
Marc Dennis, ‘Ele me ama, Ele não me ama’ (A transfiguração da Branca de Neve), 2019. Óleo sobre linho, 142 × 187 cm (56 × 74 in). Foto: cortesia do artista.
No verão passado, durante uma visita à casa de um amigo em Savannah, na Geórgia, minha atenção foi imediatamente capturada pelo que parecia ser a icônica Betty de Gerhard Richter — exceto que nessa versão, um gato estava na metade de um salto na composição. O trabalho do artista americano Marc Dennis se destacava pela sua estranheza sutil e provocação silenciosa em meio a uma coleção de arte contemporânea notável .
Aquele encontro despertou meu interesse pela atividade de Dennis. Nossa conversa surge desse momento de identificação, do encontro com um artista que, ao celebrar o ato de ver, nos lembra que a mais alta vocação da arte talvez seja despertar a admiração pelo dia a dia.
Nascido em 1974 em Danvers, Massachusetts, Marc Dennis se formou em Belas Artes pela Tyler Escola de Arte e Arquitetura, na Universidade de Temple, na Filadélfia, e obteve seu mestrado na Universidade do Texas, em Austin. Residindo em Manhattan, com um estúdio também em Montclair, Nova Jersey, Dennis construiu uma carreira diferenciada que une a superioridade clássica à perspicácia contemporânea. Suas pinturas já ganharam destaque nas revistas ArtNews, Art in America, Vulture e na revista Whitehot de Arte Contemporânea, entre outras. Em entrevistas anteriores, ele falou sobre como suas memórias de infância, viagens e o fascínio precoce pela natureza moldaram sua visão artística.
![Marc Dennis, “<em>Richter’s Cat</em>,” 2021, oil on linen, 34 x 27 inches [≈ 86 × 68 cm]. Picture courtesy of the artist.](https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2025/11/Marc-Dennis_Richters-Cat_2021_48-x-38-inches_oil-on-linen_72dpi.jpg)
Marc Dennis, ‘O gato de Richter,’ 2021. Óleo sobre linho, 86 × 68 cm (34 × 27 in). Foto: cortesia do artista.
As pinturas de Dennis são acessíveis, porém intimistas, convidando os espectadores a um diálogo entre a maestria e a alegria. No mundo da arte contemporânea, muitas vezes distante da emoção do público, sua admiração pela vida, natureza, animais e risadas cria obras que são ao mesmo tempo sofisticadas e profundamente humanas. Ao mesclar obras-primas com novos elementos extravagantes, ele oferece ao público um motivo para fazer uma pausa, sorrir e reimaginar o que a história da arte pode significar atualmente.
Nesta entrevista para a Global Voices, Dennis fala sobre sua última exposição, a evolução da sua série Flores, sua aproximação ao hiperrealismo e ao humor e como eventos atuais moldam sua criatividade e seus pensamentos sobre o sucesso e o papel da arte na era da IA.
Abaixo, trechos da entrevista:
![Marc Dennis, "<em>Three Jews Walk Into a Bar,</em>” 2023, oil on linen, 80 x 60 inches [≈ 203 × 152 cm], Picture courtesy of the artist.](https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2025/11/22Three-Jews-Walk-Into-a-Bar-2023-oil-on-linen-80-x-60-inches-.jpg)
Marc Dennis, ‘Três judeus entram em um bar’, 2023. Óleo sobre linho, 203 × 152 cm (80 x 60 in). Foto: cortesia do artista.
Marc Dennis (MD): Minhas intenções como artista quase sempre têm sido criar um espaço na pintura para que os espectadores se encaixem, de modo que não apenas vejam as obras, mas também sejam, de certa forma, participantes ativos nessa experiência. Eu chamo isto de “primeiro plano invisível”. Quanto ao cânone da arte ocidental, minhas obras integram antigos mestres a cenários contemporâneos, para destacar o relacionamento entre a arte clássica, o meio ambiente e o clima em que vivemos no mundo atual. Minha intenção geral é reconceitualizar o passado e o presente juntos para criar algo novo.
