
Ilustração: Tactical Tech, com elementos visuais de Yiorgos Bagakis e Alessandro Cripsta, usada sob permissão
Esta publicação faz parte da série de destaque de abril de 2026 da Global Voices, intitulada “Perspectivas humanas sobre a IA”. A série apresenta reflexões sobre como a IA vem sendo utilizada nos países do Sul Global, como seu uso e sua implementação estão afetando diferentes comunidades, o que esse experimento de IA poderia significar para futuras gerações, entre outros aspectos. Você pode apoiar esta cobertura fazendo uma doação aqui.
Este artigo foi escrito por Safa Ghnaim em colaboração com o Goethe-Institut Brazil e publicado originalmente no DataDetoxKit.org. Uma versão editada é republicada pela Global Voices sob acordo de parceria.
Durante uma eleição, pode parecer que os candidatos políticos estão por toda parte, o tempo todo, falando sobre todos os assuntos que são importantes para você. Mas como os políticos e outros influenciadores parecem saber quais mensagens você quer ver e ouvir — e até mesmo quando e onde quer recebê-las?
O smartphone, na palma da sua mão, às vezes pode parecer uma bola de cristal. Mas, assim como um vidente charlatão usa pistas para dizer exatamente o que você quer ouvir, os partidos políticos podem utilizar seus dados pessoais para direcioná-lo às mensagens com maior probabilidade de persuadi-lo. Dados pessoais têm sido utilizados em eleições em todo o mundo, incluindo Chile, Geórgia, Índia, Itália, Quênia, Malásia, Nigéria e Estados Unidos.
Atualmente, as empresas estão testando ferramentas de inteligência artificial (IA) para ajudar as campanhas a tornar suas mensagens e estratégias de direcionamento de público ainda mais eficazes, convincentes e persistentes — tanto para os candidatos de quem você gosta quanto para aqueles de quem não gosta.
Quem tem o poder de influenciar?
Estamos constantemente recebendo mensagens, estímulos e sugestões de forma direta ou indireta, dentro e fora do ambiente digital, capazes de mudar nossas opiniões, comportamentos e ações. Na verdade, a influência pode ser exercida de muitas maneiras e por diferentes meios; isso não é necessariamente ruim, mas é importante estar ciente disso.
Embora o termo “influenciador” seja geralmente usado para se referir a personalidades das redes sociais com muitos seguidores (como no Instagram, TikTok e YouTube), muitas outras pessoas também têm o poder de influenciar. Entre elas também estão as figuras públicas, como celebridades e apresentadores de notícias. Seu poder de influência pode ser percebido na escolha de palavras, roupas e imagens, bem como na seleção das histórias às quais dão prioridade e atenção.
A “influência” não ocorre apenas nas redes sociais como Instagram e TikTok, mas também por meio da exibição dos principais resultados em sites de busca como o Google, nos sistemas de recomendação que promovem o próximo vídeo ou na publicação e no destaque de determinadas manchetes pelos meios de comunicação. Essas mensagens também podem ser divulgadas em aplicativos de mensagens populares, como o WhatsApp.
Um político também é um tipo de “influenciador” que pode exercer grande persuasão mesmo quando está concorrendo a um cargo público. As campanhas políticas investem grandes quantias de dinheiro para alcançar potenciais eleitores, tanto que existe toda uma indústria dedicada a ajudar a identificar e direcionar mensagens a grupos específicos. Na verdade, há mais de 500 empresas registradas que atuam no campo da persuasão política impulsionada pela tecnologia. Isso significa que elas vendem seus serviços a políticos e campanhas políticas, alegando que podem ajudar a influenciar as suas opiniões — e o seu voto.
As empresas que atuam na área de persuasão política atualmente estão testando o uso de IA em larga escala para descobrir como tornar os métodos tradicionais de influência mais baratos, rápidos, convincentes e automatizados. Isso torna esse trabalho ainda mais obscuro, menos transparente e mais difícil de regulamentar. A atividade está em plena expansão, e as recompensas financeiras são enormes.
Uso de IA para chamar a atenção das pessoas
Talvez não seja novidade que as mesmas técnicas usadas para vender produtos também sejam utilizadas para conquistar seu voto. Mas você pode se surpreender com a quantidade de métodos digitais empregados para isso, pois são difíceis de identificar. As informações podem ser obtidas a partir dos termos digitados em mecanismos de busca, como o Google ou o Bing. Com ferramentas como o ChatGPT, até mesmo termos de busca mais avançados e detalhados podem revelar mais informações sobre o seu perfil e o que é importante para você.
As empresas que atuam na influência política vêm desenvolvendo novas técnicas para persuadir eleitores, arrecadar fundos e incentivar a participação nas eleições. Agora, com a IA, há muito mais possibilidades de otimização. A chamada “indústria da influência” dispõe de inúmeros métodos e ferramentas de persuasão baseados em inteligência artificial, que se tornam cada vez mais eficazes e numerosos, alcançando milhões de pessoas. Ao conhecer alguns desses métodos e se familiarizar com eles, você poderá compreender melhor como a indústria da influência realiza esse trabalho em larga escala.
