Trabalhadores migrantes nos Estados do Golfo: Eles vieram para construir cidades, não para serem enterrados nelas

Migrant workers on a building in Bur Dubai, UAE, March 21, 2023.

Trabalhadores migrantes construindo um edifício em Bur, Dubai, UAE, 21 de março de 2023. Foto por Gaurav Dhwaj Khadka na Wikimedia Commons (CC-SA 4.0 ).

Por Noorudeen Veetykadan

Em março deste ano, a vida no Golfo passou a parecer frágil, fora do normal.

Novos alertas interrompiam eventos comuns. Rumores se espalhavam mais rápido que as confirmações. Mísseis, drones, espaço aéreo fechado e tensões políticas de repente se tornaram parte das conversas do dia a dia. Para muitas famílias que vivem na região, especialmente os migrantes longe de seus países de origem, a incerteza se assentou silenciosamente no cotidiano.

Até rotinas simples mudaram. As pessoas saíam de casa com mais cautela. Pais seguiam as notícias mais de perto. Ligações para casa se tornaram mais longas, suaves, pesadas.

Da janela do nosso apartamento em Doha, eu costumava ver trabalhadores se reunindo em pequenos grupos depois de longas jornadas de trabalho. Homens com seus uniformes desbotados, rostos marcados pelo calor, poeira e exaustão. Alguns sentavam nas calçadas. Alguns se encostavam silenciosamente nos muros das construções. Outros descansavam sentados no meio-fio antes de voltarem às suas moradias superlotadas, após passarem o dia construindo uma cidade a qual eles nunca pertencerão.

Minha filha mais nova, Maryam, os observava cuidadosamente.

“Eles não estão cansados depois de trabalharem o dia todo?”, ela perguntou.

“Eles sentem falta de suas famílias?”

Depois, após escutar fragmentos de conversas sobre conflito e incerteza, suas perguntas se tornaram mais profundas.

“Estes trabalhadores, seguranças, entregadores de comida estão seguros do lado de fora?”

Eu nem sempre tinha as respostas.

Mas as perguntas dela ficaram na minha mente.

As crianças notam o que os adultos costumam ignorar. Elas veem o entregador esperando no semáforo. A faxineira varrendo corredores vazios em edifícios silenciosos. O segurança parado sozinho do lado de fora mesmo depois da meia-noite. O mundo delas ainda não foi dividido entre categorias de importância e invisibilidade.

E talvez seja por isso que as perguntas dela me inquietavam.

Porque por trás de cada capacete de construção, de cada bicicleta de entregador, de todo uniforme de manutenção no Golfo, geralmente existe uma outra história acontecendo em algum outro lugar longe daqui. Como a de uma mãe esperando por uma ligação, uma esposa carregando todas as responsabilidades sozinha, crianças recebendo o amor dos pais através de uma chamada de vídeo, e a família inteira dependendo da transferência de dinheiro.

A maioria dos trabalhadores migrantes não deixa seus países buscando uma vida de luxo. Eles buscam alívio.

Alívio de dívidas.

Do desemprego.

Da fome.

Do lento sufoco da pobreza.

Eles vêm de vilas e cidades pequenas de toda a Ásia e da África onde as oportunidades são escassas e a sobrevivência demanda sacrifício. Eles trazem consigo fotos em suas carteiras gastas e promessas em seus corações cansados. Alguns sonham em educar uma filha. Alguns esperam construir uma casa modesta. Outros simplesmente querem que seus pais possam envelhecer sem insegurança financeira.

Eles vêm ao Golfo para construir.

Para levantar torres desde a areia.

Para abrir estradas como fitas pelo deserto.

Para limpar as janelas de prédios de vidro que tocam as nuvens.

Para dar conforto aos lares dos outros enquanto vivem longe dos seus.

Mas muitos nunca imaginaram que também poderiam se tornar vítimas de conflitos que nunca foram seus.

Em bombardeios recentes na região, muitos trabalhadores migrantes estavam entre os que perderam a vida. Alguns morreram em silêncio, sem manchetes grandes o suficiente para contarem suas histórias. Poucas linhas nos noticiários. Uma breve menção às baixas. E o mundo seguiu em frente.

Mas em algum lugar distante, famílias não seguiram adiante. Uma mãe entrou em colapso ao saber que seu filho, que cruzou oceanos para ajudá-la, agora retornaria em um caixão. Uma esposa olhando fixamente para o telefone em silêncio, esperando por uma chamada que nunca mais virá. Crianças muito novas para entender geopolítica, de repente, aprenderam o significado de uma ausência permanente.

