Está vendo todos esses idiomas acima? Nós traduzimos os artigos do Global Voices para tornar a mídia cidadã acessível para várias partes do mundo.

Saiba mais sobre Tradução do projeto Língua  »

Angola: expulsão de cliente em restaurante por alegada má apresentação gera indignação

Vestimentas de Hossi Sonjamba no dia do acto | Foto usada com permissão por Hossi

Vestimentas de Hossi Sonjamba no dia do acto | Foto usada com permissão por Hossi – 26 de Agosto de 2018

O incidente ocorreu no passado dia 26 de Agosto, quando o jornalista e actvista, Simão Hossi, se deslocara ao restaurante Café Del Mar para almoçar com um grupo de amigos.

Porém, antes da refeição, Simão Hossi se deslocou à casa de banho e, na sequência, foi seguido por um dos funcionários, à mando da gerência. Para sua surpresa, conforme conta, foi agredido e expulso do restaurante por, alegadamente, apresentar-se mal trajado (tinha uma calça, camisola e chinelos).

Com uma ampla divulgação, sobretudo nas redes sociais, a situação está a levantar uma série de repúdios e protestos públicos de muitas pessoas, entre as quais clientes assíduos. Alguns, em resposta, manifestaram a pretensão de não voltar ao Café Del Mar, que é um dos locais mais procurados na Ilha de Luanda.

Em forma de reportagem, o caso foi apresentado pelo activista num canal televisivo de maior audiencia em Angola, a TV Zimbo. Já numa publicação no Facebook que teve mais de 80 partilhas e 212 reacções, Hossi conta a sua versão dos factos:

Ontem, domingo 26 de Agosto, desloquei-me a Ilha de Luanda, em companhia de 3 amigos sendo um deles um Cidadão Norte Americano que esteve em Angola a trabalho, trata-se de Jeremias Dito Dalí, Massilon Chindombe, e o Rudy Massamba que veio de Washington DC.

(…) enquanto procurava-se pelo lugar para sentarmos decidi ir ao banheiro e, como não conhecia a casa perguntei a uma atendente, esta indicou que fosse sempre em frente por estar apresada, como não achava, perguntei a uma funcionária de limpeza, está por sua vez questionou-me logo de onde vinha, eu respondi a ela no caso a funcionária que estava no interior do restaurante e que precisava do banheiro, ela indicou-me e fui usar o mesmo.

Tão logo saí do banheiro deparo-me com mais ou menos 4 a 5 seguranças internos vulgos Caenches que abordaram a minha pessoa com as questões, o que estava aí a fazer, de onde vinha e, estes por sua vez obrigavam a segui-los eu questionei para onde eles queriam levar-me se estava acompanhado. Foi assim que eles a força, um deles pegou me a força como se um bebê até fora do recinto do restaurante onde fui atirado ao chão, este mesmo que carregou deu-me bofetadas, para além destes em conjunto terem preferidos palavras de que, aquele não era o local para mim, mesmo eu tendo insistentemente afirmado que estava acompanhando com mais 3 pessoas.

Quanto a questão das minhas vestimentas, eu estava de chinelas de facto, estava com uma calça e camisola normal, havia pessoas com calções e chinelas mas fui mesmo o alvo.
Para mim o pessoal da segurança não agiu isoladamento, tiveram cobertura da gerência do restaurante.

Ismael Mateus, conselheiro do Presidente da República, disse que o caso de racismo contra o Simão Hossi é mais um dos milhares de casos que ocorrem no país, numa publicação na sua página do Facebook e que foi partilhada no Jornal O País.

Segundo o também jornalista, sempre se disse que há racismo em Angola, mas prefere-se fingir que nada se passa. Em determinadas empresas, explicou, ter a cor da pele mais clara é um passaporte para a vaga ou para um atendimento diferenciado.

Acontece nas nossas barbas e enquanto não tomarmos consciência disso, as coisas vão continuar. Um dia, quando alguém perder a cabeça e acontecer um incidente grave, ninguém se irá lembrar das pessoas que andam há anos a dizer que precisamos de discutir o racismo contra a grande maioria negra.

