
Monumento dedicado ao garimpeiro artesanal (aquele que escava com as mãos ou com meios básicos) na rotunda de Mwangeji, em Kolwezi, Lualaba, na RDC; foto de Simplice Bambe, usada sob permissão.
A vila de Kolwezi, situada na província de Lualaba, no sudeste da República Democrática do Congo (RDC), concentra 70% das reservas mundiais de cobalto. Denominada a “capital mundial do cobalto”, a vila está sob tensão em razão do conflito entre mineradores artesanais, também chamados de garimpeiros, e mineradores industriais.
Este recurso mineral é reconhecido hoje em dia como de suma importância por suas múltiplas funções e particularidades: desempenho energético, resistência ao calor e durabilidade, além de suas propriedades magnéticas. O cobalto é altamente valorizado nas indústrias de fabricação de carros elétricos, na aeronáutica e no setor médico. Este é um setor fundamental na RDC, pois emprega atualmente mais de três milhões de pessoas e contribui com 90% da economia do país.
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Em 19 de dezembro de 2025, Louis Watum, ministro de Minas da RDC, assinou um decreto para proteger as empresas de mineração e organizar o setor de exploração artesanal de cobre e cobalto em Kolwezi. Tal decisão, que exclui os garimpeiros artesanais, levou-os a um estado de descontentamento total, provocando mortes, pilhagem e vandalismo.
O primeiro e o segundo parágrafos do artigo 109 do Código de Mineração congolês reconhecem os garimpeiros artesanais como parte integrante da atividade mineradora. No entanto, esses trabalhadores não possuem zonas de exploração artesanal, embora representem mais de três milhões de indivíduos, segundo dados fornecidos por Louis Watum em 25 de novembro de 2025, no Fórum Makutano, em Kinshasa. O setor minerador sofre com a desorganização, em parte porque as autoridades congolesas preferiram vender quase todas as áreas de mineração do Grande Katanga, no sudeste do país, para investidores estrangeiros.
Ao final, os garimpeiros são frequentemente excluídos dos lucros das empresas industriais. Neste cenário, certas minas operam em um contexto de convivência volátil entre mineradores artesanais e industriais.
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A luta por sobrevivência dos garimpeiros
A falta de zonas oficiais de exploração artesanal leva os garimpeiros das províncias de Lualaba a entrarem à força nas áreas de mineração para obter o sustento de suas famílias. Estas invasões causam muitos danos e conduzem a conflitos por vezes mortais. Muitas pessoas testemunham casos de assassinatos e agressões graves registrados entre os trabalhadores das empresas mineradoras, geralmente perpetrados por operadores ou transportadores dos produtos das áreas de mineração até as usinas. Lamentando a situação, Junior Biane, operador de máquina, disse à Global Voices:
Nous sommes toujours attaqués dans les mines par les creuseurs artisanaux de Musonoie. Hier par exemple, nous avons été tabassés par les creuseurs et un collègue est touché à l'œil gauche.
Nós estamos sempre sendo atacados nas minas pelos garimpeiros artesanais de Musonoie. Ontem, por exemplo, nós fomos espancados pelos garimpeiros e um colega foi atingido no olho esquerdo.
As empresas, por sua vez, acusam o Estado congolês de não agir com a devida responsabilidade para proteger seus investimentos diante da exploração clandestina praticada por garimpeiros.
Os industriais exigem a proteção do Estado
A empresa Kamoto Copper Company (KCC), uma filial da Glencore, empresa anglo-suíça, cita, por exemplo, casos de invasões de garimpeiros devido à falta de zonas de exploração artesanal. Atualmente, as minas de T17, KOV e Mashamba, situadas na província de Lualaba, onde esta empresa gigante explora cobre, são frequentemente alvo de roubos de caminhões e ataques contra os funcionários. A concessão da empresa chinesa COMMUS está em situação semelhante.
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Neste contexto, em 3 de dezembro de 2025, os funcionários da KCC organizaram uma marcha até a sede do governo da província de Lualaba para denunciar invasões e atos de violência.
Até agora, nenhuma solução definitiva foi tomada pelas autoridades, pois o setor minerador é a base da economia congolesa. É o pulmão do PIB e o principal provedor de receitas públicas, visto que representa mais de 30% do orçamento nacional. O governo deveria, portanto, atender às preocupações das empresas.
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Apesar de sua riqueza em recursos minerais, a pobreza afeta mais da metade da população da RDC. Segundo um relatório do Banco Mundial, publicado em outubro de 2025, 85,3% da população da RDC vive em situação de extrema pobreza. A taxa de desemprego é estimada em 84%, enquanto a renda média anual por habitante é de US$ 1.600, ou seja, US$ 134 mensais.
A política atual do governo não propõe nenhuma solução duradoura, nem para os garimpeiros, nem para as empresas.






