abolição, tanto por razões económicas como culturais.

Pelo menos até ao período abolicionista que viria a contribuir para a abolição do tráfico de escravos:

Há 250 anos, em 1761, Portugal foi pioneiro na abolição do tráfico de escravos na metrópole, declarando libertos e forros os escravos que entrassem em Portugal. Foi um primeiro passo para a abolição da escravatura.

Lagos na rota do comércio de escravos

Segundo a crónica de Gomes Eanes de Azurara, “O Descobrimento e conquista da Guiné“:

Em 1444, Lançarote deixa o porto de Lagos e regressa em agosto do mesmo ano com o primeiro grande contingente de escravos: 235 escravos negros que se raptaram nos litorais da Senegâmbia e foram vendidos em leilão na praça pública.

Por isso mesmo, faz todo o sentido a criação deste museu dos escravos nesta cidade algarvia. Lagos não foi apenas um dos grandes centros de apoio económico e militar durante a época dos Descobrimentos portugueses. Foi também a cidade que acolheu o maior mercado de escravos do país. Acredita-se que foi o primeiro mercado de escravos da Europa:

Lagos recebeu desde 1444 carregamentos regulares de escravos e foi aqui que se instalou o provável primeiro mercado de escravos da Europa.