
Crianças brincam em uma rua de Damasco, na Síria, devastada pela guerra. Foto sem data por Baraa Obied via Pexels.
Por Angela Joyce
A dura realidade das guerras que assolam o mundo, como o atual conflito na Ucrânia, o confronto entre Irã, Israel e Estados Unidos e a devastadora crise humanitária em Gaza, revela que elas nunca se restringem aos campos de batalha, mas alcançam cada estrada, cada pátio de escola e cada lar.
As notícias sobre as guerras dominam as manchetes, mas, longe dos holofotes, são pessoas comuns, especialmente as crianças, que mais sofrem. Um exemplo é o caso de uma criança de 21 meses em Gaza, devolvida à família com ferimentos que, segundo os médicos, eram compatíveis com tortura. Meninos e meninas que vivem em zonas de conflito sofrem consequências emocionais e físicas, além de impactos duradouros no desenvolvimento.
Embora a comunidade internacional costume contabilizar os impactos visíveis, como vidas perdidas e escolas destruídas, as marcas deixadas pelo trauma, pelo deslocamento e pela perda da confiança podem acompanhar, por toda a vida, as crianças que crescem em zonas de guerra.
Trauma: principal indicador de dificuldades ao longo da vida para crianças em zonas de conflito
O trauma é um dos problemas mais graves enfrentados por crianças que vivem em zonas de guerra. Embora algumas lesões físicas cicatrizem ou possam ser tratadas, as feridas invisíveis do trauma psicológico podem durar por toda a vida.
Infelizmente, a saúde mental costuma ser negligenciada, especialmente em áreas afetadas pela violência. Compreender e lidar com o trauma é fundamental para ajudar essas crianças a se recuperarem e reconstruírem suas vidas.
Cada vez mais, especialistas defendem que o trauma psicológico causado pela guerra deve ser reconhecido e tratado como uma crise global de saúde pública.
Uma das formas pelas quais profissionais que trabalham com crianças, como os serviços de proteção à infância, avaliam a situação de uma criança que passa a receber acompanhamento e definem a melhor forma de oferecer apoio é por meio da avaliação de Experiências Adversas na Infância (ACEs, na sigla em inglês).
A avaliação inclui perguntas como: “Você já ficou sem acesso a comida, água ou moradia? Você já perdeu um ou mais responsáveis por doença, prisão ou divórcio? Já sofreu violência por parte de um membro da família? Já teve algum contato sexual indesejado com um adulto?”
São dez perguntas ao todo. Elas servem para avaliar o nível de trauma vivenciado pela criança e são atualmente utilizadas por assistentes sociais e psicólogos nos Estados Unidos.
Pessoas que passaram por três ou mais dessas experiências correm um risco muito maior de desenvolver transtorno de estresse pós-traumático, depressão, ansiedade, tentativas de suicídio, uso de drogas e diversas doenças físicas, incluindo câncer, hipertensão e insuficiência cardíaca.
Nos Estados Unidos, uma em cada dez pessoas vivencia três ou mais experiências adversas na infância. Esse número é muito menor do que o estimado para crianças que vivem em zonas de conflito ativo ao redor do mundo: cerca de uma em cada seis é exposta, simultaneamente, a múltiplas experiências adversas.
Quando tantas crianças ao redor do mundo são expostas a traumas repetidos, o impacto psicológico da guerra deixa de ser apenas uma preocupação humanitária. Torna-se uma questão de saúde global que moldará as sociedades por décadas.
Estatísticas atuais sobre crianças em zonas de conflito no mundo
Crianças em todo o mundo continuam a enfrentar as consequências devastadoras da guerra.
Na Ucrânia, milhares de crianças foram mortas ou feridas, e milhões foram deslocadas desde o início da guerra, enquanto as famílias lutam para reconstruir a vida cotidiana em meio à incerteza constante.
Na Ásia Ocidental, a recente guerra envolvendo o Irã agravou uma situação regional que já era frágil. Relatórios indicam que centenas de crianças morreram ou ficaram feridas durante os bombardeios, enquanto os ataques a escolas e áreas civis suscitam sérias preocupações humanitárias.
Em Gaza, James Elder, porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, na sigla em inglês), descreveu o território como “o lugar mais perigoso do mundo para uma criança“. Dezenas de milhares de crianças foram mortas ou feridas, enquanto centenas de milhares tiveram que deixar suas casas e agora enfrentam graves condições humanitárias.
No Sudão, milhões de crianças também foram deslocadas pelo conflito em curso, deixando muitas sem acesso regular a alimentos, educação, assistência médica ou abrigo seguro.
Para as crianças que vivem em meio a tais crises, a guerra não é algo distante que acompanham pela televisão, mas uma realidade que as cerca e determina todos os aspectos de suas vidas.
Processo de recuperação
A boa notícia é que as crianças são resilientes.
Alguns fatores ajudam a amenizar as consequências do trauma. O mais importante é a presença constante de um responsável que ofereça apoio e tranquilidade.
Nós, adultos, temos uma oportunidade única de reduzir e até reverter os efeitos das adversidades enfrentadas por crianças e jovens.
Infelizmente, muitas crianças em zonas de conflito perderam um ou ambos os principais responsáveis por seus cuidados, tornando-as ainda mais vulneráveis aos efeitos de experiências adversas.
A resiliência de crianças que vivenciaram traumas nem sempre implica o retorno à normalidade ou a recuperação completa.
Após vivenciar uma série de experiências adversas como perder a casa, os pertences e entes queridos, sofrer ferimentos e muito mais, é difícil definir o que é “normal”.
Muitos especialistas em trauma que trabalham com crianças acreditam que é mais realista esperar que passem por um processo conhecido como “busca de sentido“, no qual os indivíduos encontram significado em suas experiências, compreendem como elas os influenciam e descobrem como seguir em frente.
Esse processo geralmente requer apoio psicológico, um ambiente estável e redes comunitárias que permitam às crianças começarem a reconstruir o senso de segurança e pertencimento.
A responsabilidade coletiva de proteger a infância
Seja ao refletirmos sobre as guerras que ocorrem atualmente ou ao considerarmos como prevenir conflitos futuros, uma coisa permanece clara: as crianças precisam ser protegidas do peso esmagador da violência.
Uma geração que cresce em meio à guerra não é necessariamente uma geração perdida. Com estabilidade, apoio e oportunidades, essas crianças podem se tornar líderes, inovadoras e defensoras de um mundo mais pacífico. Mas não conseguirão fazer isso sozinhas.
A responsabilidade da comunidade internacional não é apenas reconstruir a infraestrutura, mas também ajudar as crianças a recuperar o senso de segurança, estabilidade e esperança.
Essa responsabilidade recai tanto sobre governos e instituições internacionais quanto sobre educadores, profissionais da área humanitária, líderes comunitários e cidadãos comuns.
Apoiar iniciativas que ofereçam educação, assistência psicológica e ambientes estáveis para crianças afetadas por conflitos, defender políticas de proteção aos civis e acompanhar as crises humanitárias são formas de ajudar a garantir que as crianças não tenham que enfrentar sozinhas o peso da guerra.
O verdadeiro custo dos conflitos não se mede apenas pelos edifícios destruídos ou territórios perdidos. Mede-se pelas infâncias marcadas pela violência e a responsabilidade coletiva de proteger as gerações que crescem à sombra desses conflitos.







