
Por Paula Vilar para a APC. Usado com permissão.
Por Mariana Tamari
Este artigo faz parte da série “Não pergunte à IA, pergunte a um par” — uma colaboração entre o Global Voices, a Association for Progressive Communications e o GenderIT. A série visa reafirmar a importância do compartilhamento de conhecimento entre as pessoas, tal como tem sido feito há décadas. Você pode acompanhar a série em APC.org, GenderIT.org e globalvoices.org. Ela também integra a série de destaque do Global Voices de abril de 2026, “Perspectivas humanas sobre a IA”. Você pode apoiar esta cobertura fazendo uma doação aqui.
A pergunta “O que pode ser feito para criar e promover uma abordagem de direitos humanos para a inteligência artificial?” nos leva, em geral, a circular por campos abstratos e universalistas de princípios éticos, marcos regulatórios e da inovação per se. Mas, quando essa séria da APC e Global Voices me trouxe o desafio de construir um artigo para respondê-la a partir das minhas experiências enquanto pesquisadora, achei que era preciso ancorá-la em realidades concretas, onde a inteligência artificial, a automação e a digitalização já estão sendo implantadas nos territórios, e seus impactos são sentidos por corpos, biomas e comunidades específicas.
Foi essa necessidade de materializar o debate que me conduziu ao caminho da pesquisa-ação que construí, em co-autoria com Joana Varon, na Coding Rights, para o Projeto Tramas, da Coalizão Feminista Decolonial pela Justiça Digital e Ambiental. Ao longo dessa investigação, compreendemos que o questionamento sobre uma IA orientada por direitos humanos deixa de ser especulativo e passa a ser urgente e situado. Quem controla essas ferramentas, a serviço de quem elas operam e quais existências elas apagam?
Quando voltamos nosso olhar para as tendências e narrativas que moldam hoje a grande indústria do agronegócio, somos imediatamente transportadas para uma realidade que se assemelha a um distópico roteiro de ficção científica. Longe da imagem tradicional do agricultor com uma enxada nas mãos, trabalhando em comunhão com a terra, o campo gerido pelas gigantes do setor é formado por milhares de hectares praticamente sem pessoas e sem diversidade agrícola.
O agronegócio digitalizado é masculino e patriarcal, em contraposição ao imaginário da agricultura tradicional e familiar, em que a reprodução da vida era cuidadosa e delicadamente cultivada pela Natureza. Ele é hiperconectado, asséptico e dominado por maquinários pesados que lembram naves espaciais ou tanques de guerra. Esse é o agronegócio orquestrado pela simbiose predatória entre as maiores empresas de tecnologia do mundo, os gigantescos conglomerados do agronegócio e os vultosos capitais do mercado financeiro. Trata-se de uma aliança poderosa entre as Big Tech, as Big Agro e o Big Money.
Desvendando falsas narrativas
Ao investigar os impactos brutais da digitalização da monocultura brasileira e o emaranhado econômico e de poder dentro dela, surgem questionamentos críticos a esse modelo. Diante de um cenário onde as inserções da tecnologia digital, da inteligência artificial e da conectividade se impõem de maneira tão inevitável e enquanto força de expulsão territorial, o que pode e deve ser feito para criar e promover uma abordagem dos avanços da tecnologia digital e da IA que sejam ancoradas na defesa de direitos?
Para lidar com essa contradição é necessário expor a máscara sobre o discurso dessa indústria. A narrativa hegemônica, vendida em grandes feiras e eventos de tecnologia do setor, exalta as chamadas “agricultura de precisão” ou a “digitalização da agricultura”. Enxames de sensores espalhados pela terra, monitoramento remoto, automação de frotas e complexos modelos preditivos baseados em inteligência artificial são comercializados como soluções tecnológicas mágicas para todos os desastres provocados pela própria monocultura, da degradação acelerada do solo, às infestações de pragas derivadas da falta de diversidade até a escassez de mão de obra.