Para muitas famílias migrantes, o trabalhador não é apenas um provedor. Ele é a ponte que mantém toda a família fora da pobreza. Um salário, frequentemente, alimenta pais, educa irmãos, paga dívidas, sustenta crianças e famílias inteiras espalhadas por vários continentes.

Quando este trabalhador morre, não é somente uma vida que se vai.

Mas várias.

E o que faz a tragédia ainda mais pesada é a ironia cruel.

Estes trabalhadores vieram para construir cidades, não para serem enterrados nelas.

Eles vieram trazendo ferramentas, não armas.

Sonhos, não perigo.

Esperança, não ódio.

Ainda assim, em momentos de conflito, eles se tornam as pessoas mais vulneráveis sob o mesmo céu. Quando mísseis cruzam fronteiras e drones dominam o noticiário, nações poderosas falam a língua da estratégia. Trabalhadores comuns falam a língua da sobrevivência. Entregadores ainda trafegam por ruas inseguras. Trabalhadores da construção ainda escalam andaimes sob céus inquietos. Seguranças ainda ficam parados durante longos turnos enquanto seus familiares em casa assistem aterrorizados às notícias e imaginam se seus entes queridos estão a salvo.

O mundo costuma falar sobre guerras através de mapas, cálculos militares e discursos políticos. Mas pessoas comuns experienciam o conflito de maneira diferente.

O conflito chega através do sono interrompido.

De telefonemas ansiosos.

De uma mãe atualizando as notícias com as mãos tremendo.

De crianças fazendo perguntas que os adultos não sabem responder.

De trabalhadores fingindo calma enquanto carregam um medo invisível.

A tragédia do conflito moderno não é limitada aos campos de batalha. Ela viaja muito além das fronteiras. Ela entra silenciosamente nas cozinhas, nas salas de aula, nos locais de trabalho e nas conversas de família. Até em lugares não tocados diretamente pela violência se começa a sentir o peso emocional da incerteza.

E nestes momentos, os trabalhadores migrantes se tornam as testemunhas mais invisíveis de todas.

Eles constroem cidades às quais nunca pertencerão totalmente.

Eles fortalecem economias que talvez nunca saibam seus nomes.

Eles passam sua juventude construindo torres, estradas, aeroportos, shoppings e estádios, enquanto suas famílias continuam vivendo a milhares de quilômetros de distância.

Ainda assim, quando a incerteza chega, eles continuam sendo os mais expostos, mais frágeis economicamente, emocionalmente isolados e socialmente invisíveis.

As perguntas de Maryam me lembraram algo simples, mas desconfortável: a empatia geralmente sobrevive mais naturalmente nas crianças do que nos adultos. Adultos se distraem com política, nacionalidade, religião e ideologia. Crianças ainda veem seres humanos primeiro.

Um trabalhador não é uma nacionalidade para elas.

Um entregador não é alguém no fundo do cenário.

Um segurança não é invisível.

Eles são simplesmente pessoas que podem estar cansadas, solitárias, preocupadas ou com medo.

Talvez o mundo fosse diferente se mais de nós aprendêssemos a ver as pessoas como as crianças as veem.

Não pelos passaportes.

Não por suas profissões.

Não pelo poder.

Mas através de uma vulnerabilidade humana compartilhada.

Os céus sobre o Golfo podem eventualmente se aquietar de novo. Novos ciclos continuarão. As manchetes mudarão. Mas em algum lugar, há lares que nunca irão se recuperar totalmente desses conflitos.

Lares onde crianças crescerão com fotografias no lugar de pais.

Lares onde pais idosos continuarão esperando pelos passos de quem nunca retornará.

Lares onde sonhos não concluídos ficarão silenciosamente ao lado de malas fechadas.

Então, isso também é um tributo…

Aos trabalhadores que deixaram seus lares carregando esperança em malas pequenas e responsabilidade dentro de corações pesados.

Aos homens que misturaram concreto debaixo do sol escaldante, que limparam torres nas quais eles nunca poderiam se dar ao luxo de entrar, entregaram comida enquanto perdiam as refeições junto às suas famílias e passavam sua juventude inteira construindo cidades para os outros.

Para aqueles que cruzaram os mares para construir vidas, mas voltaram apenas como memória.

Que eles nunca sejam reduzidos à estatísticas enterradas sob manchetes políticas.

Que o seu trabalho seja lembrado com dignidade.

Que o seu sacrifício seja contado com humanidade.

E que o mundo nunca se esqueça desta verdade dolorosa:

Eles vieram para construir cidades, não para serem enterrados nelas.

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