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Blogueira Americana na Terra do “Abaixo a América”

View from Iran [EN] é um blogue que sempre me atraiu muito. Uma blogueira americana baseada no Irã fala sobre seu dia-a-dia na terra do “abaixo a América.” Tori Egherman, a blogueira americana, deixou o Irã. Ela e seu marido acabaram de publicar um livro de fotos e ensaios sobre a experiência de morar quatro anos lá. Falei com ela sobre seu blogue, livro e sua vida real e virtual no Irã.

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P: Você pode nos apresentar a você, a seu blogue e ao seu livro?

Nos últimos quatro anos, morei no Irã onde me vi precisando criar novas identidades para mim. Na internet, virei Esther Herman, a americana que escrevia o blogue View from Iran e para o Mideast Youth[EN]. Para os outros, continuei sendo Tori Egherman. Meu marido e eu passamos quase quatro anos vivendo em Terã onde batalhavamos em meio aos nossos problemas do dia-a-dia, de manter um pequeno negócio, e podemos conhecer a família dele melhor (ele passara toda sua vida adulta na Holanda e nos E.U.A e não via a maior parte de sua família por quase 22 anos antes de termos ido a Terã)

Nosso blogue começou como um meio de nos comunicar com família e amigos e logo começou a virar um fórum mais público. Nosso livro Iran: View from Here (Irã: Uma Visão Daqui) é um livro de ensaios e fotografias que Kamran e eu tiramos enquanto estávamos no Irã. As fotos contam a história de nossa experiência lá e apresentar um Irã que é difícil de se imaginar. Kamran e eu estávamos interessados nos aspectos públicos da vida diária no Irã. Muitos livros lidam com um Irã histórico, um Irã belo, um Irã étnico. O nosso é uma visão do dia-a-dia no Irã. (Clique aqui para uma apresentação em Flash do livro)

“Uma estranha em Terã”

P: Como foi ser uma americana e viver no Irã onde o “abaixo a América” é quase um lema do Estado?

Posso contar em uma mão as vezes que me fizeram me sentir incomodada por ser uma americana. Os iranianos que conheci eram todos infalivelmente muito educados e bondosos. Todo lugar que eu fui as pessoas ficavam genuinamente animadas em conhecer uma americana. Durante minha estadia no Irã, conheci muitos iranianos de todos os caminhos da vida: do religioso ao secular ao revolucionário e tudo que pode haver no meio. Durante todo esse tempo, conheci uma pessoa que me assustou. Quando disse a Kamran que aquela pessoa me assustou, ele disse, “Aquele cara? Ele assusta todo mundo, então, não se preocupe. Não é porque você é americana.”

Uma vez meu marido, uma amiga britânica e eu viajamos a Bandar Abbas: uma parte etnicamente árabe perto do Golfo Pérsico. “Não vou contar a ninguém que eu sou americana,” eu disse a Kamran e nossa amiga Kate. O caos que se instalou depois do ataque americano ao Iraque me deixou nervosa quanto a revelar minha nacionalidade aos àrabes. No aeroporto, pegamos um táxi. O motorista, como era de se prever, perguntou a Kamran de onde éramos e Kamran respondeu, “ Nossa amiga é britânica e minha mulher americana mas ela quer dizer a todo mundo que é do Canadá.” O motorista riu, explicou que éramos todos irmãos e irmãs, e então começou uma reclamação anti-regime. Então, a única vez que resolvi ser uma canadense em vez de uma americana meu marido tagalera destruiu meus planos.

Há muitas pessoas no Irã com sentimentos anti-americanos, meu marido Kamran conheceu alguns. O que se tem que entender é que no Irã a hospitalidade quase sempre supera a ideologia e a crença. Sempre digo que a hospitalidade no Irã é a religião principal. Se eu realmente encontrei pessoas com sentimentos anti-americanos, eles reprimiram esses sentimentos para não me insultar.

Dito isso, eu odeio o coro “Abaixo a América”. Lembro-me de ver peregrinos iranianos em Meca de punhos levantados e cantando “Abaixo a América!” Se eu reclamasse, meus amigos iranianos diriam, “Não significa nada, por que te incomoda?” Eu diria a eles “Quando vamos a cerimônias religiosas não cantamos “Abaixo o Irã!”. Não vamos às ruas gritar contra seu país.” É um mundo diferente. No Irã, esses tipos de lemas têm pouco peso. Nos Estados Unidos, significam muito.

Conversas de Táxis

P: Em View from Iran você tem uma categoria chamada “taxi talk” (“conversas de táxis). Você pode nos explicar um pouco?

Nós, como muitos no Irã, não tínhamos carro (ou um motorista). Todo dia, Kamran e eu pegávamos no mínimo dois táxis. Algumas vezes mais. Algumas vezes pegávamos táxis privados e outras vezes, públicos. Táxis públicos têm uma rotina determinada e pegam passageiros dentro dessa rota. Em ambos os casos, você pode se encontrar envolvido em conversas sobre uma miríade de assuntos: política, sociedade, cultura, esporte, saúde… Um amigo nosso especulava que os táxis no Irã eram um tipo de pesquisa de opinião pública informal.