Reacção do restaurante

Já o restaurante, por via de uma nota, fez saber que Simão Hóssi se havia apresentando no espaço trajado de maneira desadequada e inaceitável (calças sujas, camisola rasgada, chinelos em péssimas condições e aparente falta de higiene). De acordo com a nota, enquanto se dirigia aos lavabos, abordou a empregada de limpeza que estranhou a forma como o mesmo se apresentava, tendo o mesmo questionado se não achava que estava mal vestido para ser cliente.

No regresso dos lavabos, esclarece, o jornalista foi abordado pelo chefe da segurança que o convidou a abandonar o recinto, gerando uma situação desagradável e de grande desconforto, sobretudo para os clientes.

Já no exterior do estabelecimento, verificando-se a presença de forças policiais que casualmente se encontravam em serviço de patrulha naquele perímetro, foram os mesmos chamados a intervir pelo próprio cidadão Simão Hossi, sob alegação de ter sido agredido, o que foi desconsiderado pelos agentes policiais, por não haver quaisquer vestígios de agressão e por a sua alegação se mostrar infundada”, refere a nota.

Internautas divididos em relação ao caso

Numa publicação no Facebook, Joaquim Lunda, amigo de Sonjamba, disse não perceber como tal acto foi possível:

…várias vezes eu já estive neste local em que mencionas, de calções e chinelos e ainda hoje estive lá de calções e chinelos, mas tive um bom tratamento pelos funcionários…será que discutiste com algum funcionário, coisa parecida? Acho mesmo muito estranho isso que acabas de mencionar.

Miguel Quimbenze lança culpa para Sonjamba, sob pretexto de que este tratou mal a funcionária do restaurante:
Mano tu provocaste esta situação, trataste mal a funcionária auxiliar de limpeza, os seguranças apareceram em função da informação dada pela Sra. Penso que a pergunta que lhe foi feita pela Sra era normal.
Enquanto isso, André Mfumu Kivuandinga, internauta que acompanhou o caso, incentiva Hossi a avançar com o caso até as últimas consequências:
Mano tens que ir mesmo adiante com isso. Não se pode tolerar injustiças ou discriminações. Estou consigo, se precisar de minha ajuda, sabes onde me localizar. Aliás, posso fazer um trabalho sobre isso.

Outra reacção positiva veio do locutar Salgueiro Vincente, que partilhou na sua conta do Facebook uma acção de apoio cultural em relação ao caso, cuja acto devia compreender uma manifestação até próximo ao restaurante Café Del Mar, bem como debate, canto e poesia.

Acção de apoio ao activista e jornalista, Hossi Sonjamba | Foto usada com permissão

Sobre tal evento, Elísio dos Santos Magalhães, voltou a sublinhar a necessidade de ver um país unido contra o racismo:

Estamos todos ligados nesta causa o racismo divisionismo, tribalismo ,perconceito racial basts chega, chega, chega ,chega Angola sem racismo todos somos um só! E muitos felizes ,chega de perconceito de cor da pele chega, um dia eu ja sofri isto ando muito magoado pelo os meus ex sogros e depois de vinte anos tiraram-me a mulher por eu ser mistiço abaixo o racismo nas familias ja destruiram muitas familias em Angola chega chega basta…

No dia do acto (09.09), os manifestantes partilharam algumas fotos da concentração de fronte ao restaurante:

Concentração de fronte ao restaurante | Foto usada com permissão - Hossi Sonjamba (09.08.2018)

Concentração de fronte ao restaurante | Foto usada com permissão – Hossi Sonjamba (09.09.2018)

Concentração de fronte ao restaurante | Foto usada com permissão - Hossi Sonjamba (09.08.2018)

Concentração de fronte ao restaurante | Foto usada com permissão – Hossi Sonjamba (09.09.2018)

Entretanto, o caso já está em investigação por parte das autoridades de justiça de Angola, conforme afirmou o próprio Hossi Sonjamba na sua conta Facebook.

Inicie uma conversa

Colaboradores, favor realizar Entrar »

Por uma boa conversa...

  • Por favor, trate as outras pessoas com respeito. Trate como deseja ser tratado. Comentários que contenham mensagens de ódio, linguagem inadequada ou ataques pessoais não serão aprovados. Seja razoável.