![Marc Dennis, "Three Jews Walk Into a Bar,” 2023, oil on linen, 60 x 58 inches [152 × 147 cm], Picture courtesy of the artist.](https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2025/11/22Three-Jews-Walk-Into-a-Bar-2023-oil-on-linen-60-x-58-inches-.jpg)
Marc Dennis, ‘Três judeus entram em um bar’, 2023. Óleo sobre linho, 152 × 147 cm (60 × 58 in). Foto: cortesia do artista.
MD: Minhas próprias memórias de infância, assim como as que estou construindo com meus filhos (agora adolescentes), são cruciais para o meu desenvolvimento contínuo como artista. Eu confio profundamente em minhas memórias porque estão entrelaçadas à minha personalidade. Eu me recordo de inúmeras lições e experiências da escola de arte — do meu fantástico e intenso interesse pelos Antigos Mestres, enquanto muitos dos meus colegas de classe estavam interessados apenas na arte contemporânea, em experimentar uma ampla variedade de materiais, apenas para ser direcionado às pinturas a óleo e às metodologias dos Antigos Mestres.
Também morei em Roma, como parte de um programa no exterior, oferecido pela Escola de Arte Tyler da Universidade de Temple, onde fiquei impressionado ao ver tantas obras que me marcaram visualmente e me seduziram mentalmente. Foi uma experiência que me levou a compreender não apenas as técnicas de pintura de Caravaggio, Rafael e Ticiano (durante minha estadia de um mês em Veneza), mas também a interpretar uma narrativa mais antiga em novos termos.
![Marc, Dennis, “This Must Be the Placer,” 2025, oil on linen, 51.75 x 41 inches [≈ 131 × 104 cm], Picture courtesy of the artist.](https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2025/11/This-Must-Be-the-Placer-2025-oil-on-linen-51.75-x-41-inches-.jpg)
Marc, Dennis, ‘Este deve ser o lugar’, 2025. Óleo sobre linho, 131 × 104 cm (51.75 × 41 in). Foto: cortesia do artista.
MD: Eu sempre fui fascinado por animais, árvores, plantas, flores, etc., basicamente pelas formas da natureza, desde criança. Eu queria desenhar muitas coisas — desde lagartos e sapos até plantas e flores, esquilos e zebras — e meu objetivo era retratá-las da forma mais autêntica e realista possível, para que os espectadores pudessem reconhecê-las e identificá-las imediatamente com o meu tema. Eu, na verdade, trabalhei arduamente no formato, modelo, importância, tonalidade etc., para captar tudo o que via, e isso, naturalmente, me direcionou para o hiperrealismo, como um estilo para expressar a beleza da natureza com precisão em meu trabalho. Ainda é importante para mim fazer as coisas certas antes de tomar liberdades. Além do mais, eu não sou um fotorrealista e não confio totalmente em fotografias como referência ou inspiração e, para mim, ter liberdade criativa e ultrapassar limites é muito importante.
OM: Especificamente para a série “Três judeus entram em um bar“, qual foi a sua ideia por trás da justaposição de figuras hassídicas à obra “Um bar no Folies-Bergère“, de Manet? Como você idealizou as composições? Como você vê a tensão entre os códigos rituais e religiosos das figuras hassídicas e a modernidade secular representada por Manet e quais reações você espera provocar?
MD: Há mais de 20 anos, tenho pesquisado e ensinado sobre o Holocausto, com foco nos trabalhos artísticos realizados pelos prisioneiros nos campos de concentração nazistas. Durante minha pesquisa, surgiram conceitos de humor judaico desde antes da Segunda Guerra Mundial até o pós-Holocausto, quando muitos judeus vieram para os EUA e se tornaram comediantes de stand-up ou de Hollywood. O humor está enraizado em nosso DNA. E para ser honesto, eu acredito que também posso ser engraçado, bem, às vezes, com certeza! Eu queria criar um conjunto de obras que fosse, para todos os efeitos, um mergulho profundo na minha ancestralidade e árvore genealógica, e o humor é uma grande parte disso.
Eu pensei que a premissa ou a infraestrutura da minha ideia seria a piada mais antiga do mundo — um rabino, um padre e um monge budista entram em um bar… ou um rabino, um pastor e um imã entram em um bar … ou, bem, você entendeu — três, seja lá quem for, entram em um bar. Eu optei por três judeus, uma vez que o trabalho é sobre mim, e escolhi o quadro mais famoso de um bar como cenário! É o ouro da comédia! “Ouro, Jerry, ouro!” Se você sabe, você sabe. Eu diria que essa série “Três judeus entram em um bar” foi “muito, muito, muito boa.” Novamente, se você sabe, sabe.