No universo paralelo criado pelo setor corporativo, o iminente colapso climático simplesmente não existe. O futuro prometido é sempre de controle e fartura, garantido pela tecnologia digital e pela precisão que apenas a IA pode oferecer. A grande promessa da aliança entre as Big Agro com as Big Tech é de que vastas extensões de terra monocultivadas fiquem ao alcance de um toque na tela do celular, com colheitadeiras e tratores colossais sendo operados remotamente, convertendo a gestão da vida em um frio jogo de videogame.
É exatamente neste ponto do discurso que reside a fratura mais grave contra direitos fundamentais. A digitalização irrestrita consolida um modelo onde não prevalece mais a presença humana em contato íntimo, direto e respeitoso com a terra. O conhecimento empírico do território, lapidado ao longo de séculos e repassado de geração em geração por comunidades tradicionais, é sumariamente descartado como obsoleto. Presenciamos uma mutação ontológica avassaladora, em que nossas relações de trabalho, nossos laços comerciais, nossos afetos e as nossas interações com a natureza alteram-se estruturalmente e passam a se resumir a uma quantidade imensa e humanamente ingerenciável de dados.
Toda a complexidade dos biomas e daqueles que os habitam é extraída, mastigada e processada em algoritmos de inteligência artificial e armazenados em uma obscura ”nuvem” tecnológica. Essa infraestrutura invisível dita todas as soluções e caminhos para maximizar os negócios da monocultura. O efeito dessa digitalização generalizada é o apagamento brutal das existências consideradas indesejadas pelo capital. Nessa narrativa, as comunidades tradicionais e os históricos conflitos por terra praticamente desaparecem sob as imagens distantes de satélite. Aldeias, vilas ribeirinhas ou territórios quilombolas não são computados pelos monitores dos operadores remotos. Por serem invisíveis aos algoritmos treinados para enxergar apenas commodities, essas populações são ignoradas pelo poder público, que se deslumbra com a modernidade e delega sua governança ao digital.
Impactos nas realidades vividas
Essa invisibilidade programada é materializada em violência e espoliação nas áreas rurais do país, como no caso da região do Cerrado do Matopiba no Brasil (área que compreende parte do estados brasileiros do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que atualmente constitui a principal fronteira de expansão agrícola do país. Ali, a chegada das “inovações” tecnológicas e das narrativas do agro digitalizado ditam o tom violento da expulsão que se soma a conflitos agrários históricos.
O caso da comunidade tradicional da Gleba Tauá, no norte do Tocantins, exemplifica o peso dessa aliança (dados da região do Matopiba e da Gleba Tauá foram obtidos em colaboração de pesquisa com Antônia Laudeci Oliveira Moraes). Famílias que ocupam o território há quase um século vêem seus lares sendo estrangulados pelas novas tecnologias de expulsão manipuladas por grileiros. A digitalização da gestão fundiária, impulsionada por mecanismos auto declaratórios, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), institucionaliza a grilagem digital. Na região do Matopiba, a digitalização dos registros via CAR sobrepõe cadastros irregulares que geram uma disputa fundiária digital, invisibilizando as ocupações tradicionais no território e abrindo caminho para o desmatamento massivo do Cerrado. Como satélites e sistemas de validação automatizada são incapazes de distinguir entre a posse histórica de comunidades tradicionais e a invasão recente promovida pelo desmatamento ilegal, grandes latifundiários utilizam a plataforma digital para registrar terras públicas e coletivas como suas propriedades privadas. O resultado é a formação de um “Brasil Fictício“, no qual o cadastro algorítmico gera ativos financeiros no mercado, legitimando o cerco às comunidades e encobrindo o desmatamento.
E, quando o apagamento promovido pelas bases de dados não é suficiente para demover as comunidades de seus direitos, a tecnologia revela sua face armada. Drones comercializados sob o pretexto da sustentabilidade e precisão têm sido utilizados como instrumentos de terror. Aparelhos não tripulados rondam as propriedades agroecológicas de forma intimidadora, pulverizando nuvens de agrotóxicos sobre as casas, fontes de água e hortas dos pequenos produtores. Os camponeses são sobrevoados por essas ferramentas tecnológicas que disseminam medo, encurralando e expulsando.
Como integrar tecnologias sem violar direitos?
