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Eles não são Charlie: torturam, prendem e matam jornalistas nos seus próprios países

2 million people arrived in Paris for the Marche Republicaine organized by the French government against the terrorism due to the double attack of Wednesday and Thursday. 17 people and 3 terrorists died. Photograph by Matteo Pellegrinuzzi. Copyright: Demotix

2 milhões de pessoas foram a Paris para a ‘Marche Republicaine’ organizada pelo Governo francês contra o terrorismo devido ao duplo ataque de quarta e quinta-feira. 17 pessoas e 3 terroristas morreram. Fotografia de Matteo Pellegrinuzzi. Direitos de autor: Demotix

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Líderes mundiais e políticos, particularmente os do Médio Oriente e do Norte de África, foram criticados pela sua hipocrisia ao apoiarem a liberdade de expressão em França, enquanto oprimem a liberdade, matam e prendem jornalistas, nos seus próprios países. 

Mais de 40 líderes mundiais, altos responsáveis e políticos de todo o mundo, juntaram-se a cerca de 1,6 milhões de pessoas que marcharam hoje em Paris [11 de Janeiro], para condenar os ataques terroristas à revista satírica ‘Charlie Hebdo’ e a um supermercado kosher. O ataque, que durou três dias, deixou 17 pessoas mortas em França, incluindo caricaturistas e polícias. Estima-se que mais de 3,7 milhões de pessoas tenham marchado hoje por todo o país, fazendo destas as maiores manifestações na história da nação. Em menor número foram realizadas manifestações semelhantes de solidariedade de apoio à liberdade de expressão no Cairo, Beirute, Nova Iorque e Madrid, entre outras.

Beirute, Líbano, 1ª cidade árabe a organizar uma manifestação #JeSuisCharlie hoje. Fotos da Praça Samir Kassir publicadas no Twitter

A presença de líderes mundiais à frente da manifestação de Paris, que começou na Place de la Republique e terminou na Place de la Nation, e onde os manifestantes entoaram ‘liberté’ (liberdade) e ‘Charlie’, suscitou muitas críticas nas redes sociais, principalmente por alguns desses líderes estarem entre os maiores transgressores da liberdade de expressão do mundo.

O escritor egípcio Mohamed El Dahshan tweetou a sua objecção aos seus 44,7 mil seguidores no Twitter:

A presença de líderes israelitas e do Barém numa demonstração “anti-terrorismo” torna-a sem sentido. Terrorismo de Estado deve ser rejeitado!

O espanhol David Karvala escreve:

Paris protesta contra o ataque que matou 17 pessoas inocentes de mãos dadas com Netanyahu, que mata milhares

“Freedom Prayers”, do Barém, relembra os leitores o que espera os manifestantes em casa:

Os representantes oficiais do Barém que hoje demonstram apoio ao Charlie Hebdo só têm isto a oferecer aos que buscam a liberdade de expressão em casa

Os representantes do Barém caminham por Charlie Hebdo, em Paris mas disparam contras as pessoas no seu país por falarem

E Dima Eleiwa, de Gaza, Palestina, explica:

Iremos contar aos nossos filhos histórias surpreendentes sobre a manifestação de hoje. Terroristas e aqueles que suprimem a liberdade de expressão tomaram parte de uma manifestação contra o terrorismo e de apoio à liberdade de expressão!

O Repórteres Sem Fronteiras (RSF) descreveu os líderes mundiais presentes no evento como “predadores,” e a sua presença chocante. Emitiu um comunicado em que dizia:

On what grounds are representatives of regimes that are predators of press freedom coming to Paris to pay tribute to Charlie Hebdo, a publication that has always defended the most radical concept of freedom of expression?

Reporters Without Borders is appalled by the presence of leaders from countries where journalists and bloggers are systematically persecuted such as Egypt (which is ranked 159th out of 180 countries in RWB’s press freedom index), Russia (148th), Turkey (154th) and United Arab Emirates (118th).

Com que fundamento vêm a Paris representantes de regimes que actuam como predadores da liberdade de imprensa prestar tributo a Charlie Hebdo, uma revista que sempre defendeu o conceito mais radical de liberdade de expressão?

O Repórteres Sem Fronteiras está chocado com a presença de líderes de países onde jornalistas e bloggers são sistematicamente perseguidos, tais como o Egipto (classificado no 159º lugar entre os 180 países que fazem parte do Índice de Liberdade de Imprensa do RSF), Rússia (148º), Turquia (154º) e Emirados Árabes Unidos (118º).