Motoristas te diriam que um em três deles trabalham para a inteligência. Muitas pessoas que conheci no Irã confirmariam. Um em três é uma proporção muito alta, mas não há dúvidas de que muitos taxistas realmente fazem relatórios para serviços de inteligência… Os táxis são uma rede informal que é, de muitos modos, a rede de comunicação mais efetiva do Irã. Rumores e novidades são comentados, piadas são passadas para frente, suculentas fofocas aparecem. Durante a última exigência às vestimentas femininas, por exemplo, os taxistas eram os que tinham mais informações. Eles sabiam onde estavam conversando gentilmente (mas com firmeza) com as mulheres e onde elas estavam sendo assediadas fisicamente.
Blogues humanizam o Irã

P: Como você avalia a influência dos blogues no Irã?

A influência principal dos blogues é permitir às pessoas terem um fórum para idéias e experiências que elas não podem discutir em público. No Irã há poucas oportunidades para discussões públicas e/ou conhecer estranhos e fazer novos amigos. A blogosfera vem oferecendo essa oportunidade para muitos iranianos.

Acredito que a influência dos blogues na esfera política, no Irã, é limitada. Por outro lado, acredito que os blogues oferecem uma visão valorosa de dentro da vida iraniana para pessoas que vivem fora do Irã. Eles humanizam o Irã.

Imagem vs. Realidade

P: Você acha que no Ocidente, temos uma visão precisa do Irã? Você acha que os blogues podem ter o papel de servir como ponte entre o Ocidente e o Irã?

Não, não acho que temos uma visão precisa do Irã. Acredito, sim, que os blogues podem ter o papel de ligar os dois. Eu chamaria a atenção para o fato de que o Irã é uma sociedade extremamente baseada em classes. Os iranianos que conheci costumavam usar suas próprias experiências do Irã para extrapolar para todo o Irã. Uma história para exemplificar isso: É comum viajantes encontrarem iranianos que dizem coisas como: “No Ocidente vocês acham que nós somos um país de desertos e camelos. Não somos. Vocês não verão camelos nem muito deserto.” Bem o fato é que, grande parte do Irã é deserto e camelos selvagens vivem nesses desertos. Eu os vi! Iranianos tendem a viajar no Irã para ver a família… Eles raramente saiem de suas próprias classes ou círculos sociais, e eles acreditam que todos no Irã compartilham de suas opiniões.
P: Você vê alguma similaridade entre blogues iranianos e os americanos?

Sim! Blogues iranianos são incrivelmente diversificados, assim como os americanos. Você tem blogues políticos como Kamangir’s[EN], Abtahi’s[AR], até Ahamadinejads[AR] … nossos sobrinhos no Irã lêem blogues sobre Harry Potter e David Beckham. Há blogues de pessoas que trilham todos os caminhos da vida. Pensem, quando o Iraque tinha um blogue (Salaam Pax blogando agora no Raed in the middle[EN]) relatou-se que no Irã havia 70.000!

Filtragem dói

P: Você pode me dizer os nomes de alguns sites em inglês que foram filtrados no Irã?

Muitos sites em inglês são bloqueados no Irã. Meu favorito, The Onion[EN], está bloqueado. Acho que sim porque reporteres iranianos não o usam involuntariamente como fonte como The Beijing Evening News já o fez. Um site de design chamado Boxes and Arrows [EN] também está bloqueado. Mandei mensagens de protesto todos os dias por cerca de um ano, mas o site nunca foi desbloqueado. Sites de saúde feminina estão bloqueados. Isso, eu tenho certeza, é o efeito colateral acidental da política de filtragem super protetora do regime.

E mesmo que muitos sites de saúde feminina estejam bloqueados, você ainda pode ler Savage Love(mas não contem pra ninguém ;-) ). No nosso site tenho uma lista de alguns dos sites que foram bloqueados quando tentei acessá-los. Apenas leve a barra de rolagem para baixo na coluna lateral do site e vá até “Filtrados”.

(Texto original de Hamid Tehrani)

 

O artigo acima é uma tradução de um artigo original publicado no Global Voices Online. Esta tradução foi feita por um dos voluntários da equipe de tradução do Global Voices em Português, com o objetivo de divulgar diferentes vozes, diferentes pontos de vista. Se você quiser ser um voluntário traduzindo textos para o GV em Português, clique aqui. Se quiser participar traduzindo textos para outras línguas, clique aqui.

2 comentários

  • Alexandra

    eu tenho a comentar que esse texto foi muito bem escrito, e os fatos sao veridicos eu sei porque tbm ja morei lá por 2 anos e meio e sinvceramente os iranianos sao as pessoas mais hospitaleiras que ja conheci

  • Olá Alexandra. É bem legal ouvir seu feedback. Que bom que gostou da matéria do Hamid, aqui traduzida pela Luana Selva.

    Seja sempre bem vinda ao Global Voices em Português. Temos bastante material publicado sobre o Irã todas as semanas por aqui.

    Abraços do Verde.

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