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Agricultor jamaicano rastafári cozinha comida ‘I-tal’ na internet

Ras Mokko, Ital chef extraordinare of the cooking show 'Ras Kitchen'. All photos in this post are courtesy the show and used with permission; photo credits to: Eric Leece, Mike Zakrzewski, Matt Viveen and Matt Pancer.

Ras Mokko, extraordinário chef de cozinha I-tal, apresenta o ‘cozinha rasta’. Todas as fotos neste post são cortesia do programa e a sua publicação autorizada. Autores: Eric Leece, Mike Zakrzewski, Matt Viveen e Matt Pancer.

Todos os dias, nas profundezas de Blue Mountains, na Jamaica, tem um homem rastafári cozinhando uma refeição – talvez um pouco de arroz e ervilhas, talvez um peixe seco – em uma panela ao ar livre.

Para alguns, ele pode parecer um agricultor pouco convencional, mas a culinária de Ras Mokko segue as normas da velha escola rasta do país — a diferença é que ele tem seu próprio programa de culinária.

A peculiar cabana de cozinha I-tal de Mokko destaca-se porque não há nenhum outro programa/documentário de culinária como esse na TV ou na internet.

Tudo que ele cozinha vem da sua horta orgânica, de uma loja local de produtos naturais ou está apenas a uma caminhada de distância. O criador da Ras Kitchen, uma série de entretenimento misturada com comédia, Matt Pancer, começa o programa com Mokko — e seus impropérios.

Desde 2010, mostram como é cozinhar organicamente, com um toque de aventura!

Afinal, o que é a comida I-tal?

Primeiro de tudo, ela faz parte do movimento rastafári, uma filosofia de vida. Muito mais do que só uma religião rastafári, é uma cultura que também faz parte do grupo Nyabinghi Mansion Rasta.

Muitos pensam que os principais aspectos para ser um rasta são fumar marijuana e comer verduras, mas Mokko come frango e diversos tipos de peixe. Todos seguem a dieta I-tal para elevar a livity, termo empregado no movimento rastafári para energia — a força vital que move todos os seres humanos.

I-tal deriva de vital, o que faz perfeitamente sentido em termos gastronômicos, porque o alimento é necessário para a vida.

O Global Voices conseguiu uma deliciosa chance de entrar na Ras Kitchen e conversar com Matt e Mokko.

Crew Photo, taken by taxi driver Danny — (L-R): Mike Zakrzewski, Matthew Viveen and Matt Pancer in Sunning Hill, Saint Thomas, Jamaica. Photo used with permission.

Foto da equipe tirada pelo taxista Danny — (L-R): Mike Zakrzewski, Matthew Viveen e Matt Pancer em Sunning Hill, Saint Thomas, Jamaica. Foto usada com permissão.

Global Voices (GV): Como surgiu a ideia de criar um programa culinário rastafári/I-tal e por que decidiu se juntar ao Mokko?

Matt Pancer (MP): Growing up I was really into jungle music, dub, reggae, ska…all of those styles of music coming from Jamaica. The music was always infused with Rastafari elements, but I really knew almost nothing about the actual culture. I had been making videos for years and really wanted to create a unique TV show that could have global appeal. I’d been researching about Rastafari and read about the concept of Ital food, and that’s when the idea hit me. A REAL cooking show with a true Rasta cooking Ital food in an old school way.In 2010 I was looking everywhere online to see if I truly had an original idea. I couldn’t find any video online showing this at all. Theres a lot of Jamaican cooking shows, sometimes making Ital dishes, or guys with dreads, but they were all done in nice, clean, indoor, modern kitchens. Eventually, I found a site called ‘Worlds Together Travel Network‘, which connects travellers with cultural travel experiences. You can stay with a Mayan family in Belize or a Bedouin family in Egypt. Sure enough, there was a page about staying with a Roots Rasta family in Jamaica. There was a short clip of a Rasta man making a stew on an open fire…and that man of course was Mokko. It had a phone number…so I called him and asked if he would be open to myself and a friend coming to shoot a cooking show with him for a week. He said ‘Ya Man!’

