
Captura da imagem do canal do YouTube do OBPE Burundi
Este artigo de Arthur Bizimana, originalmente publicado por Ibihe.org, faz parte de uma série de quatro investigações realizadas com o apoio do Pulitzer Center. Ele é republicado sob um acordo de parceria com a Global Voices.
Na República do Burundi, a produção de chá em larga escala entra em conflito com a proteção de espécies ameaçadas, como a dos chimpanzés. Um complexo de cultivo de chá que se estende ao longo do limite do Parque de Kibira, o mais importante dos três parques nacionais do Burundi, no noroeste do país, é onde está sendo construída a usina hidrelétrica de Mpanda.
Esta região está sendo atolada pela migração por projetos de desenvolvimento oriundos de comunidades locais, empresas produtoras e algumas instituições estatais, como a Organização dos Produtores de Chá de Burundi (OTB), a Autoridade de Produção e de Distribuição de Água e de Eletricidade do Burundi (REGIDESO), o Instituto de Ciências Agronômicas do Burundi (ISABU) e a Direção de Planejamento Agrícola e Pecuária (DPAE). Estas ações humanas são a causa da perda e da migração da vida selvagem.
Séverin Bagayuwitunze, 62 anos, nativo da região do noroeste do país, descreve um quadro assustador:
On rencontrait des chimpanzés, des gorilles, des phacochères quand la forêt était encore dense, mais maintenant, ils ont disparu. On peut traverser le secteur Rwegura du parc national de Kibira sans rencontrer un seul chimpanzé.
Antes, quando a floresta ainda era densa, havia chimpanzés, gorilas, javalis, mas, atualmente, eles desapareceram. Hoje, pode-se atravessar o setor Rwegura do Parque Nacional de Kibira sem encontrar um só chimpanzé.
Seja em Teza ou em Rwegura, nos dois setores do Parque Nacional de Kibira, os chimpanzés são raros. Pascal, um morador que vive perto do parque, relata :
La dernière fois que j’ai vu un chimpanzé dans le parc de Kibira, c’était en 2018. Depuis, nous les rencontrons occasionnellement.
A última vez que eu vi um chimpanzé no Parque de Kibira foi em 2018. Depois disso, nós os vemos ocasionalmente.
Segundo alguns estudos, o parque é hoje o habitat natural de mais de 200 chimpanzés, em comparação com os 500 que viviam ali antes do desmatamento.
Em outubro de 2019, a Terceira Comunicação Nacional sobre Mudanças Climáticas alertou sobre a perda de habitat natural dos chimpanzés entre 2009 e 2019. Estima-se que Kibira tenha perdido entre 10.000 e 12.000 hectares de cobertura arbórea. Seis anos após sua publicação, os níveis de desmatamento permanecem desconhecidos.
Em seu artigo científico « Chimpanzé (Pan troglodytes schweinfurthii), densidade e abundância de sua população dentro do Parque Nacional de Kibira, no Burundi » publicado pela Universidade de Liége em 2013, Dismas Hakizimana, pesquisador e professor da Universidade do Burundi, e Marie-Claude Huynen, pesquisadora e professora da Universidade de Liége, afirmam:
Leur habitat étant menacé, certains chimpanzés y ont laissé la vie et les rescapés ont déserté les secteurs de Kibira notamment Rwegura, Teza et Musigati. Ils se sont réfugiés dans le secteur Mabayi directement contigu au Parc National de Nyungwe/National Nyungwe Park (NNP) au Rwanda où ils recherchent la sécurité alimentaire et physique.
O habitat deles está ameaçado, alguns chimpanzés perderam suas vidas e os sobreviventes abandonaram as regiões de Kibira, especialmente Rwegura, Teza e Musigati. Eles buscaram refúgio em Mabayi, uma região adjacente ao Parque Nacional Nyungwe, em Ruanda, onde procuram por comida e segurança física.
Presença humana nociva
A sucursal da Organização dos Produtores de Chá de Burundi, localizada nos altos planaltos desta região, emprega mais de 1.000 assalariados e entre 7.500 e 8.000 trabalhadores diaristas na coleta de folhas verdes, no processamento, nas plantações de chá, na comunicação e na exploração florestal. Léonidas Nzigiyimpa, ecologista, observa que:
Ces ouvriers produisent un grand bruit sonore nuisant à l’habitat des chimpanzés, espèce phare de Kibira. Ils jettent les restes des nourritures, les sachets… En gros, ils polluent l’habitat des chimpanzés.
Esses trabalhadores produzem um ruído alto que é prejudicial ao habitat dos chimpanzés, uma espécie rara de Kibira. Eles jogam fora restos de comida, sacolas… Resumindo, eles poluem o habitat dos chimpanzés.