Mesmo antes do início da manifestação, o palestiniano Yousef Munayyer tweetou aos seus 22,2 mil seguidores:

Esta manifestação em Paris está a tornar-se no ‘quem é quem’ dos líderes mundiais que silenciaram os seus próprios jornalistas

Daniel Wickham, um blogger do Reino Unido, fez uma pesquisa e partilhou uma lista impressionante dos ‘infractores’ presentes na manifestação:

Aqui estão alguns dos fiéis defensores de uma imprensa livre a participar na manifestação de solidariedade hoje em Paris…

Entre eles estão:

1) Rei Abdullah da Jordânia, que no ano passado sentenciou um jornalista palestiniano a 15 anos de prisão com trabalhos forçados

2) O Primeiro-Ministro Davutoglu, da Turquia, que aprisiona mais jornalistas que qualquer outro país do mundo

3) O Primeiro-Ministro Netanyahu, de Israel, cujas forças mataram 7 jornalistas em Gaza no ano passado (segundo maior depois da Síria)

4) O Ministro dos Negócios Estrangeiros Shoukry, do Egipto, que assim como funcionários da Al Jazeera prendeu o jornalista Shawkan durante cerca de 500 dias

6) O Ministro dos Negócios Estrangeiros Lamamra, da Algéria, que deteve o jornalista Abdessami Abdelhai por 15 meses sem acusação

7) O Ministro dos Negócios Estrangeiros dos Emirados Árabes Unidos, que em 2013 manteve um jornalista incomunicável durante um mês sob suspeita de ligações à Irmandade Muçulmana

8) O Primeiro-Ministro Jomaa da Túnisia, que recentemente prendeu o blogger Yassine Ayan por 3 anos por “difamar o exército”

14) O Ministro dos Negócios Estrangeiros do Barém, o 2º carcereiro de jornalistas do mundo per capita (eles também os torturam)

15) O Sheikh Mohamed Ben Hamad Ben Khalifa Al Thani of Qatar, que prendeu um homem durante 15 anos por ter escrito o poema “Jasmine”

16) O presidente Palestiniano Mahmoud Abbas, que mandou prender vários jornalistas por o terem insultado em 2013

21) O embaixador da Arábia Saudita na França. Os Sauditas açoitaram publicamente na sexta-feira o blogger @raif_badawi por “insultar o Islão”

Wickham reserva também duas menções especiais a transgressores que não foram convidados para a marcha:

Ah, e o presidente Assad também condenou o ataque ao Charlie Hebdo. Sinceramente, não creio que isto precise de mais algum comentário.

Mais hipocrisia: o Hamas condena o ataque ao Charlie Hebdo, mas espancam jornalistas em Gaza e aprovam massacres na sinagoga.

Para uma lista completa dos “predadores” consulte este link do Storify, compilado por Tom Etty. 

Iyad El-Baghdadi, que foi preso e exilado dos Emirados Árabes Unidos, conseguiu mais algumas tiradas para adicionar ao seu “Manual do Tirano Árabe”, que começou a escrever depois da chamada ‘Primavera Árabe’. Entre elas está:

Participar numa marcha pacífica para denunciar o terrorismo, depois voltar a casa e oprimir algumas pessoas em nome da luta contra o terrorismo. Manual do Tirano Árabe

A turca Zeynep Tufekci lembra-nos de como os líderes mundiais põem os seus interesses à frente dos assuntos com os quais aparentam preocupar-se, como a liberdade de expressão:

Hoje os líderes ocidentais marcham pela “liberdade de expressão”. Amanhã, vão assinar acordos com aqueles que açoitam o blogger saudita Raif Badawi por “insultar o Islão.”

Ela esclarece o seu comentário:

O mundo muçulmano não tem falta de heróis que lutam pela liberdade de expressão. Tem falta de apoio do ocidente, que está mais interessado em vender armas e petróleo.

O sarcasmo também foi partilhado. Giray Ozil tweetou:

Todos os olhos à procura de Kim Jong-un na manifestação para a liberdade de expressão em Paris. Todos os outros estão lá.

O palestiniano Ali Abunimah diz aos seus 57,7 mil seguidores:

O rei e a rainha da Jordânia foram a Paris, mas não a Gaza. Isto deve querer dizer que a Jordânia acha que o aconteceu em Paris é muito pior que o banho de sangue em Gaza.

O sírio Rafif Jouejati pondera:

Talvez Assad vá decretar uma marcha #JeSuisCharlie na Síria

E o egípcio Guebara sarcasticamente salienta:

Abu Bakr Al Baghdadi está a participar na manifestação em Paris contra o terrorismo

De acordo com o Washington Post, surgiu hoje um vídeo de sete minutos, em que um dos terroristas que atacou o supermercado kosher, reivindicava postumamente a responsabilidade do Estado Islâmico (EI) pelo ataque. No vídeo, Amedy Coulibaly jura fidelidade ao líder do EI, Al Baghdadi.

Tradução editada por Lú Sampaio como parte do projecto Global Voices Lingua