Matt Pancer (MP): Cresci com as músicas jungle, dub, reggae, ska… todos aqueles estilos musicais que vêm da Jamaica. A música sempre foi influenciada por elementos rastafári, mas na verdade eu quase nada sabia sobre a cultura. Estive gravando vídeos por anos e desejei criar um programa único de TV que pudesse ter interesse global. Pesquisei sobre rastafári e li sobre o conceito da comida I-tal e foi aí que a ideia me bateu. Um programa de cozinha verdadeira com um típico rasta cozinhando I-tal como nos velhos tempos de escola. Em 2010 busquei por toda parte na internet se realmente a minha ideia era original. Não achei nenhum vídeo que apresentasse tudo isso. Existem vários programas culinários jamaicanos que, às vezes, criam pratos I-tal, ou caras de dreads que eram charmosos, limpos, em lugares fechados, com cozinhas modernas. Por fim, achei um site chamado ‘Worlds Together Travel Network‘, que une turistas com experiências culturais de viagem. Você pode estar com uma família maia em Belize ou uma família bedoína no Egito. Claro que tinha uma página sobre estar em uma família rasta na Jamaica. Havia um clipe pequeno de um homem rasta preparando um guisado ao ar livre… e o homem do curso era Mokko. Tinha um telefone… liguei para ele e perguntei se estaria disposto a que eu e um amigo gravassemos um programa culinário com ele por uma semana. Respondeu ‘Claro, cara!’

GV: Alguma vez você já pensou escrever um livro de culinária?

MP:I’d love to do a book with Mokko's recipes. The thing is though, that Mokko cooks from the heart…he doesn’t time anything, measure anything…it’s all done by intuition. So it may be hard to write a book without these details.

MP: Adoraria fazer um livro de receitas do Mokko. Mas o fato é que ele cozinha com o coração… não calcula o tempo para nada, não pesa nada… tudo é feito por intuição. Desse modo, fica difícil escrever um livro sem esses detalhes.

GV: Como seria um dia típico para um viajante que fica em Riverside Cool Cottage de Mokko e na Ras Kitchen?

Mokko Jackson (MJ): Cook and all those things and hike, go all over the place, you know. I will take all my guests there.

Mokko Jackson (MJ): Cozinhar e todas aquelas outras coisas, caminhar, ir para tudo quanto é canto, você sabe. Lá acompanharei todos meus hóspedes.

MP: The accommodations have tripled since the first time I was there in 2010.

MP: Os alojamentos triplicaram desde a primeira vez que estive aqui em 2010.

"Some serious gourmet business at Mokkos...every single time" — in Sunning Hill, Saint Thomas, Jamaica. Photo used with permission.

“Algo importante se cozinha com Mokko… sempre” — em Sunning Hill, Saint Thomas, Jamaica. Foto usada com permissão.

GV: Vocês planejam o que irão cozinhar para o programa?

MP: There are NO plans at all. Mokko is not a big planner. Most mornings we get up at sunrise and just figure things out from there. As a show director/producer, this makes things very difficult, but that’s how he rolls and I have to go with it.

MP: Não existe NENHUM plano. Mokko não é um grande planejador. Na maioria das manhãs, acordamos com o nascer do sol só para decidirmos sobre isso. Como diretor/produtor do programa, isso torna as coisas muito difíceis, mas como ele tem a sua maneira de fazer as coisas, eu o acompanho.

GV: Há quantos anos você cozinha?

MJ: I start to cook when I was about…12 and all around there, you know…as a little youth growing up. [I learned] from my mom [and] I always cooked for her, you know? I always loved the cooking and there's lots of places in Jamaica I go and cook and a lot of guests love it…Portland…everywhere. People call me, to do it for them, even to make Ital, yah know!

MJ: Comecei a cozinhar quando tinha uns… 12 anos por aí, você sabe… um pré-adolescente. [Aprendi] com minha mãe [e] sempre cozinhei para ela, entende? Sempre amei cozinhar e existem vários lugares na Jamaica que vou e cozinho para os hóspedes que amam isso… Portland… qualquer lugar. As pessoas me ligam para fazer isso para elas, inclusive cozinhar o I-tal, ora já sabe!

"On rainy days, the river turns yellow..." Photo courtesy Ras Kitchen, used with permission.

“Nos dias chuvosos o rio torna-se amarelo…” Foto cortesia da Ras Kitchen, usada com permissão.

GV: Fale-nos sobre o processo de filmagem e edição, de trabalhar sob determinadas condições climáticas.

MP: We have been to Jamaica three times to shoot now — usually with two to three people — which is an extremely small crew, but we make it work. This last trip I did just this past October, I did solo. It was a huge challenge as I had to do everything…operate three cameras, do all the sound, producing, directing, media logging. I just have to flow with it…see what Mokko feels like cooking that day and go along with it. It’s a lot more like shooting a documentary than a cooking show…I just have to be ready for anything.

We cook in the outdoor kitchen on an open fire, which doesn’t make things easy on the technical side. There’s a metal roof which makes the lighting hard to work with, the smoke from the fire is getting directly in my face sometimes. If it rained the day before, you can be getting eaten by mosquitos. Fire ants love to bite the feet of camera guys who are paying attention to the camera and not where they are stepping…sandflies, rain, heat, the list goes on.

Editing takes a lot of time since I do everything myself. If there was a bigger budget for the show, I’d be happy to pay a crew to do some or all of it. Even the subtitles take a while to put in.

