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Blogando Positivamente: Entrevista com a bloguer Leah Okeyo

Leah Okeyo é uma activista comunitária, bloguer, autora e correspondente do World Pulse [en]. É co-fundadora de organizações para mulheres – Jacolo, para Mulheres Rurais em Resposta ao HIV/SIDA e da Acção Positiva para a Mudança (APM/PACHO) – e participa no projecto do Rising Voices “Blogando Positivamente” [en]. Leah é cidadã do Quénia e mãe de seis filhos, que sonha levar a tecnologia dos computadores e o acesso à internet para a sua comunidade e escreve regularmente para uma audiência global. “Dar voz aos sem voz” é um dos seus objectivos principais e isto inclui não apenas mulheres e pessoas que vivem em áreas rurais, mas pessoas como ela própria, que vivem com o HIV/Sida.

Segue-se uma entrevista conduzida recentemente por Janet Feldman e Serina Kalande, membros do projecto “Blogar Positivamente”, a esta dinâmica defensora do jornalismo cidadão, que acredita apaixonadamente no poder da comunicação para a mudança de vidas e em forjar laços duradouros de apoio e cuidados entre culturas. A entrevista foi conduzida pessoalmente em Nairobi e também por email.  

Rising Voices: Fale-nos por favor da organização Jacolo e da sua participação nesta organização:

Leah Okeyo: Eu e um grupo de mulheres HIV positivas fundámos a organização Jacolo para Mulheres Rurais em Resposta ao HIV/Sida há cinco anos. Na altura, o grande trabalho das fundadoras da organização cingia-se a melhorar os padrões de vida das mulheres seropositivas, que não tinham fonte de rendimento e não conseguiam pôr comida na mesa. Actualmente, a Jacolo gere programas diferentes no apoio aos direitos das mulheres com HIV. Fundei recentemente uma nova organização, chamada APM/PACHO. Os meus sonhos mudaram. Continuo a apoiar imenso a Jacolo, mas agora concentro-me mais no poder da voz. Na partilha de histórias e soluções. Esta será uma abordagem simples que me levará eventualmente aos objectivos que tenho traçados.

Foto de Leah (à direita) com amiga, Irene, tirada na Cidade do México. Foto de cortesia de Leah.

RV:  O que representa a APM/PACHO e quais são os seus planos para a organização?

LO: Na língua local, PACHO significa “casa”. Supostamente, a casa é um porto seguro. Além disso, é igualmente um acrónimo [em inglês] para “Acção Positiva para a Mudança Organizacional”. Precisamos de uma mudança. A acção deve ser positiva a fim de a alcançarmos. A organização deve ser capaz de endereçar assuntos que afectam as mulheres ao nível das bases e de participar activamente em temas que assegurem alterações locais e internacionais. Quando os mulheres ganharem força, as comunidades e o mundo ganharão força também. O meu trabalho terá então um impacto mais poderoso. Este é o meu sonho e a minha paixão.

RV: Qual é a sua ligação com o World Pulse e que papel tem dentro da organização? 

LO:  O World Pulse é o site que mudou a minha vida. Foi onde encontrei o poder da minha voz. Foi ali que aprendi a blogar. Faço a divulgação do World Pulse em África. Encorajo homens e mulheres a partilharem vozes. Isto tem funcionado bem em grande medida. Tivemos hoje uma reunião com membros do World Pulse em Nairobi. Toda a gente concorda que existe a necessidade para fóruns deste tipo, onde podemos ter conversas orientadas para conclusões.

RV: O World Pulse faz formação em jornalismo cidadão: já participou de alguma? 

LO: Aprendi tudo sobre Web 2.0 através destas formações. Aprendi a utilizá-lo como ferramenta em prol do meu activismo e advocacia. A World Pulse e o jornalismo cidadão em geral dão-me o espaço e a capacidade para espairecer os meus sentimentos e pontos de vista, sem limitações, e permite-me aprender mais e partillhar esses conhecimentos com outras pessoas, especialmente com os menos privilegiados. Por vezes os nossos representantes (governos e os formadores de políticas) fingem conhecer os nossos problemas, mas na realidade não sabem de nada ou são passivos. A oportunidade de gritar e fazermo-nos ouvir está aqui. Estas plataformas também dão aos outros a oportunidade de partilhar as suas vozes comigo, com a comunidade e com o mundo. Ao enquadrarmos uma orientação virada para a solução, somos capazes de retirarmos mais benefícios. Não importa mais se alguém pertence à base ou ao topo, as oportunidades de ouvir e de ser ouvida estão disponíveis.

RV: Como é que se envolveu com a utilização da mídia cidadã e que formas tem usado?

LO: Antes da World Pulse tinha paixão pela escrita. Expressava todos os meus sentimentos através da escrita e por vezes, através da poesia. Represento actualmente as vozes vindas da base. Vozes que não seriam ouvidas de outra forma. Trabalho especialmente com o vírus HIV/Sida e em outras questões que afectam mulheres e pessoas jovens. 

RV: Já publicou alguns dos seus escritos e poesia?

LO: Expresso-me através da poesia. A poesia não só envia mensagens, como entretém. A maior parte das pessoas acha mais fácil ler poesia do que textos. Estou a usar esta oportunidade para “pregar o meu evangelho”! Através da minha escrita, vejo-me sempre como representante de um grupo maior. Como activista, fico por vezes na ofensiva ou na defensiva. Às vezes sou embaixadora ou simplesmente oradora. Às vezes sou mensageira. Muitas vezes sou a quem leva informação, obtendo informação para transmitir a grupos ou a comunidades vastas. A minha poesia nunca foi publicada, mas tenho isso como objectivo, actualmente.