Marc Dennis, “Giotto’s Fy,” 2024, óleo sobre linho, 72 x 96 inches [182.88 × 243.84 cm]. Foto: cortesia do artista.
MD: Eu respeito todas as opiniões; afinal, nenhum artista consegue controlar as reações ao seu trabalho, mas, em vez disso, deve orientar ou sugerir uma resposta específica — e mesmo isso é um exagero. Meu trabalho está aberto à interpretações, e a reação de Jerry foi autêntica e realmente sincera. Ele é uma pessoa íntegra como eu e não precisa “gostar” do trabalho; o fato de Jerry admitir que não consegue parar de pensar no meu trabalho é realmente ótimo e um elogio, visto de uma perspectiva à parte — e, a propósito, é uma maneira muito judaica de ver as coisas. Respondendo à sua pergunta de forma mais ampla, eu adoro elogios e aprecio quem permanece por um tempo observando meu trabalho. No contexto geral, sem trocadilhos, tudo se resume ao que aprendemos enquanto crescíamos, seja com nossos pais ou avós … e isso é: se você não tem nada de bom para falar, não diga nada. Apenas siga em frente.
OM: Considerando os acontecimentos atuais — sociais, políticos, religiosos e culturais — há algo acontecendo ultimamente que tenha influência direta em seu trabalho? Como você considera que o seu processo criativo responde a esses acontecimentos ou resiste a eles?
MD: Estamos vivendo momentos cada vez mais controversos, e é importante para mim, como artista judeu, representar não apenas a minha herança, mas também a minha compreensão contemporânea do judaísmo, pois isso não vejo repercutir. No que diz respeito às mudanças climáticas, algo que penso muito a respeito, estou certo de que algumas das minhas obras abordam a constante destruição de nosso lindo planeta. Veja bem, nem sempre tenho consciência do que vai surgir nas minhas obras. Frequentemente, as pessoas veem coisas que não me ocorreram e isso é um elemento muito importante e divertido nas reações à minha arte. Adoro ouvir o que os outros veem e sentem sobre as minhas obras.
![Marc Dennis, “Ever After,” 2025, oil on linen, 50.75 x 41.75 inches [≈ 128 × 106 cm], Picture courtesy of the artist.](https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2025/11/Ever-After-2025-oil-on-linen-50.75-x-41.75-inches-.jpg)
Marc Dennis, ‘Para sempre,’ 2025. Óleo sobre linho, 128 × 106 cm (50.75 × 41.75 in). Foto: cortesia do artista.
MD: O sucesso sempre foi relativo para mim em cada fase da minha carreira, mesmo quando eu era criança e desenhava pássaros e lagartos à beira da piscina durante os quatro anos em que vivi em Porto Rico. Se eu tinha um objetivo em mente, eu o perseguia e dava o meu melhor para alcançá-lo. Fiz muitas obras de arte mal-sucedidas ao longo da minha vida. Assim como fiz muitas obras de arte bem-sucedidas e sou hoje a mesma pessoa que eu era quando criança. Dou o meu melhor no tempo que me é dado e sinto que ainda farei o meu melhor trabalho. Eu abordo cada quadro determinado que seja melhor do que o anterior. Até aqui, tudo bem.
OM: A questão da IA e da arte é cada vez mais urgente. Como você vê os avanços na IA (geração de imagens, ferramentas que simulam estilo ou composição) impactando artistas que trabalham com hiperrealismo, com habilidade manual e técnica magistral?
MD: Minha resposta a isso é simples e não penso muito sobre esse assunto, mas tenho quase certeza, pelo que conheço sobre os Antigos Mestres, de que se Leonardo da Vinci, Caravaggio e Vermeer estivessem aqui hoje, eles estariam usando a IA. E se eu não estou enganado, Vermeer e da Vinci tinham mais de 300 esboços catalogados em seus arquivos sobre formas de construir uma câmera obscura. Em essência, a tecnologia sempre foi abraçada pelos criativos! Então é isso.