Fomos agora três vezes à Jamaica para filmar — geralmente com duas ou três pessoas — o que é uma equipe muito pequena, porém acabou por funcionar. Nesta última viagem, no passado mês de outubro, fui sozinho. Foi um grande desafio, já que tinha de fazer tudo… operar três câmeras, fazer todo o som, produzir, dirigir, o processo de mídia. Eu só tinha de me deixar levar… ver o que Mokko sentia ao cozinhar naquele dia e acompanhar. É mais parecido com filmar um documentário do que um programa culinário… Só tinha de estar preparado para tudo.

Cozinhamos em uma cozinha ao ar livre, o que torna as coisas difíceis pelo lado técnico. Existe um teto metálico que faz a lâmpada funcionar com mais potência, às vezes a fumaça do fogo ia direto para o meu rosto. Caso chova um dia antes, você pode ser banquete de mosquitos. As formigas lava-pés amam picar os pés dos câmeras que estão prestando atenção no equipamento e não onde pisam… mosquitos, chuva, calor e a lista continua.

O processo de edição requer tempo, afinal faço tudo sozinho. Se existisse um grande orçamento para a série, estaria feliz em pagar a uma equipe para fazer uma parte do trabalho ou todo. Até a legendagem precisa de tempo.

GV: Qual foi resposta dos internautas?

MP: Online response has been amazing. It’s been a slow build, but the people that like the show are very engaged. It’s building more and more each month. There are viewers from all over the world. I was actually surprised at how many Jamaicans love the show…both expats and those still in the country. I thought that they wouldn’t be as interested, as they would have seen this kind of thing before. But what I found out is that many Jamaicans love the show because it reminds them of the old days, maybe their grandmother used to cook on an open fire just like Mokko does today. Or for those in Jamaica , they might see a Rasta on the street, but they’ve never spent time in their yard before. Although Jamaica can be a rough place, there is so much beauty in the people and the nature there. I think people everywhere can enjoy that.

MP: A resposta foi maravilhosa. Foi um processo lento, mas as pessoas que gostam do programa estão muito comprometidas. Cresce cada vez mais a cada mês. Temos audiência do mundo todo. Na verdade, estou surpreso de quantos jamaicanos amam o programa… os expatriados e aqueles que ainda moram no país. Pensei que eles não estivessem tão interessados em algo que nunca tinham visto. Mas o que descobri foi que muitos jamaicanos gostam do programa porque relembram tempos passados, talvez seus avós acostumados a cozinhar ao ar livre como Mokko faz hoje. Ou para aqueles que estão na Jamaica, podem ver um rasta pela rua, mas nunca estiveram em sua horta antes. Apesar do país poder ser um lugar problemático, existe muita beleza em seu povo e na natureza. Acho que as pessoas de qualquer lugar podem desfrutar disso.

The kitchen where all the magic happens. Photo courtesy Ras Kitchen, used with permission.

A cozinha onde toda a magia acontece. Foto cortesia da Ras Kitchen, usada com permissão.

GV: Por que você escolheu um meio de radiodifusão online? Como é que medem o número de visitantes e como podem saber mais sobre o público-alvo?

MP: Originally I had envisioned it on TV. I had shot a pilot, pitched it to Food Network, OLN, Omni, tons of places. The general response was ‘Wow this guy is really unique and cool…but this is not mainstream enough.’ They thought it could be good for a one-off special, but no way could it work in a series. Fair enough, it’s a very niche thing and it’s definitely not for everyone! Having to subtitle everything was a problem in their eyes too. I then spent a lot of energy pitching it to online networks…all over the place, and got very little response. I even partnered with a team in Los Angeles to help pitch it to venues in the US to no avail. I was actually surprised, as I know we really have something original here, it’s never been done before. So after many rejections, I just stopped trying to pitch it. Not because I had given up on the idea, but because I don’t feel like I need the validation from a bigger company. Things have changed so much in the TV/online content world in the last five years, why can’t I just make this happen myself? Conventional TV is a dying breed. There is a growing core group of fans that really enjoy the show and that’s who we make Ras Kitchen for.

MP:  Inicialmente, planejei o programa para a TV. Gravei um piloto, produzi-o na Food NetworkOLNOmni e num monte de lugares. A resposta geral era ‘Nossa! Cara, isso é único e autêntico, bacana… mas isso não é o suficiente.’ Eles pensaram que poderia ser bom para um especial, mas de forma alguma poderia funcionar como série. Muito bem, é uma coisa muito específica, definitivamente não é para qualquer um! Colocar legenda em tudo também foi um problema aos olhos deles. Dessa forma, despendi muita energia produzindo-o para os canais da rede… por todo lugar e quase não obtive resposta. Mesmo com a parceria de uma equipe de Los Angeles para ajudar a difundi-lo nos EUA tive pouco sucesso. Na verdade, estava surpreso. Sei que temos algo original aqui, nunca feito antes. Depois de muitas rejeições, parei de tentar promovê-lo. Não por desistir da ideia, mas por não sentir que preciso da aprovação de uma grande empresa. As coisas mudaram muito no conteúdo online e da TV mundiais nos últimos cinco anos, por que eu não posso só fazer isso acontecer por mim mesmo? A TV convencional é uma espécie em extinção. Há um grupo de seguidores crescendo que realmente se divertem com o programa e é para eles que fazemos o Ras Kitchen.

