Da dignidade menstrual à segurança digital: como o feminismo popular está redefinindo a justiça de gênero

Meninas segurando cartazes pedindo justiça menstrual.

Meninas segurando cartazes pedindo justiça menstrual em uma escola na Nigéria. Imagem de Pexels. Uso livre.

Por Clarisse Sih e Bibbi Abruzzini, Forus

Em uma escola de ensino médio no sul da Nigéria, uma adolescente menstruou durante o horário de aula. Ela não tinha absorventes. A professora a mandou para casa.

Para Udoka Anita Ikebua, na época, uma jovem recém-formada designada por esta escola ao serviço nacional, aquele momento se tornou um divisor de águas. “No século XXI”, ela recorda ter pensado: “Como uma garota ainda não tem acesso a algo tão básico?”.

Foi assim que a iniciativa da Ikebua evoluiu para uma das vitórias mais significativas da justiça menstrual na Nigéria: em março de 2025, o estado de Bauchi aprovou o primeiro projeto de lei do país que estabelece bancos de absorventes higiênicos gratuitos em escolas públicas e centros de detenção — uma mudança da política de caridade para uma política baseada em direitos.

Transformações semelhantes estão ocorrendo em diversos continentes. No Paquistão, defensoras feministas estão reformulando a proteção social como infraestrutura democrática. No Paraguai, ativistas de direitos digitais estão contestando a normalização da violência de gênero.

Suas lutas podem parecer diferentes — falta de acesso a produtos de higiene menstrual, reforma política, abuso digital — mas estão unidas por uma verdade mais profunda: a justiça de gênero hoje é inseparável da segurança econômica, da segurança digital e da responsabilidade institucional.

Nigéria: Desde a doação de absorventes até a reforma das políticas públicas

Ikebua fundou o Project Pad A Girl após testemunhar, em primeira mão, como a menstruação interrompia a educação das meninas. Inicialmente, a solução parecia simples: distribuir absorventes. Mas ela logo percebeu os limites da caridade. “Se eu der um absorvente hoje”, explica ela, “o que acontece no próximo mês?”.

Meninas sem acesso a produtos sanitários durante a menstruação geralmente recorrem ao uso de lenço de papel, trapos, folhas ou simplesmente ficam em casa. Os professores às vezes mandavam as alunas embora se manchassem seus uniformes.

A solução inovadora surgiu com a criação de bancos de absorventes: caixas permanentes de suprimentos de emergência, localizadas nas escolas e abastecidas com produtos menstruais a cada período letivo. As meninas que começam a menstruar durante o horário escolar podem acessar discretamente os suprimentos no escritório de orientação e permanecer na sala de aula.

Alunas nigerianas segurando cartazes pedindo justiça menstrual.

Alunas nigerianas segurando cartazes que pedem justiça menstrual. Imagem de Pexels. Uso livre.

O impacto foi imediato: melhora na frequência, redução do estigma e sensação de segurança.

“A ideia de que, se vier minha menstruação, estarei segura — isso muda tudo”, diz Ikebua.

Um aspecto importante do Projeto Pad A Girl é a inclusão intencional de meninos em sessões de educação menstrual para acabar com o estigma. “Já que vocês não têm vergonha dos seus corpos”, diz Ikebua aos alunos do sexo masculino, “vocês não devem fazer uma garota ter vergonha do corpo dela”.

A legislação de Bauchi expandiu ainda mais esse modelo para incluir instalações correcionais, nas quais as mulheres encarceradas geralmente dependem de trapos e enfrentam riscos sérios de higiene. Ao introduzir absorventes higiênicos reutilizáveis projetados para durar meses, a iniciativa centra a dignidade e a sustentabilidade.

“Trata-se de serem vistas — mesmo por trás dos muros da prisão”, explica Ikebua.

No entanto, os desafios permanecem. Os produtos menstruais estão sujeitos a um imposto sobre o valor agregado, e os defensores estão pressionando para sua revogação. Mas o progresso é lento em uma legislatura dominada por homens. “Às vezes, quando você leva isso a eles, realmente não entendem”, admite Ikebua.

Paquistão: Proteção social como infraestrutura feminista

Para Marium Amjad Khan, gerente de programa da Aliança de Desenvolvimento do Paquistão, o feminismo não é uma teoria abstrata. Tudo começou ao ver como o futuro das meninas era decidido antes que elas tivessem chance de sonhar.

“Uma vez que você vê a desigualdade”, diz ela, “não pode deixar de vê-la”.

Trabalhando tanto em nível de base quanto no âmbito de políticas públicas, Khan concentra-se em temas como casamento infantil, violência doméstica, direitos à saúde sexual e reprodutiva e governança educacional. Mas, cada vez mais, ela enfatiza a proteção social — sistemas econômicos que determinam se as mulheres podem resistir às crises.

Escoteiras no Baluchistão, no Paquistão, seguram cartazes com os dizeres “Mãos fortes acabam com a violência contra mulheres e meninas”. Imagem do Flickr da ONU Mulheres

Escoteiras no Baluchistão, no Paquistão, seguram cartazes com os dizeres “Mãos fortes acabam com a violência contra mulheres e meninas”. Imagem do Flickr da ONU Mulheres (CC BY-NC-ND 2.0).

