
Imagem feita no Canva Pro por Ameya Nagarajan para Global Voices, usada sob permissão.
“ De onde você REALMENTE é ?” é uma série de podcasts da Global Voices que surgiu a partir de um painel na cúpula da Global Voices em dezembro de 2024, no Nepal, onde membros da comunidade contaram suas experiências ao lidar com as percepções de outras pessoas sobre as diversas e complexas histórias de suas origens. Em cada episódio, convidamos nossos participantes a refletir sobre as suposições que estão por trás da pergunta: “Mas de onde você realmente é ?” e como respondem.
O podcast é apresentado por Akwe Amosu, que trabalha no setor de direitos humanos, após uma carreira anterior em jornalismo; ele também é coach e poeta.
A transcrição deste episódio foi editada para maior clareza.
Akwe Amosu (AA): Olá e bem-vindos ao “De onde você realmente é?”, um podcast que explora identidades. Eu sou Akwe Amosu e hoje converso com Emma Lewis. Bem-vinda, Emma.
Emma Lewis (EL): Muito obrigada. É um prazer estar aqui.
AA: Emma, por que as pessoas te fazem essa pergunta?
EL: Depende de onde eu estiver, claro. As pessoas me fazem essa pergunta porque ouvem minha voz e associam a pergunta ao meu sotaque. E na Jamaica, onde moro, parece bem britânico. Então, as pessoas brincam comigo sobre o meu “britânico” e tudo mais, apesar de eu viver aqui há 38 anos. E quando conto isso, a reação é um pouco diferente. Elas dizem algo como: “Ah, então você é jamaicana”. Essa é uma reação comum. Acho que as pessoas me perguntam porque ficam um pouco confusas. Elas têm a impressão de que eu moro aqui há muito tempo. Mas eu não sou jamaicana. Acho que ainda tenho essa aura britânica ao meu redor.
AA: Você parece ser da Jamaica, mas não tem o sotaque daqui.
EL: Certo. É isso aí.
AA: Como você se sente ao ser questionada sobre isso? E como se sente em relação às pessoas que querem entender isso?
EL: Acho que às vezes entendo que perguntem: “De onde você é?”, e às vezes as pessoas perguntam porque realmente não sabem ou só para terem algo a dizer. Não me incomoda. Em outras palavras, não me importo. Não me incomoda porque é uma forma de conhecer as pessoas. Embora, curiosamente, eu raramente faça essa pergunta a outras pessoas. Simplesmente não a faço. Creio que não tem importância.
AA: Gostaria de saber mais sobre isso, mas antes de perguntar, adoraria saber qual é a sua resposta preferida. Por exemplo, se alguém pergunta: “De onde você é?” ou “De onde você é de verdade? Você não parece ser jamaicana”, o que você gosta de responder?
EL: Gosto de dizer que nasci em Londres, no Reino Unido, e que moro aqui há… quase quarenta anos. Então, sou britânica e jamaicana em muitos aspectos. Digo isso e entendem porque talvez nossa ilha seja peculiar, mas com a migração para dentro e fora da ilha, há muitas pessoas que podem dizer que têm um pé em cada país, ou que têm família aqui e ali, e assim por diante. Então não é um conceito difícil para elas entenderem.
AA: O que você acha que se passa na mente de alguém que quer fazer essa pergunta? O que está por trás da pergunta?
EL: Acho que, como eu disse, é uma forma de te conhecer. E acho que também depende do contexto, mas creio que seja uma forma de saber de onde você vem para que possam continuar a conversa em um certo nível, se é que você me entende. Então, às vezes, não é só conversa fiada. Sinto que há um propósito específico.
AA: E você se sente completamente confortável com isso? Quer dizer, você se sente bem com a investigação até descobrir a sua origem?
EL: Sim, na verdade não me incomoda. Devo dizer que, como acontece com tanta frequência, já me acostumei. No começo, era meio desconcertante porque as pessoas pensavam que eu era turista. E se eu for a um resort turístico, obviamente, pareço turista para todos, então é outra história. E isso é muito estranho e desconfortável às vezes.

Emma à beira-mar em Black River. Foto de Neville Lewis. Usada sob permissão.
AA: Então, voltando àquele ponto que você mencionou sobre não se fazer essa pergunta, por que você acha que isso acontece?
EL: Porque sinto que isso não define necessariamente quem são as pessoas. Quer dizer, é parte de quem são, mas talvez não seja sempre o mais importante. E eu também quero conhecer todos em um nível diferente. Então, tento descobrir mais sobre quem são. Não gosto de fazer essa pergunta porque converso de forma interpessoal, não de uma pessoa inglesa para outra jamaicana ou de uma inglesa para outra americana. Eu converso de ser humano para ser humano.
AA: Sim, faz todo o sentido. Mas tenho uma curiosidade: quando você quer saber algo sobre alguém que conhece e quer aprender mais, qual é, para você, a maneira certa de fazer essa pergunta?
EL: Ah, perguntar algo relacionado à experiência deles. Por exemplo, eu poderia dizer: “Então você morou em Roma por um tempo” ou algo assim, porque o assunto surgiria na conversa, em vez de perguntar logo de cara: “De onde você é?”. E, novamente, acho que as pessoas podem se sentir um pouco desconfortáveis quando essa pergunta é feita diretamente. Então, se o assunto surge na conversa e nas experiências de cada um de nós, eu tento encaixar a pergunta e descobrir mais dessa forma.
AA: Então, o importante é o que eles fazem e não de onde vêm.
EL: Sim, sim, exatamente. E onde eles estão agora. Quer dizer, eles podem estar aqui na Jamaica, e eu preferiria saber o que estão fazendo aqui e agora, em vez de voltar ao passado e dizer: “Ah, bem, minha avó era inglesa”, ou algo do tipo. E é assim que eu encaro a situação.
AA: Há algo que você gostaria de acrescentar sobre toda essa questão de identidade?
EL: Sim. Quer dizer, para mim, identidade tem a ver, em parte, com o lugar. Bem, meu marido e eu tivemos uma experiência interessante no ano passado, quando visitamos o Reino Unido e ficamos por lá por um bom tempo. Ele nasceu aqui na Jamaica, mas nós dois crescemos na Inglaterra. E foi bem interessante porque, estranhamente, eu não me sentia tão inglesa quando estava lá; tampouco me sentia tão britânica quando estava aqui. Aliás, uma pessoa me perguntou: “Ah, você é australiana?” E eu respondi que não. E, de novo, estavam tentando identificar meu sotaque, que as pessoas aqui acham bem britânico, mas, quando vou para lá, percebem algo diferente.
AA: Você pode ouvir algo diferente.
EL: Sim. Foi bem estranho. E começamos a perceber, então, que nosso coração, quer dizer, nossa identidade, é onde está o nosso coração. E meu coração está na Jamaica. Vivo aqui há tanto tempo, no mesmo lugar. E é um conforto. É um conforto total. Mas a outra parte de mim ainda é britânica. E quando vou para lá, absorvo todas essas pequenas coisas culturais e me sinto muito feliz. Escrevi em meu artigo que existem duas partes: o coração tem duas metades. Para mim, meu coração está metade na Inglaterra e metade na Jamaica e, provavelmente, sempre será assim. Onde quer que eu more, será a mesma coisa, acho. Simples assim.
AA: Obrigada, Emma.
EL: De nada.