GV: De que forma as redes sociais ajudaram a sua causa?

MP: Social media has been a great way to communicate with fans of the show. We don’t have huge numbers yet, but those that do are heavily engaged. I’d rather have 10,000 engaged people watching than a 100,000 that just click once and watch 30 seconds of it.

A video we put up recently (Herbs of the Yard Tour) was pirated and put up on someone elses Facebook page without my authorization. It had 20,000 views and 500 shares within a couple days! The original video on the Ras Kitchen YouTube page still has less than 2,000 after weeks! At first I was kind of pissed, but then I thought at least this gives some validation that it is something unique that people are interested in seeing.

MP: As redes sociais têm sido um grande meio de comunicação com os fãs do programa. Ainda não temos grandes números, mas os que acompanham o programa são comprometidos. Prefiro 10.000 seguidores fiéis assistindo do que 100.000 que só clicam uma vez e vêem-no por 30 segundos.

Colocamos um vídeo recentemente (Herbs of the Yard Tour), que foi pirateado e colocado na página do Facebook de alguém sem minha autorização. Teve 20.000 visualizações e 500 compartilhamentos em poucos dias! O vídeo original da Ras Kitchen no YouTube ainda tem menos de 2.000 depois de semanas! Primeiro fiquei um pouco chateado, mas logo depois pensei que ao menos demonstra que é algo que as pessoas estão interessadas em ver.

GV: Qual foi a melhor parte de todas experiências e o que você aprendeu de cada uma?

MP: The best part is just hanging out with Mokko. He’s such a character, we have a ton of laughs and I love hearing all his stories. I get to feel like part of the family when I’m there. I also felt a real connection to my food source. We had to climb, poke, throw, forage, trade, or grow our food. In cases where we couldn’t get it that way, we would buy from local people who Mokko knew. Being thoughtful of where the food came from, how long it took to grow, the effort it took to bring it to the table is something I’m guilty of not considering very often. It brings a new appreciation to the source of energy in our lives.

MP: A melhor parte é passar tempo com o Mokko. Ele é uma figura, rimos muito e amo ouvir todas suas histórias. Sinto-me da família quando estou lá. Sinto também uma conexão verdadeira com a origem do meu alimento. Subimos, escalamos, descartamos, buscamos, negociamos ou cultivamos para obter nossa comida. Nos casos em que não poderíamos conseguir dessa maneira, comprávamos de algum produtor local conhecido do Mokko. Estar consciente do lugar onde veio o alimento, quanto tempo levou para crescer, o esforço para colocá-lo na mesa é algo de que me sinto culpado por muitas vezes não ter isso em consideração. Isso traz um novo entendimento para a origem da energia em nossas vidas.

Mokko and Matt; photo courtesy Ras Kitchen, used with permission.

Mokko e Matt; foto cortesia da Ras Kitchen usada com permissão.

GV: O que você gostaria que as pessoas levassem do programa? O que vocês esperam atingir ao compartilhar a culinária I-tal com o mundo?

MP: I just want people to see something real. The common misconception is that Rastafari […] has all kinds of rules and regulations that need to be followed to be a real rasta. It’s not like that…it’s an individual journey for each person. Ital can also mean different things to each person…it’s not something rigid with firm rules like Kosher, for example. I’d love for people to take away an appreciation of Mokko’s culture, the beauty in simplicity, and start to think about where their food and energy comes from. The more aware we are of this, the more we can start to build more sustainable ways to feed ourselves and take care of our planet.

MP: Só quero que as pessoas vejam algo verdadeiro. A falsa crença comum do que é o rastafári […] tem todo o tipo de normas e regulamentos necessários a serem seguidos para ser um rasta autêntico. Não é bem assim… é uma jornada individual. O I-tal também pode significar coisas diferentes para cada um… não é algo rígido com regras firmes como os produtos Kosher, por exemplo. Adoraria que as pessoas pudessem entender a cultura do Mokko, a beleza da simplicidade e começassem a pensar de onde os alimentos e a energia vêm. Quanto mais conscientes estivermos disso, mais poderemos começar a construir modelos sustentáveis de alimentação e cuidarmos de nosso planeta.