Em luta por respeito, ativistas levam à Justiça ‘discurso de ódio’ contra a população LGBT em Moçambique

Membros da Lambda, organização de defesa dos direitos LGBT de Moçambique, durante acção em 2013. Foto: Lambda/Flickr, publicada com permissão.  

Comentários feitos em um programa de televisão de Moçambique levaram um grupo ativistas de direitos humanos a apresentar uma participação-crime na Procuradoria-Geral da República (PGR) de Maputo, apontando incitação à violência e discriminação contra a população LGBTQIA+, no começo de julho de 2025. Uma ação que talvez fosse difícil de imaginar há alguns anos. A homossexualidade deixou de ser considerada crime no país africano há apenas uma década.

A denúncia se refere a uma série de intervenções feitas pelo comentarista Narciso Paulo, de acordo com o site Carta de Moçambique . Em um programa na TV Sucesso, exibido no dia 3 de junho, quando se discutiu o tema “Homossexualidade – Orientação Sexual ou Problema Espiritual?”, o comentarista teria dito:  

Os pais devem fazer entender aos filhos homossexuais que isso é uma doença, só aí podem levá-los ao pastor…Quando um pastor vê um gay a entrar na sua igreja, deve chamá-lo e perguntar o que ele vai fazer na igreja.

Os ativistas apontam que as declarações feitas por Narciso, defendendo o uso de violência física contra jovens homossexuais e podendo expô-los ao risco e à marginalização, violariam artigos da Constituição da República de Moçambique aprovados em 2018, o código penal e a lei de imprensa. 

Ainda segundo a Carta de Moçambique, o comentarista disse que houve uma má interpretação de suas falas, e afirmou:

Eu não disse que as pessoas deveriam espancar os homossexuais na rua. Eu disse que um pai tem o direito de educar o seu filho por meio da porrada. E isso é bíblico. Temos a Lei da Família que serve para preservar os valores principais da nossa sociedade, como a moralidade. Quando falamos de família, sabemos que essa família é composta por um homem e uma mulher. Para a nossa sociedade, isso [a homossexualidade] não é normal. Eu sou contra essa prática dos gays e dos homossexuais porque é algo imoral para a nossa sociedade.

O que diz a lei

Desde 2019, a legislação moçambicana prevê atos de incitação ao ódio, descriminação e violência com base na identidade de género, no artigo 191 do código penal (Lei n.º 24/2019). Entre os pontos propostos está que pode ser punido “com pena de prisão de 6 meses a 5 anos, quem, em reunião pública, por escrito destinado a divulgação ou através de qualquer meio de comunicação social: a) provocar atos de violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa de sua raça, cor, origem étnica ou nacional, religião, sexo ou identidade de género”. A lei inclui ainda casos de difamação e ameaça aos mesmos grupos.

Além disso, o artigo 195 do código penal, conjugado com o artigo 41 da Constituição da República, limita o exercício da liberdade de expressão, sempre que seja usado, para promover o ódio ou a incitação e a devassa da vida privada, protegendo assim todos a dignidade e a segurança dos cidadãos. 

O ativista pelos direitos humanos e jurista Edu Meque, um dos membros do grupo de cidadãos queixosos, segundo publicação da organização LambaMoz no Facebook, afirmou

Não se trata apenas de responsabilizar uma figura pública, mas de reafirmar que os direitos humanos não são negociáveis, e que discursos de ódio não podem ser normalizados em Moçambique. Lembramos também que a impunidade para o discurso de ódio abre caminho à violência real, que muitos jovens LGBTQIA+ ainda enfrentam nas ruas, nas escolas e até nas suas próprias casas. Esta participação representa um marco na luta pelo respeito à dignidade e à igualdade de todos os moçambicanos.

A realidade da população LGBTQIA+

Com o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e o congelamento de ações ligadas a agência de ajuda humanitária USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), ONGs (organizações não-governamentais) em todo o mundo, foram afetadas, levando a interrupção de serviços críticos.

Especificamente em Moçambique, por exemplo, organizações como a Lambda, kutchindja, Transformar entre outras, que  diretamente trabalhavam com o Ministério da Saúde  e promoviam o acesso à saúde da população-chave, viram-se mergulhadas em cortes orçamentais, limitando cada vez mais suas ações.

O novo governo Trump também indicou a remoção de iniciativas DEI (diversidade, equidade e inclusão, na sigla em inglês). Entretanto, as siglas DEI ganharam maior visibilidade por conta da solidariedade prestada por organizações internacionais parceiras, que viram a necessidade de maior engajamento da população LGBTQIA+ junto dos tomadores de decisão por um lado.

Moçambique viveu um ciclo eleitoral marcado por episódios de violência, desde finais de 2024 e não viu, as questões ligadas à população LGBTQIA+ terem inclusão efetiva na agenda política de muitos dos partidos. Mas, nessa altura deu um marco histórico com a eleição do seu primeiro deputado assumidamente gay para  Assembleia da República.

O artista, fotógrafo e antropólogo Anésio Manhiça , diretor executivo da organização Inclusão, disse ao Global Voices que “muitas organizações LGBTQIA+ em Moçambique não falaram publicamente sobre posições políticas, temendo perder o reconhecimento como interlocutores legítimos e se limitaram em pautas, como saúde pública e direitos sociais junto de tomadores de decisão. E, num contexto de crise global, que agrava as vulnerabilidades sociais e econômicas, o continente africano e particularmente Moçambique, enfrenta desafios persistentes de profunda desigualdade econômica, a baixa taxa de alfabetização, o acesso limitado à alfabetização digital e suas repercussões racaem diretamente, sobre a vida e a economia da população LGBTQIA+”.

Chamada à pequenas ações

Segunda edição da Conferência Regional de Empoderamento Econômico LGBTQIA+ em Maputo, 2025. Foto: INCLUSÃO, uso autorizado

Poucos dias depois da apresentação da denúncia contra o comentador Narciso Paulo, no início de julho, várias organizações se reuniram na segunda edição da Conferência Regional de Empoderamento Econômico LGBTQIA+ em Maputo.

O evento reuniu pesquisadores, estudantes, ativistas, artistas, empreendedores, representantes dos setores públicos e privados, agências de cooperação internacional e a sociedade civil para refletir sobre como as pessoas e os coletivos LGBTQIA+ se adaptaram a um contexto de políticas que promovem retrocessos no respeito aos direitos humanos. Eles também discutiram as formas pelos quais negócios e empregos independentes, criados por pessoas LGBTQIA+, vivenciaram as crises e experiências que possibilitaram a sustentabilidade.

Manhiça, que também é coordenador do projeto Empreender com Orgulho, contou no evento, sobre um jovem que participou da conferência e que quis apresentá-lo a própria mãe: 

Durante muito tempo, carreguei uma sensação de insatisfação, senti que, enquanto jovem, ainda não estava a provocar as mudanças sociais possíveis, aquelas mudanças justas, profundas e verdadeiramente dignas para a juventude moçambicana. Mas, o “empreender com orgulho” Fez-me perceber que a agenda de empoderamento econômico LGBTQIA+ não é tão urgente, como transformadora. E, acima de tudo, me fez refletir sobre o poder das pequenas ações que estamos a levar a cabo, passo a passo, com dedicação, ações que têm impacto real, que inspiram, que criam novas possibilidades.

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