Moçambique: Mulheres, capulanas e violência policial marcam protestos em Nampula

Uma pilha de capulanas. Foto tirada por Wyte Shot. Accra, Gana. Via Pexels. Licença Pexels.

Dias antes, do dia 7 de abril , data em que se comemora o dia da Mulher Moçambicana, na cidade de Nampula , foi alvo de protestos sociais de mulheres que reclamaram o fato de não terem recebido capulanas prometidas , pela primeira-dama da República de Moçambique, Gueta Chapo para celebrem a data. Este cenário relembra protestos políticos após as eleições gerais de 2024 em que manifestantes saíram às ruas, mulheres — muitas envoltas em capulanas — e, destacaram-se como protagonistas visíveis, num cenário de crescente confronto com a polícia, bloqueios de estrada como recentemente, aconteceu em Anchilo , depois da primeira-dama ter informado que não tinha capulanas por oferta e que culminou com dois feridos por balas.

Capulana: de símbolo cultural uma ferramenta de resistência

Em Moçambique, a capulana é um elemento central da identidade cultural , frequentemente associada à vida quotidiana das mulheres. No entanto, durante os protestos em Nampula, este tecido ganhou novos significados. Além de vestuário, foi utilizado como proteção improvisada contra o gás lacrimogêneo e tornou-se um símbolo visual de unidade e resistência que já tem, ligações anteriores a participação das mulheres na luta de liberação nacional associada assim, a imagem de Josina Machel .

A utilização de objetos culturais em contextos de protesto não é nova. Estudos em contextos africanos mostram como tecidos e símbolos tradicionais podem assumir papéis políticos em momentos de crise e mobilização social. A presença de mulheres nos protestos reflecte uma tendência crescente de participação feminina na esfera cívica em Moçambique.

Organizações como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch têm riscos documentados enfrentados por manifestantes, incluindo uso excessivo da força, detenções arbitrárias e intimidação — com impactos diferenciados sobre mulheres e jovens. Uma ativista que pediu para não ser identificada referenciou o seguinte: “As mulheres já não são apenas observadoras. São parte do movimento”, afirmou uma ativista local.

Um contexto nacional de tensão

Os recentes acontecimentos em Nampula, estão de alguma forma, ligados a um contexto mais amplo de instabilidade após as eleições gerais de 2024 em que de acordo com a Plataforma Decide , milhares de pessoas foram detidas e centenas morreram em episódios relacionados. Além disso, organizações como o Centro de Integridade Pública são alertadas para irregularidades eleitorais e desafios à transparência.

Espaço digital e visibilidade dos protestos

Grande parte da documentação dos protestos em Nampula circulada em plataformas digitais. Isso mostra como as redes sociais se tornaram ferramentas centrais para denunciar abusos, mobilizar cidadãos, compartilhar evidências em tempo real. No entanto, organizações como a Access Now e a CIPESA têm alertado para riscos de restrições ao acesso à internet em contextos de tensão política.

Apesar de não ter decorrido restrições ao acesso à internet, com a aprovação recente do Decreto n.º 48/2025, de 16 de Dezembro de 2025 , que estabelece mecanismos de controlo e possíveis bloqueios do acesso às redes de telecomunicações no país, surge uma nova proposta relativa ao bloqueio de vias públicas, durante os protestos ou manifestações populares, que poderá ser penalizada, de acordo com a proposta do novo Código de Estrada , pelo Governo e colocada à disposição da sociedade para comentários.

Dentro desse contexto, algumas linhas de análise e questões podem ser exploradas como pontos de reflexão e algumas delas são: Como o uso das redes sociais está a redefinir o ativismo digital e a documentação cidadã em Moçambique, especialmente em contextos de protesto e tensão política? Qual a possibilidade de crescimento de formas alternativas de mobilização digital, descentralização da informação e uso de plataformas criptografadas em cenários de maior controle estatal e que comparações possam ser feitas, com outros países africanos, onde bloqueios de internet foram usados ​​durante protestos, eleições ou crises políticas?

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