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O fim da Copa: Dentro do Maracanã, festa alemã; do lado de fora, a reprise da violência policial

Foto de Mauricio Campos dos Santos, usada com permissão

Manifestantes tentam caminhar no Rio. Foto de Mauricio Campos dos Santos, usada com permissão

As prisões ilegais de ativistas contra a Copa do Mundo, às vésperas da grande final entre Alemanha e Argentina, com intuito de esvaziar ou impedir manifestações antes do encerramento do evento, não impediram brasileiros de se manifestar. Um protesto reuniu centenas de pessoas e, como de costume, foi reprimido com extrema violência. 

Impedidos de caminhar até o Maracanã e isolados por cordões policias, os ativistas foram alvo de bombas de gás, bombas de efeito moral e cacetetes enquanto tentavam gritar e cantar contra a polícia e contra a Copa. A cada tentativa de reagrupar e marchar, visando furar o bloqueio policial, choviam bombas e gás. Ativistas pacíficos, além de jornalistas e midialivristas foram chutados pela PM, enforcados, espancados e agredidos, como denuncia o coletivo Mídia Ninja:

17h, Rio de Janeiro – O documentarista canadense Jason O'hara teve sua câmera roubada por um policial militar, sofreu muitas agressões nos braços e está ferido na perna.

O jornalista Felipe Peçanha, Mídia Ninja, foi cercado por 8 policiais, teve sua lente quebrada e sofreu agressões enquanto transmitia os cuidados médicos ao Jason O'hara.

A documentarista Aloyana Lemos, MIC, foi detida enquanto registrava as agressões à manifestantes no ato até então pacífico na praça Saens Peña, Tijuca. Aloyana está sendo encaminhada para a 21º DP.

O fotógrafo Bernardo Guerreiro, Mídia Ninja, teve sua lente quebrada e foi agredido com spray de pimenta no olho de curta distância.

Manifestantes tentam caminhar em direção ao Maracanã. Foto do Coletivo Mariachi, uso livre.

Manifestantes tentam caminhar em direção ao Maracanã. Foto do Coletivo Mariachi, uso livre.

O documentarista canadense teve seu material quebrado e foi brutalmente espancado, como relata o jornal alternativo A Nova Democracia, com chutes na cabeça e foi atendido em um hospital. O jornal chegou a gravar a imagem de um PM chutando a cabeça do jornalista já no chão.  Uma ativista foi chutada pelo PM Rogério Costa de Oliveira, já conhecido dos movimentos sociais por agredir mulheres em manifestações, e o exato momento da agressão foi gravado pelo usuário do Youtube Tandy Firmino:

Segundo o Sindicato dos Jornalistas do Rio, ao menos 15 jornalistas forma agredidos na manifestação pela PM.

Até mesmo a cavalaria, com policiais armados com espadas foi usada contra os manifestantes. Sobre o isolamento imposto pela PM aos manifestantes, a jornalista Tâmara Cardoso resumiu a situação:

estou sendo mantida refém pela polícia.

Identificada como jornalista, dentro de um carro identificado como um carro de reportagem, não posso sair da praça Saens Pena.

Ta bom ou precisa mais?

Foto de Camila Nóbrega - Canal Ibase

Foto de Camila Nóbrega – Canal Ibase

E a Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência completou, postando uma foto da jornalista Camila Nóbrega, da ONG Ibase:

“SOS”. É a mensagem que pessoas encurraladas pela polícia nas imediações do Maracanã acabam de escrever no chão da rua Desembargador Isidro, na Tijuca: um pedido de socorro. Após reprimir de forma truculenta a manifestação que ocorria no entorno da Praça Saens Pena, a Polícia Militar fez um cerco em todas as ruas do local, impedindo a circulação. Cerca de mil pessoas estão “presas” nas ruas da Tijuca, cercadas de policiais.

O engenheiro Maurício dos Santos postou uma série de fotos da repressão e comentou, no Facebook:

PM fecha metrô, joga bombas, destrói faixas e cartazes, espanca pessoas e transforma a Praça Saens Peña em praça de guerra. Nessa praça jaz a democracia.

Ao menos 7 pessoas foram detidas, incluindo um menor de idade, informou o Coletivo Mariachi pelo Facebook. O coletivo ainda descreveu a cena de guerra na cidade:

Na praça Saens Peña: Cacetadas em repórteres, bombas de lacrimogêneo coloridas (acreditamos que seja uma alusão à torcida pela Argentina), bombas de efeito moral na cabeça de Professores e um cenário de guerra ao passo que PMs dão risada e comemoram as arbitrariedades.

A ativista Paula Kossatz gravou um vídeo de um dos momentos em que a PM avançou com bombas e violência contra a manifestação:

 

 

 
Assim como a ativista Anna Baptista Marim, que gravou o ataque da PM contra manfiestantes e transeuntes dentro de uma estação de metrô:

 

 

 

 

Ela ainda escreveu:

PM ataca passageiros no metrô.
Minutos antes deu apanhar:
Durante muitas bombas, prisões e porradarias de PMs com cacetete na praça Saens Pena, eu e meu marido fomos os últimos a conseguir entrar na estação cheia de gás.
Ficamos filmando a caça da polícia que tentava identificar quem era manifestante e quem não era.
Nosso grande crime, merecedor de muita porrada, foi ter ficado filmando a ação da PM. Por isso que é dificil encontar vídeos denunciando a covardia da policia.

O cartunista André Dahmer, autor dos quadrinhos Malvados, descreveu em tom bem humorado a situação dos protestos e manifestantes no país:

Eu queria manifestar meu pesar pela seleção argentina, mas quem se manifesta vai preso.

Enquanto os alemães celebravam o campeonato mundial dentro do Maracanã, centenas de pessoas eram vítimas da brutalidade policial e impedidas de exercer um direito constitucional, o de protestar. A cena se repete desde junho de 2013, quando a repressão policial acabou causando uma onda de revolta popular e as manifestações alcançaram as cifras dos milhões nas ruas exigindo direitos, durante a Copa das Confederações. Um ano após os grandes protestos de junho de 2013 as cenas de violência não apenas se repetem, como proliferam.