Os métodos de persuasão política mudam e evoluem à medida que as tecnologias avançam. A seguir, apresentamos apenas alguns deles para você conhecer.
A IA pode ser usada para criar conteúdos direcionados especificamente a você: Em vez de alcançar grandes grupos de pessoas com base em características em comum, as ferramentas baseadas em IA permitem microdirecionar indivíduos automaticamente, de forma mais relevante e próxima da realidade de cada pessoa.
A IA pode ser usada para realizar tarefas que antes cabiam aos partidos políticos: Algumas empresas oferecem às legendas políticas ferramentas de IA capazes de escrever discursos para candidatos, mensagens destinadas aos eleitores e até mesmo estratégias completas de campanha. Embora isso possa tornar a produção de mensagens mais “eficiente”, também suscita algumas preocupações, como a necessidade de supervisão humana dessas novas ferramentas e o potencial de interferência.
A IA pode ser usada para fazer um candidato parecer mais atraente, jovem e divertido: Os “avatares digitais” de um candidato podem ser criados a partir de uma pequena amostra de sua voz e imagem. Depois, podem ser usados para produzir mensagens personalizadas que se dirigem a um potencial eleitor pelo nome ou em seu idioma ou dialeto nativo. Essas mensagens geradas por IA podem ser tão convincentes que acabam confundindo os limites entre o político “real” e seu avatar.
O que você acha do uso de IA por políticos para realizar seu trabalho e alcançar os eleitores? Que tipo de informação ou identificação você gostaria de ter para saber o que é real e o que foi produzido por IA?
Ações de influênc(IA)
O uso de plataformas de redes sociais e ferramentas de IA por candidatos políticos ou por suas equipes durante as campanhas não é apenas uma visão futurista — já é uma prática atual. O ano de 2024 foi importante para a política, com muitas eleições ao redor do mundo, e o uso de IA em campanhas políticas ganhou destaque nos noticiários. Nesse ano, diversos casos chamaram a atenção.
Um candidato ao Congresso dos Estados Unidos publicou em suas redes sociais um vídeo que dava a impressão de que o falecido Dr. Martin Luther King Jr. o apoiava — mas era uma clonagem de voz gerada por IA, o que provocou muitas críticas. Imagens geradas por IA da cantora americana Taylor Swift, que manifestavam apoio à candidatura de Donald Trump à presidência, foram divulgadas por ele próprio. Em outro caso, nos Estados Unidos, uma chamada telefônica automatizada gerada por IA que se fazia passar pelo presidente Joe Biden aconselhou milhares de eleitores a não votar nas eleições primárias. O episódio causou grande confusão até que se revelou ser uma notícia falsa.
Embora o político paquistanês Imran Khan estivesse preso e impedido de concorrer a um cargo público, sua equipe de campanha conseguiu usar imagens e áudios antigos, com clonagem de voz, para criar a impressão de que ele estava fazendo discursos. Os vídeos foram identificados como “voz de IA autorizada”. Não está claro se ele participou da elaboração ou revisão dos discursos. Nas eleições de 2024 na Indonésia, o uso de avatares digitais gerados por IA ganhou destaque, especialmente como forma de chamar a atenção dos eleitores mais jovens. O candidato Prabowo Subianto utilizou um avatar digital bonitinho nas redes sociais, incluindo o TikTok, e conseguiu reformular completamente sua imagem pública e vencer a eleição presidencial. Você jamais imaginaria que ele havia sido acusado de cometer graves violações de direitos humanos.
Esses são apenas alguns exemplos de como a IA está moldando a influência política ao redor do mundo. O político da sua região já usou IA em alguma campanha?
Não se deixe enganar pelas aparências
Só porque um conteúdo criado por IA generativa parece e soa realista, isso não significa que seja verdadeiro. Se você encontrar algo on-line ou no seu feed que seja chocante, estranho ou especialmente fora do comum, é possível que ferramentas de IA generativa tenham sido usadas para criá-lo ou adulterá-lo, mesmo que isso seja difícil de perceber a olho nu.
Imagens, vídeos e textos on-line que despertam emoções intensas, como medo, repulsa, admiração, raiva e ansiedade têm maior probabilidade de viralizar. Esse tipo de conteúdo, por despertar emoções fortes, também é uma maneira eficaz de obter cliques e disseminar desinformação — e as ferramentas de IA podem ajudar a ampliar ainda mais sua viralização. Preste atenção às suas próprias reações e encare esses sentimentos como um sinal de que você precisa de mais tempo para verificar se o que está vendo ou lendo é legítimo. Por exemplo, se você assistir a um vídeo de um candidato político que faz ou diz algo que desperte sua desconfiança, procure mais informações para verificar se o conteúdo é autêntico ou se já foi identificado como desinformação gerada por IA.
Você pode recorrer a organizações internacionais, como a International Fact-Checking Network (Rede Internacional para Verificação de Fatos), para descobrir quais fontes têm cuidado especial ao verificar as informações que publicam. Na página de signatários, procure pelo seu país para verificar quais fontes estão na lista.