Durante a manutenção dos campos, alguns trabalhadores entram ilegalmente no interior do parque. Nzigiyimpa destaca:
Les entrées et sorties ne sont pas régulées et restent largement incontrôlées. Ils cueillent la nourriture des chimpanzés, notamment les fraises sauvages.
As entradas e saídas não são reguladas e permanecem sem controle. Eles colhem a comida dos chimpanzés, especialmente os morangos silvestres.
Berchmans Hatungimana, diretor-geral do Escritório Burundinês para a Proteção do Meio Ambiente, tem uma perspectiva semelhante.
No percurso da rota número um, ao longo do parque nacional, a população local exerce o comércio de frutas silvestres comestíveis, como morangos, para ganhar a vida. Pascal, que mora perto do parque, relata:
Nous avions atteint un stade où nous cueillions des fruits qui ne sont pas mûrs. Nous les conservions dans un lieu sûr et attendions qu’ils soient mûrs. Maintenant, ce commerce est quasi-inexistant. Les fraises sauvages ont presque disparu. Même les arbousiers ne portent plus leurs fruits.
Nós chegamos a um ponto em que colhemos frutas que ainda não estão maduras. Hoje em dia, este comércio está praticamente inexistente. Os morangos silvestres estão quase desaparecendo. Os morangueiros não dão mais frutos.
Os habitantes locais também praticam caça e colocam armadilhas para capturar animais do parque, denuncia o ecologista Nzigiyimpa. Segundo o professor Richard Habonayo, conferencista da Universidade do Burundi, esta situação faz com que os chimpanzés temam a presença dos humanos e mantenham distância.
Diante desta situação, Berchmans Hatungimana disse :
Nous avons des employés qui gardent le parc de Kibira 24 heures sur 24 pendant toute l’année. S’il advient qu’un ouvrier entre illégalement dans le parc et outrepasse les lois de la protection du parc, il est arrêté et livré à la société qui l’emploie pour qu’il soit puni conformément à la loi.
Nós temos vigias que guardam o Parque de Kibira 24 horas por dia, durante todo o ano. Se um trabalhador entrar no parque ilegalmente e ultrapassar as leis de proteção do parque, ele é preso e levado ao seu empregador para que seja punido conforme a lei.
Um estudo conduzido pela ONG Conservação e Mudanças na Comunidade (3C), citado por seu representante legal, Léonidas Nzigiyimpa, indica que o número de armadilhas aumentou ao longo do tempo, à medida que as atividades de desenvolvimento se intensificam e a população cresce ao redor do parque. Ele explica :
Outre les activités humaines, les plantations de thé constituent une barrière pour les chimpanzés dans leurs mouvements quotidiens de recherche de nourriture, car elles sont serrées et enchevêtrée. Elles coupent également la communication entre elles (différentes familles de chimpanzé) et limitent les femelles à retrouver les mâles issus d’une autre famille afin de s’accoupler et de se reproduire. Or, la reproduction des chimpanzés est lente. Cela limite la multiplication de la population des chimpanzés et contribue à réduire les effectifs.
Além das atividades humanas, as plantações de chá constituem uma barreira para os chimpanzés em suas atividades diárias para encontrar comida, pois estão ficando sem espaço e confusos. Eles também cortaram a comunicação entre eles (diferentes famílias de chimpanzés) e isso tem restringido as fêmeas de encontrar machos de outras famílias para se acasalar e reproduzir. A reprodução de chimpanzés é lenta. Isso tudo limita a multiplicação da sua população e contribui para a redução do seu número.
Nzigiyimpa afirma que os chimpanzés são os construtores das florestas e contribuem para a manutenção do equilíbrio ecológico. Ele alerta que se os chimpanzés desaparecerem, outros tipos de vegetação também seguirão o mesmo caminho.
Associar as comunidades locais
Segundo o professor Habonayo, a pobreza é um dos fatores que levam a comunidade local, em particular a comunidade de Batwa, muito presente na região dos Grandes Lagos, a explorar os recursos florestais.
Para melhorar suas condições de vida e deixar de depender das florestas para sobreviver, o governo deve implementar projetos geradores de renda para estas comunidades.
Além disso, o professor Habonayo recomenda investir na formação e no desenvolvimento das capacidades locais de gestão de recursos florestais. Ele salienta:
Il est impossible de protéger le parc de Kibira sans associer les communautés locales. On doit leur faire comprendre qu’elles ont une grande place dans la protection de sa biodiversité, qu’elle soit faunique ou florique.
É impossível proteger o Parque de Kibira sem a participação das comunidades locais. Temos que compreender que elas têm um grande papel na proteção de sua biodiversidade, tanto na fauna como na flora.