Sem segurança econômica, a participação democrática é frágil. As mulheres que sofrem com a pobreza, o não pagamento por serviços de assistência ou os impactos climáticos têm menos condições de se organizar, defender suas causas ou concorrer a cargos públicos. “As leis estão apenas começando”, explica Amjad. “A verdadeira mudança acontece quando as comunidades começam a acreditar que as meninas merecem a infância, que as mulheres merecem segurança.”

O Paquistão aprovou uma legislação importante nos últimos anos, mas a implementação continua desigual. Um desafio central, observa ela, é a conscientização: muitas comunidades não conhecem seus direitos. As alianças, portanto, são essenciais. A Aliança de Desenvolvimento do Paquistão reúne mais de 115 organizações da sociedade civil, amplificando as vozes coletivas nos espaços políticos. “Quando as comunidades falam juntas, os responsáveis pelas políticas ouvem”, postula Khan. “Eles têm que fazer isso.”

Em um contexto de redução do ambiente propício à sociedade civil, a solidariedade feminista global oferece um reforço.

“Quando o espaço diminui em um país, as redes internacionais nos lembram que não estamos sozinhas.”

Para Khan, a liderança feminista não consiste em ser a voz mais alta; trata-se de criar espaço para outras vozes.

Paraguai: Violência digital é real

Um workshop sobre violência digital no Paraguai.

Oficina sobre justiça transformativa e violência digital, ministrada por Alex Argüelles e Grecia Macías. Imagem via Wikimedia Commons. Licença CC BY-SA 4.0.

Enquanto a dignidade menstrual e a proteção social operam em espaços físicos, no Paraguai, a luta se desenrola on-line.

TEDIC, uma organização de direitos digitais, lidera a campanha “La violencia digital es real” (A violência digital é real) para contestar a ideia de que o abuso on-line é, de alguma forma, menos grave do que o dano offline.

“Uma mensagem na internet pode custar a alguém o seu trabalho, a sua segurança, a sua paz”, explica a líder do projeto, Jazmín Ruiz Díaz.

Durante anos, a internet foi tratada como neutra, um espaço que naturalmente promoveria a igualdade. Em vez disso, as desigualdades foram amplificadas.

O caso emblemático da TEDIC é o de Belén Whittingslow, uma estudante que acusou um influente professor universitário de assédio por meio de mensagens explícitas. O caso foi arquivado por se tratar de um “namoro”. Posteriormente, ela foi criminalizada e forçada a buscar refúgio no exterior. O professor não enfrentou consequências legais.

O caso ilustra a natureza da violência digital em camadas, como o poder, as instituições e as plataformas que se cruzam. Além dos ataques individuais, os ativistas enfrentaram assédio on-line coordenado que tentou silenciar sua defesa e desacreditar seu trabalho. As respostas institucionais e as limitações dos sistemas de moderação das plataformas complicaram ainda mais a situação, revelando como lacunas na responsabilização e na regulamentação podem permitir que o abuso on-line persista. Dessa forma, a experiência destaca que a violência digital não é apenas um ataque pessoal, mas também uma questão estrutural moldada por dinâmicas de poder social, respostas institucionais e governança de plataformas digitais.

Ruiz Díaz também observa que os perpetradores não são apenas trolls anônimos. Esses atores podem variar desde redes de assédio coordenadas e fábricas de trolls apoiadas pelo Estado até as próprias plataformas, nas quais sistemas de moderação opacos e preconceitos algorítmicos têm sido amplamente criticados. Investigações e relatos da mídia documentaram casos em que ataques on-line contra mulheres jornalistas, políticas e ativistas são amplificados por redes organizadas, enquanto as respostas das plataformas permanecem inconsistentes.

Por meio de sua iniciativa Free and Safe on the Internet, a TEDIC oferece treinamento em segurança digital para ativistas, comunidades LGBTQ+ e grupos da sociedade civil. O trabalho é lento, incremental — “um trabalho de formigas”, diz Ruiz Díaz — mas necessário.

Com o surgimento de novas tecnologias, surgem também novas formas de causar danos. Deepfakes, manipulação não consensual de imagens, tecnologias de vigilância e ferramentas de IA intensificaram os riscos.

“O ciberespaço não está separado da realidade”, enfatiza Ruiz Díaz. “A violência on-line tem efeitos reais em corpos e mentes.”

Sua abordagem requer uma ação coordenada de governos, empresas de tecnologia e sociedade civil. Mas também requer cuidado comunitário.

“A saída é coletiva”, diz ela, “e a alegria também é uma forma de resistência”.

Redefinindo a justiça de gênero

O que conecta uma caixa de absorventes em uma escola nigeriana, uma reunião de coalizão no Paquistão e um workshop sobre segurança digital no Paraguai? Cada uma delas aborda uma barreira estrutural que limita a participação das mulheres na educação, na governança e na vida pública digital.

A dignidade menstrual afeta a retenção escolar e as oportunidades econômicas de longo prazo. A proteção social molda a capacidade de ação política. A segurança digital determina quem pode falar livremente.

Essas não são preocupações periféricas. São pilares da democracia.

Desde as salas de aula até os tribunais e o ciberespaço, as feministas de base estão redefinindo a justiça de gênero — não como um reconhecimento simbólico, mas como uma transformação sistêmica.

E, assim, estão remodelando as instituições que governam a vida cotidiana.

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