RV: Levar o acesso à informática e à tecnologia para a sua comunidade é importante para si: como é que o faz?
LO: Esse é o meu grande sonho! Vou fazê-lo! Neste momento, muitos membros da minha comunidade utilizam o meu computador pessoal para fazerem trabalhos. Deixo que o façam. Eu sei como seria se estivesse no lugar deles. Sei como sentem-se gratos quando terminam.

RV: Escreve no blogue sobre assuntos relacionados ao HIV/SIDA? Se sim, quais são os tópicos favoritos?
LO: O meu coração (e a minha boca) está aí. Os meus interesses especiais focam-se na advocacia e no tratamento da doença. Partilho toda a informação que obtenho nos fóruns e nas conferências através de blogues e conversas. Anseio por um tempo em que os pesquisadores aparecerão com o próximo desenvolvimento que terá um impacto positivo sobre todos nós.

RV: A sua experiência com blogues ajudou nos avanços de consciência e acção em relação ao HIV/Sida?

LO: Quando não obtenho ajuda a obter informação, ajuda-me a espalhar a palavra. Recordo-me que há alguns meses havia falta de preservativos no Quénia e escrevi sobre isso no meu blogue. Surpreendentemente, a resposta foi maior e mais rápida do que esperava! Pensei que ajuda viria do Quénia, mas em vez disso, veio dos estudantes da Universidade do Estado de Portland (EUA). Eles enviaram uma caixa com mais de 1000 preservativos! Foi uma acção de responsabilidade colectiva, e o resultado foi imediato.

Li muitas vezes em outros blogues, sobre oportunidades  no campo do HIV/SIDA que estão disponíveis. Ganhei bolsas de estudo e oportunidades de falar sobre a doença e, também, de ouvir pessoas além-fronteiras. São inúmeros os benefícios.

RV: Qual é a sua ligação actual com o projecto Blogando Positivamente [en] e o que visiona para o futuro?

LO: O chat do dia Mundial da Sida 2010 que ocorreu em Dezembro foi fantástico! Nunca tinha “blogado positivamente” em directo em conversa, com mais de uma pessoa. Visiono uma comunidade que irá trabalhar em conjunto pelo bem de outros e por si mesmos. Tenho uma cópia do e-guia “Blogando Positivamente” [en] e espero usá-la no futuro!

RV: Tem alguma sugestão para tornar o projecto o mais útil possível?

LO: Este projecto será bastante útil. Para mim, o projecto “blogando com positividade” (a actividade em si) é uma escola, uma vez que me dá a oportunidade de recolher informação de todo o mundo que de outro modo não conseguiria. A informação é útil quando partilhada. Sinto que o sucesso deste projecto vai depender do número de pessoas que se conseguir alcançar além de um grupo imediato, bem como da capacidade de se ter planos de acção e de monitorização. Sem isto, nunca teremos a capacidade para medir o sucesso.

RV: Antevê a possibilidade de colaborações entre o projecto Blogando Positivamente, o World Pulse e os seus próprios empreendimentos?

LO: Adoraria uma colaboração, porque atingíriamos os mesmos objectivos. Comunico pessoalmente com várias pessoas seropositivas e que fazem também parte do World Pulse. O World Pulse é a plataforma para inúmeras pessoas que vivem com o vírus. Tenho ligações pelo mundo relacionadas com este assunto. A ideia é juntar estes grupos numa voz comum e ser a voz dos que não a têm.

Enquanto organização, a PACHO traçaria um plano em conjunto com o projecto Blogando Positivamente, de forma a fazer dos blogues ferramentas importantes que foquem problemas ligados ao HIV/SIDA. Pessoalmente, estou treinada em Aconselhamento e Testes de despistagem do HIV. Tenho sido uma motivação entre os meus pares. Isso faz com que esteja ao alcance de muitos e que me possibilita ao mesmo tempo chegar a muita gente. Assim sendo, gostaria de alcançar outros programas paralelos com pujança!

RV: Tem algum interesse na área da pesquisa além do tratamento e da advocacia?  

LO: Sei bem onde o sapato aperta. Começa com o pré-teste, o pós-teste, a medicação, os cuidados… o que quiser! Defenderei tratamentos e políticas melhores. Defenderei os nossos direitos. Lutarei por todos aqueles cujas vozes foram sufocadas ou silenciadas por várias razões!

No que respeita à pesquisa, estou certa que existe uma enorme ligação entre a medicação e o estatuto de HIV negativo. Observo um mundo onde todas as formas de tratamento produzirão resultados (benéficos). Quero ser um objecto de investigação positiva, como pessoa e na minha comunidade para o bem da minha gente, independentemente da geração.

RV: Quer acrescentar mais alguma coisa?

LO: Não falei sobre  a esterilização forçada ou sobre o planeamento familiar coercivo que acontecem actualmente em Nairobi. Este assunto requer atenção urgente. Na maioria dos centros de saúde, onde nos tratamos, o pessoal médico é mandão e autoritário. Fica impossível lidar com isso. Adoraria saber por outras pessoas o custo do tratamento retroviral e ouvir a experiência de outras mulheres em boas instalações de saúde, por exemplo. Poderia partilhar essas informações com outras pessoas.

A Leah foi igualmente entrevistada por Wanyama a Chebusiri como parte do programa Superpower da BBC. Pode ouvir o podcast aqui.

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