![Marc Dennis, “In Our World,” 2024, oil on linen, 52 x 38 inches [≈ 132 × 96 cm], Picture courtesy of the artist.](https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2025/11/In-Our-Wolrd-2024-oil-on-linen-52-x-38-inches-.jpg)
Marc Dennis, ‘Em nosso mundo’, 2024. Óleo sobre linho, 132 × 96 cm (52 x 38 in). Foto: cortesia do artista.
MD: Hah! Que pergunta. Não é como perguntar a mim qual é o meu filho preferido, porque meus filhos são igualmente preferidos, mas algumas das minhas obras me tocam de maneira diferente. Resumindo, minhas obras favoritas são aquelas que crio em meu estúdio, que retomam meus temas clássicos de naturezas mortas, buquês de flores e referências à história da arte, de forma fresca e emocionante. Essas obras novas poderão ser vistas nas próximas feiras: Art Basel Miami Beach e Untitled in South Beach, Miami, em dezembro de 2025, e Art Singapore em janeiro de 2026. Falando de 2026, meu trabalho mais recente também estará em duas exposições individuais: Anat Ebgi Gallery em Los Angeles, programada para abrir em fevereiro de 2026, coincidindo com a Frieze em LA, e a Harper’s Gallery, Nova Iorque, programada para abrir na primeira semana de setembro de 2026, coincidindo com o The Armory Show na cidade de Nova Iorque. Marquem nas suas agendas.
![Marc Dennis, "Where the Sun Hits the Water", 2021, oil on linen, 60x57 inches [≈ 152 × 144 cm], Picture courtesy of the artist.](https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2025/11/marc-dennis-where-the-sun-hits-the-water_2021_oil_on_linen_60x57_inches-1.jpg)
Marc Dennis, ‘Onde o sol toca a água’, 2021. Óleo sobre linho, 152 × 144 cm (60 × 57 in). Foto cortesia do artista.
MD: Meu credo como pintor sempre foi impressionar os olhos e seduzir a mente. Eu não penso muito sobre a beleza e o poder; eu confio no meu instinto. As descobertas médicas sobre as biosferas instintivas e a ideia de que o instinto tem cérebro ou mente própria são precisas, pelo menos na minha opinião. Isso era para ser meio engraçado, mas é válido em grande medida, uma vez que confio muito no meu instinto para orientar minha produção criativa.
OM: A série Flores é impressionante por sua exuberância e uma atração quase hipnotizante. O que o atrai nas flores como tema?
MD: A universalidade das flores como uma conexão com momentos significativos da vida humana tem sido um interesse constante para mim desde sempre, desde quando eu prendi um ramalhete na minha lapela no baile de formatura até a experiência de ver flores em casamentos, funerais, bar e bat mitzvahs, batismos, Dia dos Namorados, nascimentos, mortes, etc. — a lista é infinita. Como um artista que visitou museus desde que eu era estudante de artes, sempre me senti atraído pelas pinturas de “Memento Mori” e “Vanitas”, e esse interesse só cresce. No fundo do meu coração, acredito que o mundo precisa de mais flores.
![Marc Dennis, "Caravaggio's Cat,” 2021, oil on linen, 32 x 34 inches [≈ 81 × 86 cm], Picture courtesy of the artist.](https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2025/11/22Caravaggios-Cat-2021-oil-on-linen-32-x-34-inches-.jpg)
Marc Dennis, ‘O gato de Caravaggio,’ 2021. Óleo sobre linho, 81 × 86 cm (32 X 34 in). Foto: cortesia do artista.
MD: Como eu disse, posso ser engraçado e frequentemente misturo minhas pinturas com meu senso de humor, ou, como os outros diriam, com meu senso de sarcasmo, sagacidade ou ironia. Não importa o caso, eu gosto do meu senso de humor e de deixá-lo transparecer de tempos em tempos. Para essa pintura em especial, pensei em um gato de estimação atrapalhando Caravaggio enquanto ele trabalhava, provavelmente no porão de alguém, e o gato decidiu fazer o que os gatos costumam fazer, e o resultado foi a pintura de um gato pulando.
É um breve momento no tempo que traz um sorriso ao rosto. Algo muito importante para mim como ser humano. Não há força maior do que o amor, que sempre vem acompanhado de sorrisos e risadas.







