
Imagem por Ibrahim Kizza para a Associação para a Comunicação Progressiva, (APC), usada sob permissão.
Este artigo faz parte da série “Não pergunte para a IA, pergunte a um colega”, uma colaboração entre a Global Voices, a Associação para a Comunicação Progressiva e a GenderIT. A série tem como objetivo reforçar a importância da divulgação do conhecimento entre as pessoas, como vem sendo feito há décadas. Você pode acompanhar a série em APC.org, GenderIT.org e globalvoices.org.
Desde o início da empolgação em torno da IA, depois que a OpenAI disponibilizou seu ChatGPT para bilhões de usuários ao redor do mundo em novembro de 2022 (na época, sem nenhum tipo de regulanentação, estruturas éticas ou mecanismos de proteção), já ouvimos inúmeras previsões sobre como a IA mudaria tudo para os humanos: o trabalho humano seria substituído; a criatividade humana não seria mais necessária; a conexão humana seria muito melhor com chatbots; os governos iriam aplicar algoritmos rigorosos de IA que eliminariam o viés humano nos serviços sociais; teríamos a ciência inovadora disponível em apenas alguns anos e muito mais.
Após mais de três anos, como o surgimento da IA generativa mudou para nós? Ela trouxe perturbações desnecessárias e danosas ao nosso sistema de educação, deu a alguns programadores mais ferramentas para escrever códigos e tem sido usada quase sem supervisão humana na guerra.
Estamos em 2026 e as empresas de IA ainda não têm modelos de negócios lucrativos nem conseguem oferecer propostas significativas sobre como usar seus produtos. Ainda assim, as pessoas ligadas à IA — CEOs, diretores financeiros, diretores de pesquisa e até mesmo diretores de ética — continuam nos vendendo sua visão mágica e antropomorfizada de seus modelos. Notem que a maioria dessas empresas é ligada à “geração anterior” de oligarcas da tecnologia: a Google está desenvolvendo o Gemini; a Microsoft investiu na Antrophic e na Open AI; a Meta, do Mark Zuckerberg, tem a sua própria Llama; o Elon Musk não apenas comprou e destruiu o Twitter como também tem a famosa IA Grok, usada para produção de pornografia; e o Jeff Bezos está investindo não em uma mas em sete empresas de IA, incluindo a Perplexity AI e a start-up de IA holandesa Toloka.
As narrativas de IA das empresas de tecnologia são intencionalmente enganosas
Pesquisadores e jornalistas já trabalharam para mostrar como as narrativas em torno da IA são construídas e como isso configura não apenas a nossa ansiedade e interpretações equivocadas sobre a IA, mas também o pânico dos governos quanto a “ficar para trás na corrida da IA”.
Quando a OpenAI introduziu o ChatGPT, ele foi descrito como “treinado” em um vasto “corpus” de dados, com uma “rede neural” capaz de gerar “linguagem natural”. Esta terminologia, embora tecnicamente fundamentada, também enquadrou o sistema em termos humanizados, sugerindo algo mais do que mera inteligência “artificial”.
Ao mesmo tempo, os erros do sistema foram classificados como “alucinações“, um termo que evoca a imaginação ou o pensamento mágico e também pertence ao campo humano. Mas isso não são alucinações, são erros reais que modelos construídos com probabilidade estatística cometem. E eles cometem muitos desses erros: alguns pesquisadores estimam que os modelos estão errados em 25 a 30% dos casos.
Apesar disso, o efeito combinado dessa terminologia, a empolgação em torno dela e as próprias preocupações de Altman, amplamente divulgadas, sobre a IA avançada moldaram a percepção do público em direção diferente. Juntos, contribuem para um entendimento da IA generativa como algo dinâmico, expansivo e difícil de controlar, às vezes até mesmo descrita como uma ameaça potencial à existência da humanidade.
Outro exemplo de humanização dos chatbots vem da Anthropic
Recentemente, a Anthropic, empresa de IA fundada por ex-pesquisadores da OpenAI, lançou um documento intitulado Constituição do Claude. Nele, como a acadêmica de Direito Luisa Jarovsky observa, a Anthropic se baseia bastante no enquadramento antropomórfico, o que pode ser lido como um relato pretensioso, controverso e legalmente questionável sobre a natureza e o papel social dos sistemas de IA.
Por exemplo, o documento estabelece:”Nós incentivamos o Claude a abordar sua própria existência com curiosidade e abertura, em vez de abordá-la com base na visão humana ou em concepções anteriores à IA”.
Essa linguagem apresenta o modelo como uma entidade quase consciente, capaz de refletir e “abordar sobre sua própria existência”.
Sob a perspectiva de governança, afirma Jarovsky, a Constituição do Claude representa um desenvolvimento preocupante. Ameaça subordinar valores humanos, normas legais e direitos ao atribuir um status moral e filosófico indevido aos sistemas de IA.
Por fim, os próprios modelos de LLM são desenvolvidos para produzir textos em primeira pessoa, informais e em tom de conversa, enquanto as vozes sintéticas são feitas para reproduzir o som humano. Inclusive, diz Caleb Sponheim, um ex-neurocientista computacional, esses sistemas produzem respostas cheias de amenidades desnecessárias, concordâncias bajuladoras e linguagem antropomorfizadora que prioriza o engajamento em vez da utilidade.
Além disso, uma das autoras do documento, a filósofa da Anthropic, Dra. Amanda Askell, disse que ela estava “construindo a personalidade do Claude”.
A IA não é sua amiga
Emily Bender, professora de linguística na Universidade de Washington, e Nanna Inie, professora assistente na Universidade de TI de Copenhague, declaram: “A IA não é sua amiga. Nem é uma tutora inteligente, uma ouvinte empática ou uma assistente útil. Ela não pode ‘inventar fatos’ e não comete ‘erros’.”Ela não responde às suas perguntas de verdade”.
Ela não tem “criatividade”, não “pensa” nem “conecta”. Ela só consegue repetir o que já foi treinada e o que foi produzido por humanos. A IA generativa não escreve, não desenha nem pinta: ela gera padrões estatisticamente próximos; trata-se de sistemas de automação probabilística, o que os torna fundamentalmente diferentes da cognição ou da criatividade humanas. Sim, eles provavelmente podem ser ferramentas úteis em algumas ocupações.
Mas, para entender isso, nós temos que mudar a linguagem em torno dos modelos de IA e a própria tecnologia. Os jornalistas e a mídia precisam parar de repetir o roteiro de marketing das empresas de tecnologia, e os políticos precisam parar de priorizar a urgência imaginária em vez da segurança e dos direitos humanos.
Então, a resposta à questão: “Por que é vital valorizar a criatividade e a conexão humana na era da IA?” é que não existe outra criatividade ou conexão além da humana, não importa o que as empresas de tecnologia estejam tentando nos vender.
Ibrahim Kizza é um artista visual, designer e ilustrador cujo trabalho explora a conexão, a identidade e a cultura humana. Suas ilustrações são caracterizadas por composições marcantes, cores expressivas e um forte foco narrativo, frequentemente voltado à experiência de vida de pessoas negras. Trabalhando por meio de espaços editoriais e digitais, ele cria arte e ilustrações que equilibram simplicidade e profundidade emocional, usando contraste e simbolismo para comunicar ideias complexas com clareza. Para esse projeto, Ibrahim desenvolve uma resposta visual à tensão entre a conexão humana e a artificial, reforçando o valor da experiência vivida e da criatividade coletiva em um mundo cada vez mais automatizado. Além da ilustração, seus interesses incluem design, esportes e filmes, que continuam a informar sua linguagem visual e narrativa.







