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​Ativista Leonardo Sakamoto recebe ameaças de morte após publicação de entrevista falsa​

Journalist and activist Leonardo Sakamoto. Youtube printscreen.

Jornalista e ativista Leonardo Sakamoto. Screencap: YouTube.

O conhecido jornalista brasileiro, professor e ativista dos direitos humanos Leonardo Sakamoto afirmou ter começado a receber ameaças de morte após um pequeno jornal brasileiro publicar uma falsa entrevista com ele no começo do mês de fevereiro.

O jornal “Edição do Brasil” – uma publicação de qualidade duvidosa editada em Belo Horizonte – publicou uma entrevista falsa na qual Sakamoto alegadamente se referia aos aposentados como “inúteis à sociedade”. O ativista disse que essa entrevista falsa foi baseada em um post irônico que ele escreveu em seu blog em dezembro de 2015.

Cover of the newspaper "Edição do Brasil" with the false declaration attributed to Sakamoto.

Capa do jornal “Edição do Brasil”. Foto do arquivo pessoal de Leonardo Sakamoto, usada com permissão.

No texto, “Três formas para convencer os pobres que aumentar o salário mínimo é ruim“, Sakamoto criticava os argumentos usados pela mídia, e por alguns setores da sociedade brasileira, para atacar a política do governo federal de elevar o salário mínimo anualmente. Escrevendo de maneira sarcástica, ele brincou que o Brasil deveria parar de ajustar as pensões dos aposentados também, já que o aumento destas está ligado ao aumento do salário mínimo.

Sakamoto informou que não apenas o jornal Edição do Brasil não o entrevistou, como também foi incapaz de entender seu sarcasmo, republicando o que ele escreveu no blog como se fossem afirmações sérias.

No Facebook, ele escreveu que estava recebendo ameaças online desde que a falsa entrevista foi publicada:

Meus advogados estão cuidando do caso, mas, como previ no post, a situação piorou. Ameaças de agressão e morte têm circulado na rede. E memes mentirosos baseados na entrevista falsa passaram a, além de me criticar por algo que eu não disse, a fazer ameaças. Páginas de ódio têm compartilhado a informação e fomentado vingança contra esse jornalista que quer “reciclar idosos”. Dezenas de milhares de vezes.

Antes de sair do Brasil para vir a Genebra (onde estou para falar sobre como abolir o trabalho escravo no século 21 em um TEDx na ONU), cheguei a ser abordado na rua por um grupo exaltado. Nada aconteceu desta vez.

Não sou de reclamar, não. Mas a difusão desta mentira na rede pode acabar mal. Espero estar errado.

Sakamoto é o coordenador da ONG Repórter Brasil, organização importante na defesa de direitos trabalhistas e denúncias de trabalho escravo. A Repórter Brasil regularmente denuncia companhias que usam trabalho escravo e já recebeu diversos prêmios de direitos humanos.

Sakamoto wears a t-shirt with some of the prejudice and offences he hears everyday. Photo used with permission

Sakamoto usa a camisa com as frases ofensivas que costuma escutar. foto do arquivo pessoal de Leonardo Sakamoto, usada com permissão.

Assim como outros ativistas e blogueiros de esquerda no Brasil, Sakamoto costuma enfrentar assédio e perseguições online, sendo constantemente chamado de “comunista” e apoiador do Partido dos Trabalhadores (PT) (inicialmente de centro-esquerda, hoje de centro-direita), que está no governo desde 2002. O ativista relatou diversas vezes em seu blog casos em que foi insultado nas ruas, mas ainda assim ele sempre tenta manter o bom humor, inclusive chegando a fazer uma camiseta contendo os insultos mais comuns que recebe.

Ele escreveu em seu blog:

Quem acompanha este blog sabe que, há tempos, sou perseguido em restaurantes, na rua, em aeroportos, dentro e fora do país – já tratei desse comportamento bizarro algumas vezes por aqui. Na maior parte do tempo, é divertido. O problema é quando as ações diretas acabam descambando para a violência ou as ameaças são executadas.

