Ceticismo em torno da investigação do abuso de crianças é censurado na China

    • Pais reunidos fora da creche

RBY

    • . Foto do site estatal

people.cn

O abuso de crianças em uma creche particular em Pequim e a censura de notícias e comentários em torno do caso fizeram muitos chineses criticarem as autoridades e desconfiarem das conclusões da polícia.

No dia 22 de novembro, oito pais fizeram um boletim de ocorrência na polícia de Pequim, dizendo que os seus filhos foram feridos por funcionários de uma escola infantil, que é dirigida por um grupo educacional chamado Red-Yellow-Blue (RYB).

De acordo com a imprensa local, os pais encontraram marcas de agulhas nos corpos das crianças. Algumas delas disseram que foram obrigadas pelos professores a engolir um pó branco, e uma criança alegou que foram colocadas em uma sala onde os seus corpos foram inspecionados por um médico nu. Supostamente, pelo menos três crianças tiveram como punição ficarem nuas durante a aula, e uma delas mostrou sinais físicos que podem indicar abuso sexual.

A notícia ferveu nas redes sociais. Nos dias 22 e 23 de novembro, um grupo de pais furiosos se reuniu em frente à escola, exigindo explicações e acesso aos vídeos de vigilância. A polícia, então, começou a investigação.

Logo veio a censura. O assunto do momento de repente desapareceu das redes sociais. Internautas, no entanto, continuaram discutindo o caso em canais mais privados, como fóruns, muitos preocupados com o fato de a polícia não investigar a fundo o tradicional grupo educacional.

Esta não é a primeira vez que o grupo enfrenta acusações de abuso infantil. Em 2015, marcas de agulhas foram encontradas nos corpos de, pelo menos, 17 crianças em outra creche dirigida pelo grupo RYB, na província de Jill. Quatro professores foram presos em seguida.

Censura, acusações “falsas” e boatos

No dia 25 de novembro, a polícia do distrito de Chaoyang, em Pequim, anunciou no Weibo (uma espécie de Twitter da China) que uma professora de 22 anos foi presa , assim como um morador de Pequim que comentou na rede social sobre a ligação do chefe da enfermaria com um clã militar estabelecido na capital.

Em 28 de novembro, a polícia distrital também anunciou que não havia evidências de drogas sendo oferecidas às crianças ou abuso sexual. Segundo a polícia, os pais admitiram terem feito acusações falsas ou instruído os seus filhos a darem falso testemunho sobre ficarem nus como forma de punição ou consumo de drogas.

No entanto, a polícia também disse que o disco rígido que continha as gravações de segurança da creche estava estragado porque o aparelho foi plugado e desplugado frequentemente, por um longo período de tempo. A polícia conseguiu recuperar 113 horas de imagens gravadas.

Abaixo das atualizações da polícia postadas no Weibo, a maioria dos comentários elogiou o trabalho das autoridades e condenou aqueles que espalharam boatos.

Mesmo com a censura, comentários críticos sobre a investigação continuaram a aparecer no Weibo. Um internauta resumiu a mensagem do relatório da polícia em alguns pontos principais.

Charge de um disco rígido se enforcando. Imagem viral do Weibo.

1.孩子没事,2.老师脾气不好,3.视频坏了,4.家长无聊,借孩子搞事情,5.网友都被孩子和家长骗了,6.网友不要造谣,不然抓人。

1. As crianças estão bem; 2. Professores são loucos [eles deram injeções nas crianças porque elas se recusaram a dormir]; 3. O disco rígido da câmera de vigilância está estragado; 4. Pais estão usando os filhos para criar confusão; 5. Os internautas e as crianças foram manipulados pelos pais; 6. Internautas devem parar de espalhar boatos ou serão presos.

A China criou a lei do boato online em 2013. Internautas que espalharem informações não verificadas serão presos e acusados de espalharem boatos se o seu post for visto 5000 vezes ou compartilhado 500 vezes. A pena máxima é de três anos.