Quando vemos a imposição desse modelo codificado como progresso inquestionável sobre os territórios, somos levadas a nos perguntar como a tecnologia digital, baseada em dados e na Inteligência Artificial, pode ser integrada ao campo de maneira a respeitar e garantir direitos?
O primeiro passo é abandonar a falácia da neutralidade tecnológica e algorítmica e questionar a arquitetura de poder subjacente aos sistemas. O cerne do debate sobre os direitos humanos na era digital deve estar focado em desvelar para que serve e, principalmente, quem controla essas ferramentas. Uma IA que respeita direitos e promove avanços para a humanidade deve ser pensada com transparência e governança descentralizada. Encobrir processos de grilagem, espalhar medo, desumanizar as relações ou otimizar o extermínio socioambiental não devem ser ações admissíveis. As infraestruturas tecnológicas públicas devem ser redesenhadas para incorporar a participação coletiva, garantindo que sejam utilizadas para mapear e proteger as territorialidades sociais e a diversidade, e não para apagá-las sob um manto verde padronizado via satélite.
Além disso, forjar uma abordagem baseada em direitos exige a desconstrução dos tecnosolucionismos. Precisamos compreender que as respostas da sustentabilidade da vida e a defesa da biodiversidade não virão das Big Tech ou das Big Agro. Estas devem estar sob constante escrutínio do poder público e da sociedade civil. Temos que reconhecer a validade superior das tecnologias regenerativas, agroecológicas e ancestrais[9]. O agronegócio altamente tecnológico marginaliza essas práticas, mas são as roças tradicionais, as densas redes de troca entre comunidades, de sementes crioulas e a leitura ancestral do clima pelos camponeses que efetivamente cumprem a função de preservar a justiça socioambiental e de garantir a segurança alimentar. Soluções como frotas de drones ou predições calcadas em big data são violentas e, na maioria das vezes, servem apenas para garantir o lucro do agronegócio em detrimento da manutenção da diversidade e da vida.
O caminho para uma IA centrada no ser humano exige que a humanidade recupere a essência da cooperação. A escritora feminista de ficção científica Ursula K. Le Guin, em sua “Teoria da Bolsa da Ficção”, fala como a grande tecnologia de sobrevivência não deveria ser a arma que fere, conquista e pulveriza veneno do céu, mas sim o recipiente humano que coleta sementes, tece redes de cuidado mútuo e preserva conhecimentos. É preciso abandonar a lógica da dominação patriarcal fria e distópica para que a IA não seja o algoz do nosso futuro. O desenvolvimento de uma IA que garanta direitos e preserve a vida precisa estar submetido de forma inegociável à justiça socioambiental, assumindo a premissa ancestral de que na grande teia tecnológica da existência não somos manipuladores isolados no topo de uma cadeia, como pregava Nêgo Bispo, o pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos. Temos que ter sempre em mente que “a terra dá, a terra quer”.
Algumas referências deste artigo não puderam ser incorporadas ao site do Global Voices. Você pode consultá-las no site da Association for Progressive Communication.
Mariana Tamari é jornalista e pesquisadora na intersecção entre política, feminismos, tecnologia e justiça socioambiental. Sócia-fundadora da Agência Mira, uma consultoria de comunicação política estratégica, anteriormente atuou como co-diretora executiva da Coding Rights, onde liderou pesquisas, projetos, operações institucionais e equipe multidisciplinar. Antes disso, ocupou cargos como oficial de programa regional na ARTIGO 19 Brasil, Fundação Rosa Luxemburgo e Cisco Networking Academy. Foi também diretora de parcerias na Mapeo – IA e Big Data. Com formação em jornalismo, trabalhou como repórter na Folha de S.Paulo e Agência Reuters de Notícias e colaborou com inúmeros veículos de comunicação no Brasil, como Revista A Rede, Brasil de Fato, Carta Capital entre outros.
Paula Villar nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, no ano de 1992. Se formou em psicologia e fez uma pós-graduação em psicologia hospitalar. Apesar de desenhar desde muito cedo, foi somente na pandemia de COVID-19 que Paula resolveu trocar de profissão, se dedicando assim as artes digitais e o ativismo. Além disso, também trabalha com outros materiais, como tinta à óleo, desenhos realistas de lápis e tinta nanquim.