Em uma postagem de outubro de 2015, ele descreveu alguns desses casos:

Há algumas semanas, depois de ouvir um monte de coisa ruim de uma mulher no supermercado, não me dei por rogado e resolvi bater-papo. Ela se assustou, afinal de contas, essa não é a etiqueta de haters na internet: a gente tem que aceitar ser xingado e/ou xingar de volta. O que fazer, diante de um afável “querida, vamos conversar um pouco?
[…]
No ano passado, uma pessoa me reconheceu, abriu a janela do carro, gritou “volta pra Cuba, filho da puta”, e cuspiu na minha direção.
[…]
Já, há algumas semanas, um jovem do tamanho de um armário me acertou uma ombrada na rua que quase me desconjuntou para depois sair rindo com os amigos por ter batido no comunista.

Pela internet foram também compartilhados memes contendo ameaças de morte direcionadas a Sakamoto. O exemplo abaixo tenta, ainda, ligar o jornalista ao PT.

A meme containing a death threat to Sakamoto. Print made by Leonardo Sakamoto.

Meme compartilhado anonimamente online.

Violência contra ativistas e jornalistas no Brasil

O Brasil é um país perigoso para jornalistas, especialmente para aqueles que trabalham no interior. Em 2015, uma pesquisa da Press Emblem Campaign colocou o Brasil na sétima posição mundial em termos de morte de jornalistas (sete jornalistas foram mortos ano passado). Dois anos antes, a Repórteres Sem Fronteiras descobriu  que o Brasil liderava a América Latina na morte de jornalistas. Ano passado, a Organização dos Estados americanos (OEA) denunciou o Brasil pelas violações de direitos humanos contra jornalistas.

O Brasil também tem a distinção de ser um dos países mais perigosos do mundo para ativistas ambientais, de acordo com a ONG Global Witness. As estatísticas assustariam até mesmo os melhores assassinos: entre 2002 e 2013, nada menos que 448 ativistas ambientais foram mortos no Brasil – mais da metade do número total de ambientalistas mortos em todo o mundo durante esse período.

Expressando solidariedade com Sakamoto, o jornalista Alceu Castilho escreveu que as ameaças contra ele eram “um alerta para jornalistas de todo o Brasil“:

Sakamoto não é vítima de inocentes criadores de memes. É vítima de fascistas. E é como tais que eles precisam ser encarados. Não é preciso ser jornalista para combater o fascismo.
[…]
Enquanto isso, longe dos grandes centros, jornalistas menos conhecidos continuam sendo assassinados – e o número tem aumentado. Ou calados. Um colunista sergipano foi condenado por escrever uma crônica – uma ficção – sobre um desembargador coronelista. Assistimos a tudo isso sem a ênfase necessária. Como se fosse admissível a existência de liberdade de expressão em apenas algumas ilhas de democracia.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) está pedindo por uma investigação das ameaças de morte recebidas por Sakamoto, e o Portal Imprensa contactou o jornal responsável pela falsa entrevista, Edição do Brasil, pedindo por esclarecimentos:

Após a repercussão da falsa entrevista, o jornal apagou a matéria de sua página na internet e publicou uma nota, alegando que contatou uma assessora do jornalista, identificada como Luíza Amália, que teria intermediado o contato e respondido a redação por e-mail.
“O Edição do Brasil analisou as respostas enviadas e o artigo em questão e acredita que houve má fé por parte da pessoa que respondeu, com provável intenção de prejudicar tanto o jornal quanto Leonardo Sakamoto”, disse.

O Portal Imprensa informou ainda que Sakamoto conseguiu um direito de resposta no próprio jornal Edição do Brasil, o que, infelizmente, não soluciona ou solucionará o problema das ameaças contra o jornalista.

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