Outro usuário do Weibo questionou o relatório da polícia e a censura dos comentários online:

新浪刚推出来的朝阳分局的调查结果,立马点进去看,所以这调查结果就是一切都是家长造谣,抹黑,无中生有?呵呵,多么可怕,或许这就是社会,背后的势力或许是我们不能想象的。
短短几分钟,评论上千,全是质问,一眨眼功夫 ,评论全部被删,关闭评论!!这样就会没有质疑的声音了吗?
警方带走了能证明事实全部监控,一句监控视频损坏,就当没有发生过任何事?真是可笑至极。

A Sina acabou de dar esclarecimentos sobre a investigação da polícia distrital de Chaoyang. Eu li o relatório imediatamente. Então o resultado da investigação é que o abuso foi fabricado pelos pais? Isso é assustador. Talvez isso seja um reflexo da nossa sociedade, em que um poder invisível impera?
Em questão de poucos minutos, milhares de perguntas sugiram abaixo da nota da polícia. Então, em uma questão de segundos, todos os comentários desapareceram e a função de comentários foi bloqueada.
A crítica pode ser apagada assim?
A polícia levou toda a filmagem dos equipamentos de vigilância. Só dizendo que o disco rígido está estragado, pode concluir que nada aconteceu? Isso é uma piada.

Para evidenciar as inconsistências no relatório da polícia, “disco rígido estragado” virou uma hashtag nas redes sociais.

Um texto técnico apontou que todas as câmeras de vigilância de escolas infantis estavam conectadas a um sistema central, que alertaria as autoridades governamentais de educação se as câmeras de vigilância não estivessem funcionando. Mas o artigo foi censurado.

Outro texto censurado reuniu todos os relatórios disponíveis em outros casos não relacionados, nos quais as investigações policiais informaram que as câmeras de vigilância, ou os seus discos rígidos, não estavam funcionando na cena do suposto crime. Inevitavelmente, a maioria dos casos acabou com a mesma conclusão de que não havia evidências que confirmassem as acusações.

Internautas fizeram piada com o disco rígido e uma charge mostrando um deles se enforcando foi amplamente compartilhada (veja a imagem acima).

O negócio da educação está crescendo, mas quem está cuidando das crianças?

O bem-estar das crianças na escola se tornou um assunto em alta na China, onde uma onda de casos de abuso revelou uma regulamentação e supervisão falhas na indústria das creches e educação infantil.

Desta vez, a escola envolvida é dirigida pela RYB, um grupo de educação privada de elite que entrou na bolsa dos EUA em setembro de 2017. O seu público-alvo são as famílias de classe média emergentes da China, e as suas mensalidades chegam a 5.000 yuan (750 dólares americanos) para educação bilíngue. No entanto, o incidente revela que gastar todo esse dinheiro não garante que as crianças estejam a salvo de abusos.

Uma grande quantia foi injetada na indústria de educação da China. A projeção é de que seja um mercado de 348 bilhões de yuan em 2020, com um crescimento médio anual de 20%, depois que a China aboliu a política do filho único em 2015. No entanto, uma expansão rápida levou a alguns atalhos – como contratar professores sem licença – para aumentar o lucro ou esticar o orçamento.

RYB é um caso típico do setor em expansão. Fundado em 1999, o grupo abriu a sua primeira creche particular em 2001 e construiu uma reputação como o instituto de educação líder, que oferece educação primária da melhor qualidade. Depois de conseguir a licença para franquia em 2013, até junho de 2017, o grupo tinha 853 centros de educação e recreação e 225 berçários, e planejava abrir no futuro 724 instituições pré-escolares por todo o país. A receita do RBY vem, principalmente, das taxas de franquia.

Parece que nenhum dos problemas da indústria estão recebendo muita atenção após o último caso, visto que o foco está nos indivíduos envolvidos. Como o Twitter @wyjaaa comentou sarcasticamente:

Disco rígido estragado, sem fitas de vigilância. A professora sem licença confessou o crime e o segurança admitiu [que tinha tirado o sistema de vigilância da tomada]. Os pais param de reclamar. Aqueles que espalharam os boatos logo aparecerão na televisão chinesa confessando a sua culpa. Parabéns, o preço das ações do RYB se recuperou e a população de classe mais baixa [inclusive a professora sem licença e o segurança] continua a celebrar a próspera era…

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