Morre compositor, dramaturgo e satirista político libanês, Ziad Rahbani: A voz de uma geração se cala

Ziad Rahbani (centro), no palco, com seu antigo amigo e colaborador, Joseph Sakr (à esquerda), que morreu em 1997. Captura de um vídeo do Youtube do canal Al Jadeed News. Uso justo.

Ziad Rahbani, icônico compositor, dramaturgo e satirista político libanês, morreu nesse sábado, dia 16 de julho, em Beirute, deixando a região em ruínas e uma geração em luto. Mais do que uma figura cultural, Ziad era um símbolo de rebelião, inteligência e crítica — um artista com músicas, peças e uma personalidade que inspiraram milhões de pessoas no mundo todo.

Nascido em 1956, filho da lendária cantora libanesa Fairuz e do compositor Assi Rahbani, Ziad criou um espaço singular tanto na música quanto na política. Desde jovem, ele desafiou convenções, tornando-se uma voz da esquerda árabe que questionava a autoridade, a religião, o sectarismo e os absurdos do poder.

As peças teatrais, as músicas e os esquetes de rádio de Rahbani não eram apenas entretenimento; ensinavam, provocavam e desafiavam. Para muitos, Ziad Rahbani foi o primeiro contato com a política em um país e uma região assolados por guerras, ocupações e violência sectarista. Por meio de sarcasmo e sinceridade, entre acordes de piano e jogos de palavras, Rahbani introduziu gerações aos ideais esquerdistas de rebelião, crítica e imaginação coletiva.

Milhões ao redor do mundo árabe ainda conseguem recitar diálogos inteiros das peças de Rahbani, letras de suas músicas ou citações de seus programas de rádio, frequentemente gravados por ele mesmo, que ainda são comentários relevantes até hoje.

Seu arquivo artístico, tanto na música quanto no teatro, é rico, poderoso e à frente do seu tempo, combinando jazz, bossa nova e funk com estilos musicais da tradição árabe, além de letras provocativas, criando um estilo único — chamado de “jazz oriental” — que influenciou muitos que vieram depois dele.

O legado de Rahbani continua sendo uma prova viva das reviravoltas políticas, sociais e emocionais das últimas cinco décadas, com todas as suas contradições.

Hoje, ele nos deixa em um momento em que a região está mais colonizada, reprimida e fragmentada do que nunca, e ainda mais distante do que ele sonhava como um jovem comunista na década de 1970, dedicado à liberação palestina e às revoluções proletárias.

Sua perda arrasa uma geração que passou por inúmeros ciclos de transformações e  derrotas políticas, violência e alienação, muitas vezes com a música e as peças de Rahbani como pano de fundo de suas esperanças e desilusões.

No dia 28 de julho, uma multidão acompanhou seu sepultamento, marchando em sua homenagem pelo distrito de Hamra, em Beirute, no bairro onde viveu, trabalhou e passou seus últimos momentos, e que um dia incorporou o espírito da resistência e da esquerda:

Essa é uma homenagem a um homem simples que carregou o peso de sonhos, derrotas e contradições de uma geração inteira com astúcia, cinismo e inovação.

Enquanto os enlutados da região relembram a figura imponente na música, na política e no teatro, seus sentimentos voltam-se à sua mãe, a inigualável Fairuz. Sua voz — provavelmente a mais conhecida no mundo árabe — nas músicas escritas por seu filho permanecerá um dos sons mais bonitos da música árabe.

Adeus, Ziad. Agradecemos pela música, pelas palavras, pelas risadas e por dar voz à nossa juventude.

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